Estoque crítico de sangue adia cirurgias em hospital de BH
Hemominas enfrenta baixa nos estoques de sangue em Minas Gerais, e Hospital da Baleia adia cirurgias eletivas para priorizar emergências
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Os estoques de sangue da Fundação Hemominas chegaram a níveis críticos em Minas Gerais e já provocam impactos diretos na rede hospitalar do estado. Em Belo Horizonte, o Hospital da Baleia começou a adiar cirurgias eletivas, reorganizar atendimentos e priorizar pacientes graves diante da redução das bolsas disponíveis para transfusão. O aumento de doenças respiratórias e os feriados prolongados, que reduzem o comparecimento de doadores, são apontados pela instituição como principais causas da crise.
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Atualmente, os estoques estão abaixo do ideal. Os tipos sanguíneos O+, O-, A+ e A- estão em nível crítico. Já os tipos B+, B- e AB- estão em estado de alerta, enquanto apenas o AB+ permanece estável. A situação preocupa hospitais, especialmente os que realizam procedimentos de alta complexidade e dependem diariamente de transfusões para manter atendimentos de emergência, cirurgias e tratamentos oncológicos.
No Hospital da Baleia, referência em atendimentos de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o cenário já afeta diretamente a rotina médica. A unidade realiza cerca de 1,3 mil cirurgias por mês e atende pacientes em áreas como oncologia, nefrologia, terapia intensiva e hemodiálise. Para manter tratamentos, internações e procedimentos cirúrgicos funcionando normalmente, o hospital utiliza, em média, 600 bolsas de sangue mensalmente.
A escassez já obrigou o adiamento de 15 cirurgias eletivas nos últimos sete dias. Segundo o coordenador médico do hospital, o oncologista pediátrico Patrick Godinho, a unidade vem operando em estado de atenção máxima.
“Hoje a gente tem trabalhado com o estoque crítico. Temos conseguido priorizar urgências e emergências, mas precisamos fazer uma gestão muito cuidadosa desse sangue. Isso acaba impactando pacientes que têm cirurgias eletivas agendadas”, afirmou.
De acordo com Godinho, os tipos sanguíneos mais preocupantes para o hospital são justamente os grupos O e A, tanto positivos quanto negativos, que também são os mais utilizados nas transfusões realizadas pela instituição.
Entre as especialidades mais afetadas pelos adiamentos estão ortopedia, ginecologia e cirurgia geral. Só a ortopedia realiza cerca de 600 procedimentos mensais na unidade. Apesar da pressão sobre os estoques, pacientes oncológicos seguem sendo tratados como prioridade.
“Os pacientes oncológicos entram em uma linha de cuidado prioritária, principalmente aqueles com maior risco de sangramento. Mesmo com estoque crítico, tentamos garantir assistência a esses pacientes”, explicou.
Além da oncologia adulta e pediátrica, os setores que mais consomem sangue no hospital são nefrologia, hemodiálise e as unidades de terapia intensiva, tanto adulta quanto pediátrica. Somente o CTI utiliza, em média, 115 bolsas por mês.
Ainda assim, Godinho admite preocupação caso a situação se prolongue. “O risco sempre existe. Não é uma preocupação só do Hospital da Baleia, mas de todo o sistema hospitalar. Se os estoques não forem normalizados, mais pacientes podem ser afetados”, alertou o coordenador médico.
O que causou a queda
A coordenadora do Hemocentro de Belo Horizonte, Priscila Rodrigues, afirma que a queda nos estoques tem relação direta com o aumento dos casos de gripe e outras doenças respiratórias típicas do outono. Segundo ela, muitos potenciais doadores ficam temporariamente impedidos de doar após apresentarem sintomas.
“Uma gripe simples já pode deixar a pessoa inapta para doar por pelo menos 15 dias. Nos casos mais graves, esse prazo pode chegar a 30 dias depois da melhora dos sintomas. Isso gera um impacto muito grande no fluxo de doadores”, explicou.
Ela ressalta que a vacinação tem impacto menor no comparecimento, já que a restrição após a imunização costuma durar apenas 48 horas. O problema maior, segundo ela, está relacionado ao aumento dos quadros respiratórios registrados nas últimas semanas.
Além disso, os feriados prolongados também contribuíram para a queda no fluxo de doadores. Segundo Priscila, muitas pessoas acabam deixando a doação para depois. “As pessoas acabam viajando, mudam a rotina e deixam a doação em segundo plano. Mesmo com as unidades funcionando, o fluxo cai bastante nesses períodos”, disse.
Apesar da situação crítica, o Hemominas garante que nenhum hospital do estado deixou de receber sangue completamente. O que vem acontecendo, segundo a coordenadora, é uma redução parcial nas quantidades solicitadas pelas unidades de saúde.
“Os hospitais não deixam de receber sangue, mas podem não receber tudo o que solicitaram. Então eles precisam reorganizar os procedimentos e priorizar casos mais urgentes”, afirmou.
O objetivo agora é evitar que a situação avance e provoque consequências mais graves na rede hospitalar. Para isso, as instituições intensificaram campanhas de conscientização e mobilização pública. O Hospital da Baleia vem utilizando redes sociais, ações internas e apoio da imprensa para estimular as doações.
“O sangue é um produto que não conseguimos produzir. Dependemos exclusivamente da população para manter os estoques abastecidos”, destacou Godinho.
A fundação reforça que a doação de sangue precisa acontecer de forma contínua, já que as bolsas possuem prazo de validade entre 36 e 42 dias. Isso significa que grandes campanhas pontuais não resolvem o problema sozinhas se não houver regularidade no comparecimento dos doadores.
“Não adianta ter muita gente doando em um único dia e depois passar semanas sem doações. O sangue é um produto com validade e o sistema depende de um fluxo contínuo de doadores”, explicou Priscila.
Outros hospitais
A reportagem procurou a Prefeitura de BH para saber se a falta de sangue também afeta outros hospitais da capital. A administração municipal informou que, até o momento, não houve suspensão de cirurgias nos hospitais Metropolitano Dr. Célio de Castro e Odilon Behrens.
Como doar
Para doar sangue, é necessário estar em boas condições de saúde, ter entre 16 e 69 anos — menores precisam de autorização dos responsáveis —, pesar mais de 50 quilos e apresentar documento oficial com foto.
Também é recomendado estar descansado, alimentado e evitar bebidas alcoólicas nas 12 horas anteriores à doação. Pessoas gripadas, em tratamento com antibióticos ou que tenham passado recentemente por procedimentos médicos devem consultar previamente os critérios de aptidão disponíveis no site da Hemominas ou no aplicativo MGApp Cidadão. Conheça todas as condições e restrições para doação de sangue.
As doações podem ser agendadas online, mas também é possível comparecer diretamente às unidades de coleta. A Hemominas reforça que todos os tipos sanguíneos são importantes, mesmo aqueles que atualmente aparecem em situação estável.
Cada bolsa de sangue pode salvar até quatro vidas. Patrícia reforça que todos estão convidados para doar, mesmo que o tipo sanguíneo esteja estável. “Hoje estamos precisando mais do tipo O e A, mas todos os grupos sanguíneos são importantes para manter o equilíbrio dos estoques”, finaliza.
Para saber mais, acesse o site do Hemominas.
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima