Em uma cidade abalada por uma catástrofe, a tarefa da reconstrução começa antes mesmo do cimento e dos tijolos: passa pela tentativa de reorganizar a estrutura psicológica e pela pergunta que ecoa entre moradores de bairros como o Três Moinhos, na Região Leste de Juiz de Fora: como recomeçar a vida em outro imóvel, e com quais recursos? Após os deslizamentos que atingiram a encosta onde se formou parte da comunidade na cidade da Zona da Mata mineira, enquanto aguardam respostas do poder público famílias lidam com a perda não só de casas: também de memórias e perspectivas de futuro.
A ocupação do bairro se dá em área de encosta, condição que agrava os riscos em períodos de chuva intensa. O Três Moinhos está entre os locais que registraram maior volume de movimentação de massa durante os temporais que castigaram a cidade na última semana, segundo dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), ao lado do Morro do Cristo e do Bairro Democrata. Conforme o órgão do governo federal, a área é classificada como R4, o que significa risco muito alto.
Por ora não é possível contabilizar quantas pessoas foram expulsas de suas casas na área, pois a prefeitura ainda não tem um levantamento detalhado do número de desabrigados e desalojados ou do total de mortos em cada um dos bairros atingidos. Até a última sexta-feira (27/2), várias ruas do Três Moinhos haviam sido evacuadas, entre elas a Maria Florice dos Santos, João Luzia, José de Castro Ribeiro, José Luiz Flores, Manoel Clemente, Vicente Paulo Bacelar e Natalina de Andrade Guerra.
Duas grávidas e nenhum teto
Nesse cenário, entre as histórias marcadas pela incerteza está a de Tainará Tomé Correia Valadão, de 32 anos, mãe solo de quatro filhos: duas adolescentes, de 12 e 14 anos, um menino de 10 e uma menina de 8. Grávida de sete meses, ela também acompanha a gestação da filha mais velha, que está com nove meses. “Eu sou do Alto Três Moinhos. Desabar, minha casa não desabou, mas os acessos para chegar a ela estão todos fechados. Eu estava havia dois anos nesse lugar. É muito humilde, mas é meu”, afirma.
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Apesar de a estrutura não ter vindo abaixo, o imóvel foi interditado. “O pior é que não tem como entrar. Pelas rachaduras e pelo jeito que ficou lá, falaram que não dá pra ficar na casa. Mas tudo meu está lá dentro: roupas, móveis, eletrodomésticos, fogão, geladeira...”, explica Tainará.
O momento, segundo ela, não poderia ser mais delicado. “Além da minha gestação, a minha filha de 14 anos está grávida de nove meses. Então, perder nossa casa neste momento é algo ainda mais difícil. A gente estava montando enxovalzinho e tentando fazer o quarto do bebê, que tinha o guarda-roupa até agora. É até difícil de explicar a sensação que dá por não ter mais onde morar. Eu simplesmente não sei o que eu vou fazer.”
20 anos para erguer a casa que ruiu em segundos
Também no Bairro Três Moinhos, a casa onde Fabiana Silva de Oliveira, de 47 anos, vivia com o marido e dois dos três filhos veio abaixo na última segunda-feira (23/2). “O dia em que minha casa desabou era aniversário da minha sobrinha. Eu e minha família fomos lá, que é perto, para dar um abraço nela. Pouco depois, a gente ouviu o primeiro estrondo: foi quando caiu terra atrás da casa da minha mãe e acabou com o galinheiro dela. Ela ficou muito abalada. Depois disso, minha nora, que também mora lá, me ligou falando que minha casa tinha acabado de cair”, relata.
“A minha vida, minhas memórias, tudo estava ali. É difícil lidar com isso. Meu marido é pedreiro e foi ele quem comandou a construção da nossa casa. Tem 19 anos que moramos juntos. Nós nos casamos há nove e morávamos havia seis anos no Três Moinhos. Eu fui a servente de pedreiro na obra e meu filho mais velho, de 24 anos, também ajudou. Pagávamos aluguel e íamos para a obra nos fins de semana. Construímos com muita luta e tudo se foi, assim, em segundos.”
