SÃO PAULO

Advogado escapa de 'tribunal do crime' do PCC: 'Fui torturado por horas'

Rafaell Câmara Roque foi mantido em barraco em comunidade de Cubatão (SP) sendo ameaçado para desistir de ação judicial

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O advogado criminalista Rafaell Câmara Roque, 36, foi sequestrado por membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) e passou por sessões de tortura durante horas em um barraco em uma comunidade em Cubatão, na Baixada Santista, em São Paulo. "Eu só não queria morrer, fiquei com medo. Vi o que que era importante na minha vida, o que não era", diz.

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Ele relata que conseguiu sobreviver ao concordar em desistir de uma ação judicial movida contra interesses dos criminosos.

O crime deu origem à Operação Patrocínio Fiel, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público de São Paulo, em parceria com a Polícia Militar, no dia 12 de agosto.

 


O caso aconteceu em 11 de junho, à noite. O advogado diz ter sido atraído para uma emboscada após receber uma ligação de um dos suspeitos, dizendo que precisava de um serviço advocatício.

Ao chegar ao local, em uma comunidade na Vila Esperança, em Cubatão, ele foi levado para um barraco e passou pelo chamado tribunal do crime. A intenção da organização criminosa era fazê-lo desistir do processo judicial e entregar o endereço do cliente.

O advogado explicou que ajuizou uma ação contra suposto membro do PCC, que teria expulsado seu cliente da sociedade de uma empresa de pesca, sem pagar nenhuma indenização.

A empresa dos dois fica em Guarujá. "Eu desconfio que o real interesse do cara que tomou a empresa é enviar droga para fora pelos barcos. E, como o sócio dele não ia querer fazer isso, ele expulsou para fazer isso junto com o PCC", afirmou Rafaell.

Ele disse que o cliente não é membro da organização criminosa. Afirmou que o cliente é amigo de infância do suposto membro do PCC, já cometeu crimes no passado e estiveram presos juntos, mas que agora leva uma vida honesta até onde ele sabe.

O advogado conta que no barraco onde foi mantido havia cerca de 30 homens. Outros 20 participavam do tribunal do crime de forma virtual.

Ele diz que, enquanto era julgado, vários criminosos embalavam drogas.

"Inicialmente, eles queriam que eu desse o endereço do meu cliente. Depois, eles viram que eu não ia 'caguetar' [dedurar], eles me torturaram psicologicamente, me ameaçaram, pegaram meu telefone, fizeram desbloquear, devassaram ele, mexeram em tudo lá. Acharam coisas minhas íntimas nos vídeos e fizeram eu gravar vídeo falando sobre aquelas coisas, e [disseram] que se eu não desistisse do processo, eles iam veicular."

O advogado diz ter concordado em abandonar o processo judicial e foi solto depois de ficar cerca de seis horas sob o poder dos criminosos. Rafaell realmente abriu mão do processo, mas denunciou o caso ao Gaeco.

"Uma sensação de injustiça, porque estavam fazendo comigo uma coisa ilegal até no mundo do crime. O lema do PCC é paz, justiça e liberdade. Eles tiraram minha paz, eles foram injustos e cercearam minha liberdade. Eles dizem que não pode caguetar e eles mesmos queriam que eu caguetasse", afirmou.

O advogado afirma que está com medo de morrer.

"Tenho que prezar pela minha vida. Fiquei sabendo que o Tribunal do Crime me decretou [à morte]. Eu tô com medo de morrer e eu gostaria que essas reportagens, a mídia reportasse isso para que algo acontecesse. O país precisa mudar. A gente tá num cenário político de bandidagem mesmo, de corrupção. O país tá destruído, e eu gostaria que isso mudasse, mas não sei se isso tem solução", disse.

Rafaell disse que está em processo de mudança pela segurança dele. 

A Operação Patrocínio Fiel tentou cumprir sete mandados de prisão contra investigados, dos quais três tiveram sucesso, e 19 de busca e apreensão, em Guarujá, São Vicente, Praia Grande e Cubatão, além de Florianópolis, em Santa Catarina. O Gaeco catarinense participou de diligências, em cooperação institucional.

Os agentes cumpriram os mandados em endereços residenciais e comerciais ligados ao grupo criminoso, além do imóvel onde o advogado teria sido mantido em cativeiro. O responsável pela emboscada foi preso.

Segundo a Promotoria, a operação foi planejada para interromper os crimes cometidos pelo grupo, preservar a integridade do advogado e obter provas fundamentais para o avanço das investigações. As investigações seguem em sigilo.

Durante a ação, conforme a SSP (Secretaria da Segurança Pública), um homem de 28 anos morreu após resistir à prisão em endereço na rua Olga Marques, em São Vicente. "Segundo o boletim de ocorrência, os policiais foram ao endereço para cumprir um mandado de busca e prisão e, ao entrarem na residência, foram recebidos a tiros", disse a pasta.

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Os alvos são apontados como importantes lideranças da facção, com atuação na Baixada Santista.

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