CRIME ORGANIZADO

'Estamos virando o jogo': chefe do MP detalha combate às facções em Minas

Procurador-geral de justiça confirma inteligência integrada para barrar infiltração política e revela bastidores de promotores que vivem sob escolta policial

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A infiltração acelerada do crime organizado em Minas Gerais já não transcorre com a mesma velocidade, com o seu combate podendo ter chegando a um ponto de virada, mas ao custo de monitoramento e de promotores ameaçados de morte.

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A análise é do procurador-geral de justiça (PGJ) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Paulo de Tarso Morais Filho.

Em café com a imprensa promovido nesta quinta-feira (23/4) no seu gabinete, em Belo Horizonte, o chefe do MPMG disse que as organizações criminosas estão em diversos setores e que o seu combate só está sendo efetivo devido a investimentos em inteligência que possibilitam a asfixia financeira dos grupos.

“O crime organizado se infiltrou em partidos políticos. E a gente monitora para saber se há candidatos do crime organizado. As facções se espalharam em Minas Gerais, mas nós estamos virando esse jogo, sobretudo com inteligência e sufocando suas bases financeiras”, disse Morais Filho.

“Embora a prisão de líderes seja necessária, é o bloqueio de recursos financeiros que efetivamente desestrutura o crime. Essa abordagem visa enfraquecer a logística criminosa e impedir que os grupos mantenham sua influência econômica sobre setores da sociedade e do empresariado”, afirma o procurador.

Outro ponto de destaque é o monitoramento rigoroso para evitar a infiltração do crime organizado na política. “O Ministério Público utiliza bancos de dados integrados para identificar se candidatos possuem vínculos com facções, atuando de forma preventiva para evitar que o poder público seja corrompido”, pontou o procurador.

Paulo de Tarso enfatizou que as próximas eleições já estão no radar do MPMG e que qualquer indício de interferência criminal no processo eleitoral será combatido com agilidade, garantindo que a estrutura do Estado permaneça protegida contra investidas clandestinas.

O cenário foi descrito pelo procurador-geral como uma repartição do estado entre as duas maiores facções do país. O Comando Vermelho é identificado por um perfil “mais violento e sanguinário”, utilizando cidades próximas ao Rio de Janeiro, sobretudo da Zona da Mata, como pontos de escape.

Já o PCC é descrito como uma organização que prioriza a inteligência e a estruturação empresarial, mantendo-se em um estágio avançado de organização. Essa diferença de atuação exige que o MPMG adote serviços especializados para enfrentar cada tipo de ameaça de maneira detalhada e específica.

O combate ao crime organizado também gera reflexos diretos na rotina dos membros da instituição. “Há promotores de justiça sob ameaça que necessitam de segurança especial para si e seus familiares, especialmente no interior do estado. Apesar dos riscos, o Ministério Público mantém esses profissionais em seus postos, reforçando as garantias de trabalho para não ceder às pressões dos criminosos”, destacou o procurador-geral de justiça.

“A criação do Conselho do Ministério Público do Sul e Sudeste foi um passo decisivo para unificar o intercâmbio de informações e tornar a persecução penal mais contundente nessas regiões”, disse Paulo de Tarso.

Procurador-geral de Justiça (PGJ) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Paulo de Tarso Morais Filho destaca avanços, mas destaca proteção a promotores ameaçados
Procurador-geral de Justiça (PGJ) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Paulo de Tarso Morais Filho destaca avanços, mas destaca proteção a promotores ameaçados Mateus Parreiras/EM/D.A.Press
 

Quais as últimas operações contra o crime organizado em MG?

Algumas ações têm sido importantes para tentar desarticular as facções do crime organizado em Minas Gerais, sobretudo atingindo as finanças dos grupos.

Em setembro de 2025, a operação “Custos Fidélis”, realizada simultaneamente em Minas Gerais e também no Rio de Janeiro, Espírito Santo e Amazonas, buscou sufocar as interações do Comando Vermelho com a Família Teófilo Otoni, que atuava a partir do município do Vale do Rio Mucuri.

A ação contra o tráfico de drogas foi organizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado de Minas Gerais (Gaeco) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e a Polícia Militar (PMMG), em parceria com Polícia Civil (PCMG) e o Gaeco do Amazonas

Foram cumpridos esta semana 84 mandados de busca e apreensão e 48 mandados de prisão, bloqueio de bens e de R$ 223,5 milhões, de um total de R$ 18 milhões, e buscas contra suspeitos de integrar a organização criminosa, resultando na prisão de 56 suspeitos.

Pouco antes, em agosto de 2025, a operação “Lure” foi deflagrada no Triângulo Mineiro e em outras regiões do estado para combater a outra facção dominante em Minas Gerais e no Brasil o Primeiro Comando da Capital (PCC), sobretudo no tráfico interestadual de drogas.

As diligências ocorreram simultaneamente em Uberlândia, Tupaciguara, Patos de Minas, Patrocínio, Santa Luzia e Curvelo, servindo como desdobramento da “Operação Anthill” de 2024.

