Um ritual bicentenário, nascido da devoção popular, ainda desafia historiadores e chega aos tempos atuais recheado de lendas e indagações. Na quinta-feira santa (2/4), véspera do dia da morte de Jesus, tem lugar em Sabará (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a abertura do santo sepulcro. Participam religiosos e leigos. Permeada de fé, cultura, tradições e muita emoção, a cerimônia começou às 15h na Igreja São Francisco, joia barroca localizado no Centro da cidade.

Há muitas versões para a origem da cerimônia, considerada única no país. O titular da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, padre Wellington Eládio Faria, explica que há muitas histórias envolvendo a abertura do santo sepulcro, embora exista apenas uma certeza: nasceu de devoção popular. “Na verdade, ocorre o velório de Jesus”, diz o pároco. A Igreja São Francisco está vinculada à Paróquia Nossa Senhora do Rosário e à Arquidiocese de BH.

Ao se ajoelhar diante do esquife de Jesus, para uma breve oração ou tocar a imagem, o fiel mantém um velho costume: trocar uma moedinha por outra, que fica num pratinho. Segundo antigos moradores, isso traz prosperidade. Logo após o ritual do santo sepulcro, tem início a vigília, com pessoas da paróquia se revezando na guarda. Estão presentes as confrarias do Senhor Morto e de Nossa Senhora das Dores.

Não precisa de muita explicação sobre a origem da abertura do Santo Sepulcro; mais vale o sentimento, a fé em Deus. Assim acredita a contadora Gilvânia Torres Silveira Araújo, que foi à Igreja São Francisco na companhia dos filhos Lucas, de 10 anos, e Luís Henrique, de 6. “Venho aqui desde criança, já faz parte da minha vida. É união de fé, bênção, devoção, tradições, e nossa cidade é muito rica em história e cultura. Diante do Senhor Morto, agradeço por tudo e peço a Deus que nos proteja”, disse Gilvânia.

A servidora pública Lúcia Helena de Paula cumpriu todo o ritual e contou que as cerimônias da semana santa fazem parte das tradições mais importantes da tricentenária Sabará

Túlio Santos/EM/D.A Press

A servidora pública Lúcia Helena de Paula, de 72 anos, cumpriu todo o ritual e contou que as cerimônias da semana santa, incluindo a abertura do santo sepulcro, fazem parte das tradições mais importantes da tricentenária Sabará.

“Vou todos os anos à igreja para essa e outras celebrações. Só fico triste que algumas tenham acabado. A sexta-feira da Paixão, por exemplo, era um dia de completo silêncio. A gente só ouvia o som das matracas. As pessoas não penteavam o cabelo, não se ouvia rádio, enfim, havia muito respeito pelo dia da morte de Jesus”. Como fazem os sabarenses, Lúcia Helena também trocou sua moedinha diante do esquife.

História

Pesquisador da história de Sabará, José Bouzas, residente no Centro Histórico, conta que a abertura começou no século 19 e ressalta o surgimento do ritual na fé do povo. "Há muitas versões para esse fato, mas nada de concreto. O certo mesmo é que nasceu da devoção popular em Sabará".

O certo é que a abertura do santo sepulcro, na quinta-feira, intriga visitantes e desperta a curiosidade por uma questão cronológica: Cristo foi crucificado e morreu na Sexta-feira da Paixão, enquanto o sepulcro (sepultura) é aberto na véspera.

Na boca do povo, circulam algumas explicações para o fato tão inusitado. Dizem que, nos tempos coloniais, a vila tinha muitos escravos, que trabalhavam na Sexta-feira Santa para tirar leite – assim, preferiam iniciar a vigília e fazer a abertura do sepulcro na véspera.

Também reza a lenda que, nos primórdios, lá no século 19, leigos quiseram fazer o “velório” da Jesus, mas, para não coincidir com o calendário da Igreja, decidiram fazer na véspera da Sexta-feira da Paixão.

PROGRAMAÇÃO

Veja as cerimônias da Sexta-feira da Paixão ao Domingo da Ressurreição, em Sabará (RMBH)

Sexta-feira da Paixão (3/4)

  • 4h – Via-sacra da Penitência, com saída do adro da Igreja São Francisco
  • 14h – Sermão das sete palavras, na Matriz Nossa Senhora da Conceição e Igreja Nossa Senhora do Carmo
  • 15h – Adoração da cruz, na Matriz Nossa Senhora da Conceição e na Igreja Nossa Senhora do Carmo
  • 19h – Encenação dos quadros vivos da Paixão e Morte de Nosso Senhor, na escadaria da Matriz Nossa Senhora do Rosário, com o grupo de teatro Cena Aberta
  • 20h – Sermão do Descendimento da cruz, seguido da Procissão do Enterro

Sábado Santo (4/4)

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  • 19h – Bênção do fogo e vigília pascal, no adro da Matriz Nossa Senhora da Conceição e da Igreja São Francisco

Domingo da Ressurreição (5/5)

  • 8h – Missa solene da Páscoa, no adro da Matriz Nossa Senhora do Rosário, seguida da Procissão da Ressurreição
  • 19h – Missa da Páscoa na Matriz Nossa Senhora da Conceição e na Matriz Nossa Senhora do Rosário
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