MEIO AMBIENTE

Abelhas ajudam a recuperar áreas atingidas por rejeitos em Minas?

Estudos em Mariana e Brumadinho mostram a importância dos insetos para a regeneração da vegetação e os desafios para preservar diferentes espécies

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O trabalho de uma abelha não termina quando ela deixa uma flor. Ao procurar alimento, elas levam o pólen de uma planta para outra. Esse movimento, muitas vezes invisível aos olhos, é essencial para a reprodução da vegetação e para o surgimento de frutos, sementes e novas mudas. Em Minas Gerais, estudos realizados em Mariana e Brumadinho mostram como esses pequenos animais participam da recuperação de áreas atingidas por desastres ambientais e por que a presença deles faz diferença nesse processo.

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Em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde aconteceu o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 2019, um monitoramento realizado por biólogos da Vale identificou 35 espécies de abelhas nativas sem ferrão e mais de 900 colmeias. Os insetos estão distribuídos por diferentes pontos do município, tanto em áreas que foram impactadas pelo desastre quanto em locais que não sofreram esses efeitos diretamente.

Já em Mariana, na Região Central do estado, atingida pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015, uma pesquisa liderada por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) constatou que as áreas cobertas pelo rejeito apresentam mais abelhas do que as matas preservadas, mas com diferenças importantes na composição das espécies.

Mais de 900 colmeias identificadas

Desde 2019, biólogos da mineradora acompanham a presença de abelhas nativas sem ferrão em Brumadinho. Entre as 35 espécies identificadas estão jataí, mandaçaia, manduri, mandaguari e uruçu. O número representa aproximadamente 12% das cerca de 300 espécies conhecidas no Brasil.

O monitoramento abrange diferentes pontos da região e inclui áreas em processo de restauração ambiental e locais que passam por intervenções. O levantamento permite identificar quais espécies vivem no município, onde estão seus ninhos e quais ambientes oferecem condições para sua sobrevivência.

Cerca de 250 hectares estão em processo de recuperação ambiental, com aproximadamente 290 mil mudas plantadas. As ações incluem áreas diretamente atingidas pelo rompimento, reservas legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs).

Segundo Karla Leal, analista de meio ambiente da área de Meio Biótico da Vale, a recuperação de uma área exige mais do que o plantio de árvores. “Quando falamos em recuperação ambiental, não estamos falando apenas de plantar árvores. É preciso criar condições para que a biodiversidade volte a ocupar aquele espaço e para que as relações entre as espécies sejam restabelecidas. As abelhas são parte importante desse processo”, afirma.

Proteção dos ninhos

As abelhas nativas sem ferrão apresentam diferentes formas de construir seus ninhos. Algumas espécies ocupam cavidades naturais em troncos de árvores, enquanto outras utilizam formigueiros e cupinzeiros abandonados. Há ainda aquelas que constroem ninhos aéreos, fixados em galhos e outras estruturas.

O acompanhamento também permite identificar situações em que uma colmeia precisa ser retirada de um local que passará por intervenção ambiental. Nesses casos, especialistas avaliam a melhor forma de preservar a colônia. Dependendo das condições, o ninho pode ser transferido para uma área florestal adequada ou encaminhado ao meliponário mantido pela Vale em Brumadinho, onde recebe acompanhamento técnico.

Segundo a Vale, o manejo segue a Lei Municipal nº 2.355, de 22 de setembro de 2017, que estabelece medidas de proteção às abelhas nativas sem ferrão no município.

Mais abelhas não significa ambiente recuperado

Em Mariana, uma pesquisa sobre os efeitos do rompimento da barragem de Fundão identificou uma situação que chama a atenção: as áreas cobertas pelo rejeito apresentaram mais abelhas do que as matas preservadas. Apesar disso, a quantidade maior de insetos não significa que esses locais estejam em melhores condições ambientais.

Abelhas "comuns" dominam a paisagem devastada pelo rompimento da barragem em Mariana, revela estudo liderado pela UFMG
Abelhas "comuns" dominam a paisagem devastada pelo rompimento da barragem em Mariana, revela estudo liderado pela UFMG Divulgação/UFMG

O levantamento reuniu 10.721 abelhas, distribuídas em 88 espécies de cinco famílias. Nas áreas atingidas pelo rejeito, foram encontradas, em média, 14 espécies por ponto de coleta, número próximo ao registrado nas matas preservadas, onde a média foi de 12. A diferença entre os dois ambientes não foi considerada estatisticamente significativa pelos pesquisadores.

