Vila Acaba Mundo protesta por apoio e justiça um mês após tragédia no RJ
Mãe que perdeu a filha de 7 anos e a irmã no acidente com o ônibus de turismo relata dor, falta de assistência e cobrança por justiça; no mesmo local, comunidade tenta retomar rotina com projeto cultural que havia sido adiado pelo luto
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A dor do luto, o desespero e a indignação tomaram a Praça Carioca, no Bairro Sion, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na tarde desta quarta-feira (16/9). Exatamente um mês após o grave acidente de ônibus que matou 10 pessoas na BR-040, em Petrópolis (RJ), moradores da Vila Acaba Mundo e familiares das vítimas se reuniram às 16h em um protesto para cobrar respostas, responsabilização e amparo das autoridades e da empresa responsável pela viagem.
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O veículo da empresa Estrela Guia Turismo - MG havia saído da capital mineira rumo ao Bairro Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro, quando tombou na madrugada de 16 de agosto. No coletivo viajavam dezenas de pessoas, incluindo pelo menos 12 moradores da comunidade.
Segundo relatos dos próprios moradores, até o momento nenhuma família afetada recebeu suporte financeiro ou psicológico por parte da empresa. A solidariedade entre os vizinhos tem sido o único amparo dos sobreviventes.
O relato emocionante de uma mãe
Entre os manifestantes presentes na Praça Carioca estava a moradora Maria Luiza, que viajava no coletivo com seus quatro filhos. Ela perdeu no acidente a filha Lavínia, de apenas 7 anos, e também a irmã, deixando sobrinhos órfãos.
"Eu quero justiça porque perdi a minha filha de 7 anos, que tinha um futuro pela frente, por causa da negligência do motorista. Eu pedi o tempo todo, ele não me escutou (...) É muito doloroso, é desesperador. Só eu sei todo dia quando deito com a cabeça na cama, as lembranças da minha filha e o terror que a gente viveu dentro daquele ônibus", desabafou Maria Luiza.
Além do trauma emocional, a família carrega as marcas físicas do acidente. Maria Luiza ficou com manchas e ferimentos no rosto. Sua filha de 4 anos sofreu machucados graves na cabeça e na face, enquanto a bebê de 1 ano e 6 meses teve escoriações.
A moradora reforçou a ausência completa de auxílio das autoridades ou da empresa transportadora após a tragédia. Os medicamentos necessários para evitar que a filha de 4 anos perdesse a visão do olho atingido só foram adquiridos graças a uma vaquinha organizada pela própria comunidade.
"Nenhum momento procuraram a gente. Os povos da nossa comunidade são muito unidos, fizeram vaquinha para me ajudar a comprar os remédios dela porque ela estava correndo risco de perder a vista (...) Eu ainda não estou com cabeça para recorrer a advogados porque não vivi nem meu luto ainda. Prestei depoimento e perguntei qual era o resultado, e até hoje estamos sem saber de nada. Já se passou um mês e não tenho resposta de nada", concluiu Maria Luiza.
Os moradores temem que o caso caia no esquecimento e cobram apuração das causas do tombamento.
Makambas na Rua retoma programação
Paralelamente às mobilizações por justiça, a comunidade busca caminhos para a reconstrução do afeto e do acolhimento. Depois de uma pausa necessária diante do momento de luto vivido pela Vila Acaba Mundo, o projeto Makambas na Rua retoma sua programação com uma agenda gratuita voltada às crianças, famílias e moradores do território.
A mostra cultural "Makambas na Rua: Brincar, Contar e Celebrar a Vila Acaba Mundo", realizada pelo grupo Makamba Brincante, promoverá três domingos de atividades dedicadas às culturas da infância, à oralidade e às tradições afro-brasileiras. O projeto foi temporariamente adiado em agosto justamente devido à tragédia que abalou a comunidade.
Idealizado por Rita Aragão e Roniza Santiago, artistas, educadoras e moradoras da Vila Acaba Mundo, o projeto atua há mais de 10 anos na valorização de saberes populares. "A proposta do Makambas na Rua é fazer da própria Vila Acaba Mundo o espaço para a realização das atividades, fortalecendo os vínculos com a comunidade e valorizando os artistas e saberes presentes no território", destacam as organizadoras.
Programação estendida em setembro
- As atividades ocorrem em diferentes pontos do território:
- 13 de setembro (Praça Carioca, das 9h às 12h): Abertura com o Cortejo das Makambas e a apresentação “Menineça Sabi com as Makambas”, reunindo música, dança e brincadeiras populares. (Em caso de chuva, a programação acontecerá na Associação dos Moradores da Vila Acaba Mundo – Beco da Igreja, 59).
- 20 de setembro (Casa Bem Me Quer, das 10h às 12h): Oficina “Brinquedos Antigos” e manhã de brincadeiras tradicionais entre diferentes gerações.
- 27 de setembro (Praça Carioca, das 10h às 14h): Encerramento com a Mostra Jovens Talentos, com apresentações de artistas locais e o espetáculo de palhaçaria “Led e Lamparina”.
O projeto Makambas na Rua é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, com entrada gratuita e infraestrutura de acessibilidade (incluindo intérprete de Libras e monitor especializado para acolhimento de pessoas com deficiência).
Para mais informações, acompanhe o Instagram oficial: @makambabrincante. (Com informações de Quéren Hapuque)
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*Estagiário sob supervisão da subeditora Regina Werneck