Atendimento presencial a usuários de drogas está suspenso há dez meses
Serviço de atendimento a usuários de drogas está sem sede desde o ano passado; novo endereço deve começar a funcionar no Centro da capital
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Após ficar dez meses sem atendimento presencial, o Centro de Referência Estadual em Álcool e outras Drogas (Cread) deve retomar o funcionamento normal no final deste mês, segundo a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), em resposta à reportagem.
O Cread oferece atendimento psicológico a usuários de drogas em Minas Gerais. Sem a unidade física, o atendimento tem sido feito apenas de forma remota, por telefone ou internet, com uma média de 230 dependentes químicos atendidos por mês.
A nova unidade será instalada na Rua Espírito Santo, nº 166, 10º andar, no Centro de Belo Horizonte.
Como funciona
A busca por ajuda pode ser feita tanto pelos usuários de drogas, que buscam tratamento, quanto por familiares e amigos que queiram ajudar o dependente. O contato é feito pelo e-mail cread@seguranca.mg.gov.br ou pelo número (31) 3273-6204, que também recebe mensagens via WhatsApp. O atendimento funciona das 8h às 17h, de segunda a sexta-feira.
Três psicólogos realizam a triagem inicial. Silvania Pereira, uma das psicólogas do Cread, ressalta que enviar mensagem e fazer um agendamento é um procedimento mais ágil, mas não garante a adesão ao processo.
Grupo de apoio para familiares
O Centro de Referência Estadual em Álcool e outras Drogas (Cread) também oferece um grupo de apoio para familiares. O serviço é realizado online, quinzenalmente, com orientações sobre dependência química e processos de co-dependência. Os encontros acontecem todas as terças-feiras à tarde.
A psicóloga explica que os grupos de ajuda para familiares são importantes para compreender o tratamento do dependente químico.
“As dependências não são só químicas. São emocionais e financeiras”, diz Silvania. Segundo ela, o processo de dependência não acontece de forma isolada. Elas são construídas a partir de outros fatores que influenciam no comportamento. Ao descrever o perfil mais comum dos atendimentos, ela destaca homens, entre 28 e 45 anos, com vínculos sociais quebrados, sem vínculos com a família, em maioria pretos e pardos, com questões de sofrimento mental em virtude das vulnerabilidades sofridas.
Precariedades
Desde o ano passado, o Centro de Referência Estadual em Álcool e outras Drogas (Cread) vem enfrentando dificuldades no funcionamento. Desde sua fundação, em 2003, o serviço funcionava presencialmente, mas foi interrompido durante a pandemia da COVID-19.
Em 2023, uma parceria com a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) permitiu retomar o atendimento presencial nas instalações do hospital universitário. A parceria se manteve até junho de 2025, quando o Cread foi transferido para o outro extremo de Belo Horizonte, na Cidade Administrativa. Após esse hiato, o serviço deve ser retomado agora.
Questionada pela reportagem, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública informou que o atendimento demorou dez meses para ser retomado porque buscavam um imóvel com “localização estratégica e acessível”. As adaptações necessárias no local também foram citadas como motivo para a demora.
A retomada dos serviços de acolhimento a dependentes químicos é comemorada pelos usuários. Edna S., alcoólica em recuperação e coordenadora do Alcoólicos Anônimos (AA) de Minas Gerais, destaca que a presença de uma equipe multidisciplinar em um local central é essencial para apoiar os dependentes. “O Cread é uma rede de apoio do grupo.”, diz. O novo espaço também foi planejado para receber reuniões dos grupos de apoio, como o próprio AA, fortalecendo o ambiente como referência para quem procura ajuda.
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A coordenadora do AA ressalta a importância do Cread no processo de ressocialização dos alcoólicos. “Alcoolismo é doença progressiva e incurável! É um trabalho diário que exige cooperação”, afirma. O AA oferece apoio a esses dependentes, mas não consegue atuar de todas as formas. “Não providenciamos hospitalização, medicação ou acompanhamento psicológico e, neste momento, entra o Cread e sua rede”, completa.