O estudo foi realizado por especialistas do Centro de Conhecimento em Biodiversidade (Biodiv), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Universidade de Oxford, a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), o Instituto Nacional de Biodiversidad, do Equador, e a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

Quantidade não é qualidade

Embora a variedade de espécies tenha apresentado resultados semelhantes, a quantidade de indivíduos foi maior nas áreas atingidas pelo rejeito. Nesses locais, foram registrados, em média, 197 exemplares por ponto de coleta. Nas matas preservadas, a média foi de aproximadamente 160 abelhas.

Para Kamilla Castelan, autora principal da pesquisa e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG, compreender como as comunidades de polinizadores são formadas ajuda a orientar medidas de recuperação ambiental.

“Entender a estrutura da comunidade de polinizadores, no caso as abelhas, é essencial para políticas públicas de restauração ambiental”, afirma.

A quantidade maior de insetos nas áreas degradadas está relacionada principalmente à presença de abelhas generalistas. Esses animais conseguem se alimentar de diferentes tipos de plantas e apresentam maior capacidade de adaptação a ambientes alterados. Por isso, conseguem permanecer em locais onde outras espécies encontram dificuldades para sobreviver.

O cenário é diferente entre as abelhas especialistas, que dependem de determinadas plantas para obter alimento. Com a destruição da vegetação pelo rejeito, parte dessas espécies desapareceu das áreas atingidas e permaneceu restrita aos fragmentos de mata preservada. A mudança também representa uma perda nas relações ecológicas entre os polinizadores e as plantas das quais dependem.

Influência das estações

A pesquisa também identificou diferenças na presença dos insetos conforme a época do ano. Nas áreas atingidas, foram coletadas 4.165 abelhas durante o período seco, enquanto na estação chuvosa o número foi de 1.754. Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram armadilhas durante as duas estações.

Uma das hipóteses consideradas pela equipe é que a menor oferta de flores durante a estiagem leve as abelhas a percorrer distâncias maiores em busca de alimento. Nesse deslocamento, os fragmentos de floresta que ainda oferecem recursos podem concentrar uma quantidade maior de insetos. Outra possibilidade é que o solo mais seco reduza o risco de alagamento dos ninhos construídos no chão.

A equipe também pretende aprofundar a investigação sobre as características dos polinizadores que conseguem permanecer nas áreas degradadas e daqueles que deixam de ocorrer nesses ambientes. “Queremos saber se o ambiente seleciona ou exclui abelhas com determinadas características e se a presença do rejeito é uma barreira para a ocorrência de alguma espécie baseada em algum atributo funcional”, explica Kamilla.

Florestas como ilhas verdes

Outro resultado do levantamento destaca a importância dos fragmentos de floresta nativa que permaneceram na região atingida pelo rompimento. A pesquisa identificou uma relação entre a presença dessas áreas em um raio de até 500 metros dos pontos de coleta e o aumento da quantidade de abelhas.

Os pesquisadores descrevem esses remanescentes como “ilhas verdes” em meio à paisagem modificada pelo rejeito. As áreas preservadas oferecem flores que servem de alimento aos polinizadores e árvores com cavidades que podem abrigar seus ninhos. Dessa forma, funcionam como refúgios para diferentes espécies e podem contribuir para que elas voltem a ocupar áreas degradadas.

As condições do solo, por outro lado, representam um obstáculo para parte desses insetos. O rejeito depositado pelo rompimento deixou a terra compactada, dificultando a escavação de ninhos por abelhas que constroem suas colônias no chão. Solos argilosos e sem contaminação oferecem condições mais adequadas para esse tipo de construção.

Recuperação além do plantio

Diante dos resultados, os pesquisadores defendem que os fragmentos de floresta nativa que restaram na região sejam protegidos de novos impactos. A preservação dessas áreas é considerada importante para manter os recursos de alimentação e abrigo necessários à sobrevivência dos polinizadores.

A recuperação ambiental na bacia do Rio Doce também precisa considerar as condições do solo, e não apenas o plantio de árvores. Entre as medidas apontadas está o uso de técnicas que permitam recuperar suas características físicas, especialmente por meio da descompactação da terra endurecida pelo rejeito. A medida pode favorecer a construção de ninhos e ampliar as condições para o retorno de diferentes espécies de abelhas.

O coordenador do estudo, o professor Geraldo Fernandes, do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, destaca que o acompanhamento deve considerar as mudanças nas espécies ao longo do tempo e as condições das colônias de abelhas, tanto as que vivem livremente na natureza quanto as manejadas.

“Essa abordagem poderá revelar não apenas os efeitos ecológicos de longo prazo do desastre, mas também seus possíveis impactos sobre a agricultura familiar e sobre os meios de vida das comunidades que dependem dos serviços de polinização”, adverte.

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*Estagiária sob supervisão do editor-executivo João Renato Faria

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