TRAGÉDIA NA 040

‘Vamos morrer dormindo’: sobrevivente relata acidente com ônibus no RJ

Passageira de 27 anos, que perdeu a filha, de 7, e uma irmã na tragédia, conta que alertou o motorista sobre velocidade do ônibus antes do tombamento na BR-040

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O que deveria ser uma viagem em família para conhecer a praia terminou em tragédia para moradores da Vila Acaba Mundo, em Belo Horizonte. Maria Luiza Souza, de 27 anos, estava no ônibus que saiu da capital mineira com destino ao Rio de Janeiro quando o veículo tombou, por volta das 4h30 desse domingo (16/8), no km 91 da BR-040, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Dez pessoas morreram, incluindo a filha dela, Lavínia, de 7, e a irmã, Priscila Ferreira Carvalho, de 33.  

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Uma tia de Maria Luiza, Ângela, também estava no coletivo e sofreu uma lesão na coluna.

Em entrevista ao Estado de Minas, Maria Luiza detalhou as horas que antecederam o acidente e afirmou que os passageiros perceberam que o ônibus balançava excessivamente. Segundo ela, o grupo embarcou por volta das 21h, em frente à Prefeitura de Belo Horizonte (PBH). Familiares e vizinhos viajavam juntos para passar alguns dias no litoral.

Logo no início do trajeto, ainda na capital, ela percebeu que o veículo apresentava muito balanço. Ao chegar próximo à BR, na altura do Morro do Papagaio, o motorista teria aumentado a velocidade.

Ela e outros passageiros procuraram o guia turístico para reclamar da condução. Conforme o relato, o responsável pela viagem teria explicado que o balanço era normal porque o ônibus tinha dois andares e que os passageiros se acostumariam.

A explicação não tranquilizou a passageira, que chegou a dizer que sua preocupação não era chegar a tempo para ver o nascer do sol, mas chegar ao destino em segurança. “Eu queria chegar lá com vida”, afirmou.

Depois de uma parada durante a madrugada, o motorista teria voltado a acelerar. O coletivo passou a chacoalhar de um lado para o outro, segundo a sobrevivente, provocando reclamações entre os passageiros.

Enquanto alguns familiares tentavam dormir, ela preferiu permanecer acordada, justamente com medo de que algo pudesse acontecer. Ela, inclusive, chegou a pensar: “Se continuar desse jeito, vamos morrer dormindo, porque isso aí não é normal”. A apreensão era ainda maior porque, além de Lavínia, seus outros três filhos estavam no ônibus: Ícaro, de 10; Maia, de 4; e uma bebê de 1 ano.

A passageira afirma que chegou a ir até o motorista para pedir que diminuísse a velocidade. Ela relatou que havia crianças no ônibus, incluindo a bebê e Maia, que é autista e estaria assustada.

Segundo ela, o condutor não teria respondido ao alerta e continuou a viagem da mesma forma. Pouco depois, Maria Luiza percebeu que o farol do ônibus teria apagado. Ela avisou a irmã e outros familiares sobre o problema.

Na sequência, durante uma descida, o veículo teria começado a se movimentar de um lado para o outro. De acordo com o relato dela, o motorista perdeu o controle e o ônibus passou a fazer zigue-zague.

Diante da situação, ela começou a pedir que o veículo parasse. “Pedi ao motorista para parar, para puxar o freio de mão. Ele ia bater."

Segundo a Maria Luiza, o ônibus atingiu um carro e outros obstáculos às margens da rodovia. Na sequência, bateu em uma ribanceira e tombou em direção a uma área de árvores.

Desespero após o tombamento

No momento do impacto, a sobrevivente estava com os filhos. Segundo ela, Priscila pediu que segurasse a bebê enquanto tentava proteger as outras crianças.

Depois que o coletivo tombou, Maria Luiza começou a procurar os filhos em meio aos destroços. A bebê estava ferida e precisou de atendimento. Também houve uma busca desesperada por Lavínia, mas foi em vão.

Crianças estavam em diferentes pontos do ônibus

Os familiares e vizinhos estavam sentados em diferentes pontos do ônibus. Maria Luiza estava mais à frente, enquanto a irmã ocupava um lugar mais atrás.

O guia turístico teria orientado que crianças não permanecessem sozinhas nas primeiras poltronas e reorganizado alguns lugares. A passageira contou que não conhecia o homem antes da viagem.

Era a primeira vez que Lavínia, Maia e a bebê viajavam para conhecer a praia. Ícaro já havia feito uma viagem anteriormente.

A mãe contou que tinha medo de viajar justamente por receio de acidentes. Mesmo assim, decidiu ir depois da insistência de Lavínia, que queria conhecer o litoral. Ela preparou as coisas da menina de última hora e embarcou com os filhos.

Sobreviventes permanecem no Rio

Após a tragédia, a família permaneceu no Rio de Janeiro para acompanhar os feridos e os procedimentos relacionados às vítimas.

Ícaro e a bebê receberam alta no domingo. Maia continuava em atendimento por causa de um ferimento no olho. A tia Ângela, que sofreu uma lesão na coluna, estava internada em outro hospital e, segundo a família, deveria receber alta.

Parentes também viajaram de Minas Gerais para acompanhar os sobreviventes. Conforme o relato, três carros foram organizados para levar familiares até o Rio.

A liberação dos corpos ainda não havia sido realizada na manhã desta segunda-feira (17/8). De acordo com a Polícia Civil do Rio de Janeiro, nove vítimas foram encaminhadas ao Posto Regional de Polícia Técnico-Científica (PRPTC) de Petrópolis para os exames necessários à identificação e liberação.

Comunidade se mobiliza para ajudar

Desde as primeiras horas após o acidente, moradores da Vila Acaba Mundo se mobilizaram para acompanhar as vítimas e dar suporte aos familiares.

Segundo a família, uma vaquinha foi organizada para ajudar com hospedagem e outras despesas. Amigos, parentes e moradores também providenciaram transporte e se deslocaram para o Rio de Janeiro.

A rede de apoio tem sido importante principalmente para quem permanece no estado acompanhando os feridos e os procedimentos relacionados aos mortos.

Enquanto enfrenta a perda da irmã e da filha, a sobrevivente tenta se manter ao lado dos filhos que ficaram.

“Tem que ser forte porque tem os outros que precisam. Tem a Maia, que é autista, que precisa de mim. Mas meu coração, só Deus sabe”, afirmou.

Ônibus era irregular

O ônibus envolvido no acidente, de placa AKY-3454, não estava habilitado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para realizar transporte interestadual de passageiros. Segundo a agência, a viagem foi classificada como transporte clandestino.

O veículo está registrado em nome da Dinna Ellles Turismo, que possui comunicação de venda para a PIT Tur Transportes Ltda. Nenhuma das duas empresas está habilitada pela ANTT para o transporte interestadual de passageiros. A agência também informou não ter localizado empresa habilitada com o nome Estrela Guia Turismo, apontada como responsável pela viagem.

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A Estrela Guia Turismo informou que não fará esclarecimentos neste momento e que sua manifestação será apresentada nos autos do processo. Em nota, a empresa lamentou o acidente, afirmou prestar assistência às famílias das vítimas e disse colaborar com as investigações.

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