Tragédia em Petrópolis: nome da empresa de ônibus gera cobrança a inocentes
Com a mesma razão social de empresa envolvida em grave acidente na BR-040, que deixou 10 mulheres mortas, incluindo uma criança, agência de turismo de Campinas (SP) é alvo de cobranças e acusações
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A empresária Luciana Honorato, proprietária da Estrela Guia Viagens e Turismo, agência sediada em Campinas (SP), tem enfrentado transtornos após o acidente com o ônibus de turismo na BR-040, na serra de Petrópolis (RJ), que deixou 10 mulheres mortas, incluindo uma criança de 7 anos, e mais de 40 feridos.
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O ônibus de turismo envolvido na tragédia utilizava ilegalmente o mesmo nome da agência de Luciana – Estrela Guia. Após o tombamento do veículo na descida da serra de Petrópolis, em 16 de agosto, a empresária paulista passou a ser acionada por mensagens de cobrança, ligações desesperadas de familiares de vítimas e até acusações nas redes sociais.
Quase 40 dias depois do acidente, enquanto sobreviventes buscam assistência da empresa que realizou a viagem turística com destino à Praia de Copacabana para custear os tratamentos médicos, o caso acende um alerta sobre as precauções antes do embarque e reforça os direitos garantidos por lei a passageiros de transporte rodoviário.
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O impacto da confusão
Luciana Honorato relata que tomou conhecimento do acidente no próprio domingo da tragédia, 16 de agosto, ao receber mensagens no WhatsApp com pedidos de socorro e busca por notícias de passageiros.
"Recebi uma mensagem com DDD de Minas Gerais. A pessoa dizia que a mãe estava desesperada por notícias. Eu expliquei que não estava em viagem, que não tinha nenhum ônibus em meu nome e que nem sequer faço esse tipo de transporte. Foi aí que tomei conhecimento da tragédia", conta a empresária.
Procurada pelo Estado de Minas, a empresa de Belo Horizonte, responsável pela viagem, não atendeu aos telefonemas e também não respondeu à reportagem em suas redes sociais. O único contato é um perfil no Facebook, sem postagens desde 2022.
O fato de a agência de Campinas manter todos os seus canais e registros com o nome Estrela Guia abertos acabou direcionando parentes e imprensa até ela.
Dona do nome e diferenças de viagem
A empresária ressalta que atua no setor de turismo há 23 anos e é a proprietária legal da marca Estrela Guia Viagens e Turismo, com patente registrada na Receita Federal. Segundo ela, essa segurança legal tem sido a salvação para desassociar a imagem da empresa do acidente.
"A minha agência é de Campinas e não possui nenhum vínculo com essa empresa de Belo Horizonte. A minha marca é patenteada. Meus advogados, inclusive, alertaram que, se eu não tivesse o registro oficial da marca e da patente, seria muito mais difícil provar que não tenho nada a ver com isso", explica Luciana.
A empresária aponta ainda que o modelo de negócio da empresa envolvida na tragédia é diferente do trabalho executado por sua agência.
A empresa envolvida no acidente na BR-040 operava viagens no formato "bate e volta" (saídas no sábado à noite e retorno no domingo). Já a agência de Campinas trabalha exclusivamente com pacotes turísticos completos com hospedagem, viagens internacionais e cruzeiros marítimos, com seguros de viagem para os passageiros.
Solidariedade com a dor das famílias
Apesar dos transtornos e do desgaste de ter o nome de sua agência associado à tragédia, Luciana ressalta que a sua maior preocupação é com as vítimas e seus familiares. Durante a entrevista, a empresária se comoveu com os relatos da comunidade Vila Acaba Mundo, em Belo Horizonte.
"O que eu quero é justiça, da mesma forma que as pessoas que perderam familiares querem. Eu me compadeço demais com as vítimas e com os familiares. Teve uma mãe que perdeu duas pessoas de uma vez, uma irmã e uma criança de 7 anos. A dor para eles é infinitamente maior. Eu me compadeço de verdade, mas infelizmente não sei nada para poder ajudar", desabafou a empresária.
Luciana criticou também a falta de responsabilidade e de garantias básicas no transporte dos passageiros, destacando que o turismo exige compromisso com a vida dos clientes.
"Nós trabalhamos com vidas. A partir do momento em que vendemos um pacote, são vidas que estão nas nossas mãos. Eu jamais saio com meus passageiros sem ter um seguro de viagem. Se acontece algo, a pessoa tem um respaldo. O mínimo que essa empresa deveria fazer agora é arcar com os remédios e ajudar quem está ferido, mas abandonaram as pessoas sem nenhum amparo", afirma a empresária.
À procura dos responsáveis
Os advogados de Luciana Honorato tentaram notificar judicialmente a empresa de Belo Horizonte responsável pelo ônibus para exigir a remoção da marca de todos os veículos, mas não conseguiram. Segundo ela, a notificação enviada ao endereço do CNPJ cadastrado em Belo Horizonte não foi entregue, pois o local não pertence mais aos proprietários.
O drama após a tragédia
Na outra ponta da tragédia, a realidade da comunidade Vila Acaba Mundo, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, completa mais de um mês marcada por protestos e abandono. Moradores e sobreviventes realizaram mobilizações cobrando apoio financeiro, atendimento psicológico e respostas sobre as investigações.
Entre os relatos marcantes está o de Maria Luiza Souza, de 27 anos, moradora da vila que viajava com as quatro filhas e a irmã. Ela perdeu a filha Lavínia, de 7, e a irmã, Priscila Ferreira Carvalho, de 33, no acidente. Além do trauma e das cicatrizes físicas, a família precisou fazer uma vaquinha organizada pelos próprios vizinhos para comprar medicamentos e evitar que sua outra filha, de 4, perdesse a visão por conta dos ferimentos no rosto.
Até o momento, de acordo com os relatos das vítimas, nem a transportadora nem os órgãos competentes prestaram auxílio às famílias afetadas, que lutam para reconstruir suas vidas.
Alerta aos passageiros antes de viajar
A tragédia na BR-040 mostra a necessidade de se atentar aos riscos antes de viajar. A orientação é que os cuidados comecem muito antes do embarque.
Para não contratar serviços irregulares ou ficar desamparado em caso de maiores imprevistos, especialistas e órgãos de fiscalização orientam adotar os seguintes passos antes de planejar uma viagem:
- Checagem do registro da empresa: verifique se a operadora possui cadastro ativo e autorizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), para trajetos interestaduais, ou ao órgão estadual competente.
- Exigência de seguro viagem: confirme se o pacote inclui seguro com cobertura contra acidentes pessoais. Como destacou a empresária Luciana Honorato, o amparo financeiro e hospitalar imediato é uma garantia básica prevista em contratos regulares.
- Inspeção visual e equipamentos do veículo: observe as condições de conservação do ônibus (pneus, faróis e saídas de emergência). Confirme a presença do cinto de segurança funcional em todas as poltronas – caso esteja quebrado, o passageiro tem direito de solicitar a troca do assento ou do veículo antes da partida.
- Canais de atendimento oficiais: desconfie de empresas que operam apenas por redes sociais informais ou informam endereços inexistentes, dificultando a responsabilização legal em episódios graves.
O ônibus envolvido no acidente na serra de Petrópolis, de placa AKY-3454, não estava habilitado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para realizar transporte interestadual de passageiros. Segundo a agência, a viagem foi classificada como transporte clandestino.
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* Estagiário sob a supervisão da subeditora Tetê Monteiro