Em queda, antissemitismo no Brasil ainda é maior do que antes da guerra Israel-Hamas, diz entidade judaica
Conforme relatório, a maior parte das denúncias tem relação com publicações nas redes sociais. São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul lideram ranking
compartilhe
SIGA
FOLHAPRESS - O número de ataques e manifestações antissemitas no Brasil em 2025 caiu em relação ao ano anterior, mas ainda se manteve 149% maior que o índice registrado antes dos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e do início da campanha militar de Israel na Faixa de Gaza.
Segundo relatório divulgado pela Conib (Confederação Israelita do Brasil) nessa segunda-feira (30/3), foram registradas 989 ocorrências de antissemitismo no ano passado no país - um número 44,7% menor em relação a 2024 (1.788), mas 149,1% maior do que o de 2022 (397).
Leia Mais
A maior parte das denúncias, um total de 800, tem relação com publicações nas redes sociais. São Paulo (24%), Rio de Janeiro (10%) e Rio Grande do Sul (6%) lideram o ranking de maior número de casos reportados.
Das denúncias analisadas, 70,8% foram catalogadas como manifestações de "antissemitismo disfarçado de antissionismo", totalizando 696 dos casos. Segundo a Conib, os critérios de antissemitismo adotados na pesquisa são os formulados pela Aliança Internacional pela Memória do Holocausto.
De acordo com essas definições, o relatório considerou como antissemitismo o antissionismo, mas não todas as formas de dissenso com o governo israelense. A definição da IHRA afirma que "críticas a Israel, semelhantes às dirigidas contra qualquer outro país, não podem ser consideradas antissemíticas".
São classificadas como preconceituosas as declarações que responsabilizem coletivamente "os judeus pelas ações do Estado de Israel, o tratamento de indivíduos judeus como agentes de Israel em razão de sua identidade judaica, o uso do termo 'sionista' como eufemismo ou substituto para o termo 'judeu' e exigências para que judeus condenem publicamente Israel ou o sionismo para sua aceitação moral ou política".
Também são considerados antissemitismo discursos que neguem a possibilidade de existência de Israel como Estado.
"Slogans políticos como 'Palestina Livre' não são antissemitas a priori, mas passam a ser considerados quando dirigidos diretamente a indivíduos, grupos ou instituições judaicas visando a sua intimidação", afirma o relatório.
Adotada por uma série de órgãos e governos, a definição da IHRA é criticada porque, no entendimento de alguns especialistas, pode classificar como antissemitas críticas ao Estado de Israel - como sugerir, por exemplo, que ele não seja um Estado essencialmente judaico, mas sim compartilhado também por árabes ou outros povos.
O antissionismo, por sua vez, é um movimento político definido de maneiras variadas por quem o defende. Ele pode ser tanto uma oposição generalizada aos princípios sionistas -isto é, à afirmação de que deve haver um Estado judeu na terra bíblica de Israel- quanto uma negação do direito de Israel de existir como Estado para os judeus.
A alta nos casos considerados antissemitismo está diretamente relacionada à escalada de conflitos envolvendo Israel no Oriente Médio. No relatório divulgado nesta segunda, o pico de casos registrados em 2025 se deu em junho, durante o período da ofensiva dos Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Além do antissionismo catalogado como antissemitismo, houve 512 ocorrências de essencialização e generalizações. Elas incluem, por exemplo, a recorrência a estereótipos judaicos pejorativos, como a associação de características negativas como a avareza, a deslealdade ou a ganância, entre outros.
Entre os casos citados no relatório estão, por exemplo, pichações realizadas no Cemitério Israelita de Belo Horizonte equiparando estrelas de Davi a suásticas, publicações em que usuários dizem que é preciso "começar a queimar sinagogas no Brasil" ou "odiar judeus é obrigação", além de mensagem repassada no WhatsApp afirmando que "os judeus mataram Jesus".
Outro caso foi o do estudante de engenharia Vinícius Krug de Souza, que desenhou uma suástica no rosto para participar de formatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em fevereiro de 2025.
O departamento jurídico da Conib enviou 60 casos à Polícia ou ao Ministério Público desde 7 de outubro de 2023. De acordo com a organização, em 2025 foram recebidas 150 novas denúncias para análise jurídica, das quais o departamento estima que 90% sejam relacionadas a crimes no ambiente digital.
"O ano de 2025 confirma que não vivemos um pico passageiro. Judeus estão contendo a sua identidade, sendo hostilizados em escolas e no trabalho", afirmou Rony Vainzof, secretário da Conib e advogado especializado em Direito Digital, Proteção de Dados e Segurança Cibernética.
De acordo com a confederação, as 115.970 menções nas redes com teor antissemita teriam atingido um alcance de cerca de 66 milhões de usuários. Os números são referentes às plataformas abertas, como Instagram e X, e excluem aplicativos de mensagens como o WhatsApp.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
No Brasil, o antissemitismo é crime contemplado na Lei do Racismo, podendo levar à pena de um a cinco anos de reclusão. Se o crime for cometido por meios digitais, a pena é aumentada, começando em dois anos, mais o pagamento de multa.