TRAGÉDIA AÉREA

Excesso de peso pode ter contribuído para a queda de avião em BH

Enquanto Polícia Civil e o Cenipa investigam causas da queda de avião em BH na semana passada, profissionais da aviação apontam possíveis falhas na decolagem

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A Polícia Civil dá sequência à investigação sobre as causas e as circunstâncias da queda do avião de pequeno porte, prefixo PT-EYT, que bateu em um prédio no Bairro Silveira, na Região Nordeste de Belo Horizonte, em 4 de maio. A delegada Andréa Pochmann, da Primeira Delegacia de Polícia Civil/ Leste da Capital, já começou a ouvir testemunhas. Entre elas, foi ouvido on-line um morador de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, de onde partiu a aeronave, tendo como destino São Paulo, com escala no aeroporto da Pampulha, em BH.

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Além da ação da PCMG, as causas da queda do monomotor são apuradas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira (FAB), em um trabalho minucioso, cujo relatório preliminar deve sair em até 120 dias. A reportagem recebeu informações de que há indícios de que o excesso de peso, combinado à alta temperatura, pode ter provocado a perda de altitude da aeronave, causando o choque com o prédio.

O Estado de Minas apurou que o avião foi completamente reabastecido em Belo Horizonte, o que, segundo especialistas, também contribui para elevar o peso da aeronave. “Foi um procedimento normal, rotineiro mesmo”, revelou uma fonte ao EM.

O avião envolvido no desastre, modelo EMB-721C, fabricado em 1979, tem peso máximo de decolagem de 1.633 quilos. A aeronave também estava ocupada com capacidade de seis pessoas (o piloto e cinco passageiros) quando ocorreu o acidente.

Uma fonte que trabalha em aviação disse ao EM que o monomotor estava “em excelente estado de conservação e manutenção". Diante disso, a suspeita é que “a provável causa” do acidente foi “excesso de peso”, sofrendo também a influência da alta temperatura, já que a decolagem na Pampulha ocorreu pouco depois do meio-dia, sob sol forte. “A temperatura e a altitude influem na sustentação da aeronave”, disse.

Ouvido pela reportagem, um piloto mineiro com mais de 40 anos de experiência, que não quis se identificar, afirma que o excesso de peso pode realmente causar um acidente aéreo. “O peso excedente impede a aeronave de manter a sustentabilidade no ar. Aí, o avião entra em estado de 'stol' (perda de altitude) e começa a cair. Isso por causa da perda de resultantes aerodinâmicas que fazem com que a aeronave se equilibre no ar”, explica o experiente piloto.

O instrutor de voo e piloto Jorge Lúcio, com 50 anos de experiência, esclarece como o peso interfere na operação de uma aeronave. “Um avião é projetado para voar com um determinado peso total, que envolve sua própria estrutura, o combustível no seu tanque, os fluidos dos sistemas, a bagagem e cargas embarcadas e o peso dos passageiros e tripulação”, diz ele.

“Falando de um modo simplificado, o que mantém um avião no ar é a força de sustentação que se contrapõe ao peso total da aeronave, e esta força é obtida pela passagem do ar relativo pela asa, cujo formato é projetado para criar uma grande diferença de pressão entre o dorso e o intradorso da asa. Quanto maior a velocidade da aeronave, maior será a sustentação, em atitude normal de voo”, relata.

“Esta velocidade, em voo reto horizontal e decolagem, é obtida graças ao grupo motopropulsor da aeronave, composto do motor e da hélice, para o caso do avião equipado com motor a combustão. Esta motorização é projetada para um determinado peso total de decolagem, normalmente calculado para o nível do mar, sob condições padrões da atmosfera. Isto quer dizer que uma aeronave que decola com este peso total nestas condições não poderá fazê-lo em condições menos favoráveis, como o aumento da temperatura, por exemplo, que reduz a densidade do ar, mesmo sendo ao nível do mar”, esclarece o especialista.

Jorge Lúcio lembra que o comandante da aeronave deve sempre levar em conta os gráficos de peso x balanceamento, a altitude, densidade e outros aspectos para determinar qual será o peso total admissível para decolar em uma determinada altitude, temperatura e comprimento de pista. “Deve levar em conta também os entornos do aeródromo de decolagem, para não ter limitações para o seu ângulo de subida. Em resumo: uma aeronave que poderia decolar com um determinado peso logo pela manhã, com uma atmosfera fria e densa, poderia não conseguir fazê-lo ao meio-dia, com uma temperatura mais alta e uma densidade atmosférica menor”, observa.

“Se um piloto consegue decolar com excesso de peso, mas não dispõe de uma reta de subida livre à sua frente para ganhar altura lentamente, ele não conseguirá uma razão de subida capaz de livrá-lo dos obstáculos, porque ele não tem mais potência disponível para aumentar sua velocidade e sustentação”, explica o instrutor de voo.

“O que ocorre muitas vezes, nestes casos, é que o piloto tende a levantar o nariz do avião instintivamente, entrando numa atitude conhecida como 'voo embarrigado', onde a aeronave não ganha velocidade nem altura. Se encontrar obstáculos à sua frente, o acidente é inevitável”, conclui Jorge Lúcio.

Trabalho longo

Contudo, oficialmente, até agora, não foi divulgada nenhuma provável causa para a queda do avião em Belo Horizonte. A reportagem apurou que o objetivo da investigação em Teófilo Otoni é elucidar se o avião apresentou algum problema na cidade do Vale do Mucuri antes da decolagem. “Mas, aqui em Teófilo Otoni, não aconteceu nada de anormal. Não houve nenhuma intercorrência, pelo menos no relato de quem estava no aeroporto”, revelou um morador, incluído entre as testemunhas no processo de investigação.

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A delegada Andréa Pochmann, presidente da investigação, informa que, desde o triste ocorrido, a PCMG tem trabalhado sem parar. “Estamos colhendo oitivas testemunhais, oficiando instituições para que nos encaminhem documentos, juntando imagens e aguardando laudos e exames realizados. Se trata de uma investigação longa, complexa e não temos como delimitar um tempo”, frisa ela, ressaltando que a investigação visa apurar fatores que possam ter levado à queda e produzir um relatório que ajude a prevenir novos acidentes. 

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