SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O administrador Vinícius Silva estacionou o carro por volta das 16h30 no endereço combinado no Butantã, na zona oeste de São Paulo. Enviou uma mensagem pelo celular para avisar que havia chegado, e logo começou a estranhar a demora. Era sábado, 1º de julho de 2023. Vinícius, à época com 35 anos, achava que conheceria Joyce, uma mulher que ele paquerava num aplicativo de namoro. Na verdade, o encontro marcado era com criminosos.

Poucos minutos depois da sua chegada, um carro branco surgiu em alta velocidade. Três homens desceram e o cercaram. Um deles tinha uma pistola de calibre .40 na mão e apontava para seu rosto. Vinícius foi obrigado a sentar no banco de trás, entregar o celular, a carteira e o relógio, e passar as senhas do banco. Um dos assaltantes assumiu a direção do carro, enquanto outro o ameaçava com a arma.

O administrador mantinha a cabeça baixada a todo tempo, para que não enxergasse o caminho, mas ouviu na conversa do trio que estava sendo levado para Osasco, na região metropolitana.

 

Entendeu também que, enquanto rodavam com ele no carro, os criminosos conversavam por telefone com comparsas para obter alguma conta bancária que recebesse seu dinheiro -até que alguém teria aceitado fazer a receptação "a uma taxa de 4%", segundo o depoimento da vítima.

Eles conseguiram roubar R$ 13 mil da conta de Vinícius, a partir de duas transferências, e ainda compraram comida via delivery e um maço de cigarro com seu cartão de crédito, acrescentando R$ 970 ao prejuízo. Quando o banco bloqueou automaticamente a conta, a vítima foi obrigada a entrar no porta-malas do carro.

A primeira transferência, de R$ 8.000, foi creditada na conta da empresa YCFShop Tecnologia em Ecommerce. Três anos depois, uma investigação da Polícia Federal agora aponta que a YCFShop faz parte de uma rede de lavagem de dinheiro do crime organizado que teria movimentado R$ 1,6 bilhão num período de 21 meses. 

A suspeita da PF é que dinheiro de apostas clandestinas, rifas ilegais e estelionato digital chegava às contas dessa e de outras firmas registradas como prestadoras de serviços financeiros. Um dos principais beneficiados pelo esquema, segundo a investigação, seria o cantor Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan.

O cantor, assim como o MC Poze do Rodo e outros seis investigados na Operação Narco Fluxo, foram soltos nesta quinta-feira (14) após passarem quase um mês presos. A desembargadora Louise Filgueiras, do TRF-3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região), afirmou que manter a prisão seria desproporcional diante da demora para o oferecimento da denúncia formal, o que ainda não foi feito.

"Não sou bandido, não sou faccionado, só quero cuidar da minha família e cantar funk", disse Ryan em postagem nas redes sociais. Ele e outros acusados tiveram os passaportes apreendidos, foram proibidos de sair da cidade de residência por mais de cinco dias sem autorização judicial, e deverão se apresentar à Justiça uma vez por mês para prestar informações sobre suas atividades.

O lojista Yago Camargo Francisco, 33, que abriu a YCFShop em 2022 e foi o titular da empresa até maio de 2024, não teve a mesma sorte. Ele continua preso após a 5ª Vara Federal de Santos, no litoral paulista, negar seu pedido de liberdade por entender que há risco de destruir ou alterar provas se for solto.

À Justiça, Yago afirmou que era laranja e não tinha o controle efetivo da empresa. Ele contou que foi procurado por empresários chineses que lhe propuseram usar a empresa como intermediária de pagamentos de casas de aposta. Ele não disse o nome dos empresários.

Suas únicas ações teriam sido abrir o CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) da empresa, alugar um espaço físico e repassar o controle das contas bancárias através de tokens digitais para pessoas que ele sequer conhecia, segundo sua defesa. Meses depois, Yago começou a receber ligações e ser informado dos golpes digitais que envolviam a empresa. Ele formalizou sua saída da empresa em maio de 2024, repassando o CNPJ a outra pessoa.

Seu advogado, Jorge Tarcha Neto, critica a tendência "de tratar o investigado periférico com o mesmo rigor cautelar dispensado ao núcleo dirigente". Ele afirma que Yago foi vítima de fraude e afirma que ele deveria ser solto.

Rede de empresas

A conexão entre MC Ryan e a YCFShop, que segundo diversos processos na Justiça recebeu dinheiro da extorsão mediante sequestro e de golpes digitais, passa por apenas um intermediário. Alexandre Paula de Sousa Santos, conhecido como Belga ou Xandex, recebeu R$ 2,9 milhões num período de dois meses da empresa.

Segundo a PF, ele é assessor do funkeiro que e também amigo de infância. Belga, segundo relatórios apresentados à Justiça, fez pagamentos diretamente a uma empresa do funkeiro, a MC Ryan SP Produção Artística.

Considerados os valores que passaram na sua conta pessoal e na de sua empresa, o assessor repassou um total de R$ 3,3 milhões no período de um ano e dois meses. Belga também fez pagamentos a intermediários que tiveram transações financeiras com Ryan e familiares do artista.

Procurada por mensagens na tarde desta quinta-feira (14), a defesa de Belga não respondeu. A YCFShop aparece ao lado da empresa Golden Cat Processamento de Pagamentos Ltda. em um processo judicial que, em setembro de 2024, resultou no bloqueio de plataformas ilegais de jogos de azar, que tinha o jogo do tigrinho como uma das principais atrações. Aberta por sócios chineses em 2023, a Golden Cat é considerada pela investigação "o topo da pirâmide financeira identificada" na investigação.

Em 2024, tanto a empresa de Yago quanto outra ligada aos donos da Golden Cat foram alvo de uma ação civil pública proposta pela Associação em Defesa da Integridade nos Jogos e Apostas (Adeja). A entidade afirma que as empresas deixam de pagar prêmios de apostas de forma generalizada, atuando na prática como plataforma de coleta de dinheiro mediante fraude.

Para a PF, o fato de as empresas serem acusadas no mesmo processo é sinal de que "ambas compõem o mesmo grupo de intermediadoras de pagamentos utilizados pela máfia das apostas para drenar a economia popular brasileira".

Assaltantes presos

O sequestro de Vinícius Silva terminou com todos os assaltantes presos pela polícia. Enquanto ele estava no porta-malas, o carro com os criminosos passou por uma viatura da PM. Os policiais deram ordem de parada, mas o motorista resolveu acelerar para tentar fugir. Acabou batendo na traseira de outro carro na avenida do Rio Pequeno, na zona oeste da capital. Os policiais encontraram Vinícius com as mãos atadas pelo cadarço do próprio sapato.

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Presos em flagrante, os três confessaram o crime, diz a polícia. Eles receberam penas de 15 anos de prisão. Das 33 pessoas presas durante a operação em 15 de abril, ao menos 13 já foram liberadas da prisão por diferentes decisões judiciais. Seis pessoas seguem foragidas, inclusive os representantes legais da empresa Golden Cat.

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