editorial

A metástase do crime organizado

A Operação Metástase revela uma cadeia perversa no qual o prejuízo financeiro se soma ao risco sanitário e ao sofrimento de pacientes

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A Operação Metástase, deflagrada pela Polícia Civil do Rio de Janeiro, mais uma vez demonstra que o crime organizado há muito deixou de se limitar ao tráfico de drogas. A investigação desarticulou uma organização especializada no roubo de medicamentos oncológicos e imunossupressores de alto valor, alguns destinados ao Sistema Único de Saúde (SUS). O grupo teria movimentado mais de R$ 33 milhões em apenas um ano e participado de pelo menos 40 roubos de cargas nos seis meses anteriores à operação. Cinco pessoas foram presas e 97 mandados de busca e apreensão foram cumpridos no Rio de Janeiro, em São Paulo, Goiás e Pará.

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As cargas eram levadas ao Complexo da Maré, com suporte territorial e armado atribuído, pela investigação, ao Terceiro Comando Puro, que controla parte da favela. Os medicamentos eram interceptados durante o transporte e encaminhados para áreas protegidas por criminosos armados. Depois, passavam por um processo de armazenamento, separação, fracionamento e redistribuição. A organização aliciava funcionários de transportadoras para obter informações sobre rotas, horários e conteúdo das cargas.


Em seguida, empresas de fachada, intermediários, entregadores e “laranjas” davam aparência legal aos produtos. Foram identificadas 25 empresas supostamente integrantes dessa engrenagem. Algumas teriam comercializado os medicamentos com hospitais privados e até com instituições públicas, por meio de processos de contratação nos quais os preços abaixo dos praticados regularmente no mercado proporcionavam uma vantagem ilícita.


Do roubo à reinserção da mercadoria na economia formal, esse percurso demonstra o grau de sofisticação alcançado pelo crime organizado. Trata-se de um complexo criminoso que opera com obtenção de informações, armazenamento, transporte, contabilidade, distribuição, comercialização e gestão financeira.


Os medicamentos oncológicos e imunossupressores são destinados a pacientes em situação de grande vulnerabilidade e precisam ser transportados e conservados sob condições rigorosas. Portanto, não se está diante somente de um crime patrimonial contra transportadoras, hospitais ou laboratórios, mas de uma ameaça direta à saúde pública.


Primeiro, o Estado perde uma carga adquirida com recursos públicos; depois, os produtos de origem criminosa retornam ao próprio sistema por meio de fornecedores de fachada. É uma cadeia perversa na qual o prejuízo financeiro se soma ao risco sanitário e ao sofrimento de pacientes que não podem esperar pela reposição dos produtos. As operações policiais não serão suficientes para impedir a repetição do esquema.


Notas fiscais, licenças sanitárias, movimentações bancárias e registros logísticos precisam ser cruzados para identificar empresas recém-criadas, fornecedores sem estrutura compatível com o volume negociado e mudanças atípicas no padrão de compras. Auditorias periódicas devem conferir estoques, prescrições, recebimentos e aplicações. As transportadoras, por sua vez, precisam aprimorar protocolos de segurança e restringir o acesso interno a informações sobre cargas sensíveis. Roubos devem ser imediatamente registrados em uma base nacional acessível às polícias.

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A lista de cuidados é longa, mas vital. A Operação Metástase deixa evidente que secretarias de Saúde, hospitais, ambulatórios, laboratórios públicos, compradores privados e agentes reguladores precisam reforçar e aperfeiçoar os mecanismos de controle de medicamentos, desde o fabricante à aplicação.

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