Família lança petição após feminicídio de estudante em Barbacena
Parente da vítima de feminicídio defende mudanças na legislação e fortalecimento da rede de proteção às mulheres
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O assassinato da estudante de medicina Letícia de Morais Vasconcelos Rodrigues, de 40 anos, encontrada morta dentro do apartamento onde morava, em Barbacena, no Campo das Vertentes, deu início a uma mobilização que pretende transformar a tragédia em uma causa nacional de enfrentamento à violência contra a mulher. Familiares lançaram a petição pública "Justiça por Letícia", que reúne assinaturas em defesa do fortalecimento das políticas de proteção às mulheres, do aperfeiçoamento da legislação e da ampliação da rede de acolhimento às vítimas de violência doméstica.
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O caso aconteceu no último sábado (27/6). O companheiro dela, Gustavo Dutra, de 24 anos, foi preso em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva. A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) investiga o caso como feminicídio.
Antes do crime, a vítima havia registrado boletins de ocorrência contra o suspeito por episódios de violência doméstica. Conforme a investigação, ela chegou a solicitar medidas protetivas, mas posteriormente retirou a representação.
“Justiça por Letícia”
A família afirma que o objetivo da ação é impedir que outras mulheres tenham suas vidas interrompidas pela violência. A iniciativa surgiu poucos dias depois do crime e tem como principal porta-voz a empresária Juliana Velloso, “tia de coração” de Letícia – irmã do padrasto da estudante – e responsável pela criação do abaixo-assinado.
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Em entrevista, Juliana afirmou que a intenção da família é fazer com que a história de Letícia ultrapasse os limites do processo criminal e provoque mudanças concretas na forma como o país enfrenta a violência de gênero.
"Essa causa vai ser minha. O intuito é mudar. O intuito é transformar, que as leis sejam mais rígidas. Que, a partir do momento em que uma mulher vá a uma delegacia e faça um boletim de ocorrência, isso se transforme em uma investigação. Não pode parar ali", afirmou.
Segundo ela, a morte da sobrinha evidencia um problema que atinge mulheres em todas as regiões do Brasil e que não pode mais ser tratado como um episódio isolado.
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"Não podemos falar só de Minas Gerais. Isso acontece no Rio de Janeiro, em Santa Catarina, em todos os lugares. É a nossa família hoje, amanhã será outra. Depois outra. É uma história que não acaba. O país tem que parar e dizer: basta", pede.
Na avaliação de Juliana, a legislação precisa oferecer respostas mais efetivas às mulheres que procuram ajuda. Para ela, o registro de uma denúncia deve desencadear uma atuação imediata dos órgãos responsáveis.
"Quando uma mulher faz um boletim de ocorrência, alguma coisa já aconteceu. É preciso investigar, acompanhar e proteger. Não pode simplesmente ficar registrado e a vida seguir normalmente."
Mobilização nacional
Além da responsabilização do autor do crime, a petição apresenta uma série de reivindicações voltadas à prevenção da violência contra a mulher. O documento pede acompanhamento rigoroso e transparente do processo judicial, fortalecimento das políticas públicas de enfrentamento ao feminicídio, integração entre os órgãos de atendimento às vítimas, ampliação da rede de proteção e investimentos permanentes em educação e conscientização.
"A memória de Letícia não pode ser reduzida à violência que lhe tirou a vida. Ela será lembrada pelo amor aos filhos, pela dedicação à família, pela coragem de recomeçar e pelo sonho de cuidar das pessoas", afirma o texto da campanha.
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A estudante tinha dois filhos e estava no décimo período de medicina. Poucos dias antes de morrer, havia participado da cerimônia de entrega do jaleco, um dos momentos mais simbólicos da formação médica.
"Crimes tão bárbaros como esse não podem virar apenas mais uma estatística. A Letícia precisa virar uma causa. É isso que estamos tentando fazer”, explica a empresária.
Ela afirma que já procurou parlamentares e pessoas ligadas ao enfrentamento da violência contra a mulher para ampliar a repercussão da campanha. Segundo Juliana, também entrou em contato com a assessoria da primeira-dama Janja Lula da Silva, que tem participado de discussões sobre políticas voltadas às mulheres.
"O que a gente precisa é furar a bolha. Quando um caso desses acontece, ele não pode ficar restrito a uma cidade ou a um estado. Precisamos transformar essa indignação em mudança."
Violência psicológica
A entrevistada contou que a vítima enfrentava dificuldades para compartilhar com a família os problemas vividos no relacionamento. Segundo ela, a violência psicológica teria contribuído para o isolamento da estudante.
"Ela tinha muita dificuldade de assumir isso para a família. Existia medo. Existia um domínio psicológico muito forte. A gente precisa falar sobre isso também, porque muitas mulheres vivem essa realidade."
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Ela lembra que a futura médica chegou a registrar duas ocorrências contra o companheiro, mas voltou atrás posteriormente. "Ela criou coragem para denunciar, mas acabou voltando atrás. Isso acontece porque muitas mulheres vivem uma situação de manipulação e medo. É preciso entender essa realidade e oferecer proteção."
"Ela precisa virar um símbolo"
Outro momento que marcou a família, segundo Juliana, ocorreu após o crime, quando conversou com o ex-marido de Letícia, pai dos dois filhos da estudante. Foi ele quem encontrou o corpo da vítima.
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"Ele falou que vai fazer de tudo para que a Letícia vire um símbolo. Que ela represente uma mudança. Ouvir isso de um homem foi uma das coisas mais bonitas que vivi nesses dias. É desse exemplo que a gente precisa”, afirma. "Precisamos de homens que se posicionem contra a violência e ajudem a construir uma cultura de respeito. Isso também faz parte da mudança."