A tarefa foi executada pela Força de Combate ao Crime Organizado (Ficco/MG), sob coordenação da Polícia Federal e composição integrada com as polícias Civil, Militar e Penal, atuando em cooperação com órgãos estaduais de Segurança Pública.

A operação empenhou 150 policiais para o cumprimento de 26 mandados de busca e apreensão e 9 mandados de prisão preventiva expedidos pela Comarca de Ituiutaba, focando na desarticulação da logística de distribuição de entorpecentes entre os estados.

Nesse mesmo mês, a operação “Senhores da Guerra” mirou uma organização criminosa em Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, responsável por abastecer gangues rivais com armas de fogo, munições e coletes balísticos. A ação, que também teve alvos no Espírito Santo e em São Paulo, identificou uma estrutura que incluía armeiros e instrutores de tiro para aumentar a letalidade de fuzis.

A ofensiva foi coordenada pela Ficco/MG a partir de análises de materiais recolhidos na operação "Muro de Ferro", realizada no início do mesmo ano, que revelou o comércio ilegal feito por meio de registros de CACs (Colecionadores, Atiradores e Caçadores).

Ao todo, foram cumpridos 43 mandados de busca e apreensão e oito mandados de prisão (dois preventivos e seis temporários), resultando em 15 prisões em flagrante. A polícia apreendeu 66 armas de fogo de diversos modelos e mais de 12 mil munições, além de determinar a cassação de registros de armamentos usados ilegalmente.

No início de abril de 2026, novo golpe contra as facções com a operação “Luxury”, realizada em Minas Gerais (Uberlândia, Uberaba e Frutal), São Paulo e Mato Grosso do Sul, desarticulou uma organização criminosa interestadual especializada no tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.

A investigação, iniciada um ano antes, visava asfixiar financeiramente o grupo que utilizava empresas de fachada e "laranjas" para ocultar patrimônio.

A ação foi coordenada pela Ficco/MG, liderada pela Polícia Federal (PF), com a participação das polícias Militar, Civil, Penal e da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen).

Foram cumpridos 39 mandados de busca e apreensão e 27 mandados de prisão (22 preventivos e cinco temporários), além do sequestro de bens e bloqueio de valores avaliados em R$ 61 milhões. Desde o início do inquérito, a rede foi ligada à apreensão de 5,9 toneladas de entorpecentes.

Nesse mesmo mês, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) implementou regras mais rígidas para sufocar as lideranças e articulações das facções dentro dos presídios, iniciando por seis unidades de segurança máxima de Minas Gerais, começando pela Penitenciária de Francisco Sá, no Norte de Minas.

A medida visa isolar lideranças de facções criminosas, como o PCC, e outras regionais como a norte-mineira "Tropa do Douglas" (TDD), para impedir que continuem coordenando crimes de dentro das prisões.

Os novos procedimentos foram estabelecidos pela Resolução 718/2026, em conformidade com a Lei Federal 13.964/2019 (Pacote Anticrime), e anunciados pela cúpula da Polícia Penal e da Sejusp.

As normas impõem o impedimento total de contato físico nas visitas (realizadas apenas por parlatório ou vídeo), a proibição do recebimento de alimentos e kits de higiene externos e o monitoramento contínuo por CFTV.

Nas unidades afetadas, o Estado passou a fornecer as quatro refeições diárias e instalou bloqueadores de sinal de celular para cortar a comunicação com o meio externo.

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Estratégias e operações contra o crime organizado

  • Foco em inteligência e asfixia financeira: a principal estratégia do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) deixou de ser apenas a prisão de líderes para focar no bloqueio de bens e valores. O objetivo é retirar o "capital de giro" das facções, tratando-as como estruturas empresariais para desestruturar sua logística econômica.
  • Proteção à integridade das eleições: o MPMG utiliza bancos de dados integrados para monitorar a infiltração de facções em partidos políticos. A medida visa identificar e barrar candidatos financiados ou vinculados ao crime organizado antes que consigam corromper o poder público.
  • Diferenciação de combate por facção: o Estado adota serviços especializados para perfis distintos: o Comando Vermelho (CV), identificado por táticas sanguinárias e violentas em regiões de fronteira como a Zona da Mata, e o PCC, que opera com maior estruturação empresarial e inteligência.
  • Medidas de proteção a promotores: devido às ameaças de morte, o MPMG mantém protocolos de segurança especial para promotores e seus familiares, especialmente no interior mineiro. A instituição reforça a garantia de trabalho para que o sistema de justiça não sucumba a pressões externas.
  • Endurecimento de regras prisionais (Resolução 718/2026): evitar que líderes coordenem crimes de dentro das celas
  • Visitas: apenas via parlatório ou vídeo (sem contato físico)
  • Restrições: proibição de alimentos e kits de higiene vindos do exterior
  • Isolamento: instalação de bloqueadores de sinal de celular e monitoramento contínuo por câmeras

Fontes: MPMG, Sejusp, Senasp

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