Ela conta que a moradia tinha dois andares, terraço e quatro banheiros no pavimento inferior. “Eu subia 120 degraus de escada para chegar na minha casa, mas ali era meu lar, meu cantinho. Agora não tenho nem como provar que eu tinha uma casa. Não tenho mais os documentos. Tudo ficou no meio da lama.”
Luciano de Oliveira Freitas, de 43, pedreiro e marido de Fabiana, descreve a sensação de impotência. “A gente não tem ideia do que vai fazer agora. Não temos dinheiro para fazer outra casa. Sou pedreiro há 25 anos. Trabalhei muito, de segunda a segunda, e levei 20 anos para juntar o dinheiro e fazer a casa do jeito que eu e minha esposa queríamos. A gente só tinha como construir nos fins de semana.”
“Estou desnorteado”
A incerteza da família é compartilhada pelo aposentado Geraldo Antônio Braga, de 70 anos. Ele morava no local havia 32 anos e lembra os momentos de pânico durante o deslizamento em meio ao temporal. “As pessoas perceberam o barro no alto da encosta começando a descer. Começou a acertar e derrubar as casas. Só deu tempo de pegar os documentos e meu cachorro, o Toquinho”, lembra.
A construção não desabou, mas teve danos. “Minha casa não caiu, mas o banheiro foi atingido. Lá é pequeno e isso deixou a estrutura comprometida. Pessoas que estiveram lá fazendo avaliação falaram isso. Agora estou desnorteado. Não tenho para onde ir.”
Em nota, a prefeitura informou que trata todas as interdições como preventivas e que a avaliação sobre a necessidade de demolição dos imóveis vistoriados ainda será realizada. Enquanto laudos técnicos são aguardados, a reconstrução concreta depende de recursos que todos os entrevistados dizem não ter.
Já a reconstrução emocional, silenciosa e profunda, parece ainda mais complexa: é feita de luto por memórias soterradas, medo de novos deslizamentos e da difícil tarefa de imaginar um novo começo longe do que um dia foi chamado de lar.
O que vi de uma tragédia
Como transformar dor em coragem
Bruno Luis Barros
Repórter
“Não importa o local da cidade, os vestígios da tragédia que resultou em dezenas de mortos estão por todos os lados em Juiz de Fora. De Norte a Sul, o asfalto em boa parte dos trajetos na cidade da Zona da Mata mineira revela rastros da correnteza barrenta que invadiu tudo. Em muitos acostamentos ou sarjetas, a água suja ainda se acumula e porções mais ou menos generosas de barro lembram que a vida já não é mais a mesma.
Para muito além dos números de uma tragédia estampados nas notícias, tem algo que não dá para quantificar: a dor de perder quem se ama. Soma-se a isso a perda da moradia, um direito fundamental e essencial para a dignidade humana.
No Bairro Parque Burnier, epicentro da tragédia, eu perdi a conta do número de olhos marejados que testemunhei, fixados na direção da montanha de barro e destroços, à espera de notícias. Foram 12 casas engolidas pela lama enquanto as pessoas dormiam. Famílias inteiras se foram! Em muitos casos, uma única pessoa restou para chorar várias mortes.
Por outro lado – e peço desculpas se parecer clichê –, dá para sentir que um verdadeiro sentimento de amor ao próximo se manifestou naquele lugar. Vi uma enorme quantidade de voluntários, da cidade e até de outros estados, estacionando carros onde dava e subindo o morro a pé para levar água, alimentos e itens de higiene pessoal. Vi donas de casas unidas em um posto de coleta de doações. Ouvi que estavam ali o dia todo, organizando tudo o que chegava e definindo prioridades.
Não só o Brasil, mas os olhos do mundo se voltam para uma cidade abalada, e o noticiário, nacional e internacional, expõe o drama dos juiz-foranos. Revela sobreviventes que precisarão de ainda mais apoio para superar o luto e encarar o desafio de transformar a dor em coragem para seguir em frente, depois de um dia semana que ficará para sempre marcada na história.”
O que vi de uma tragédia
Mãos estendidas no meio do caos
Mateus Parreiras
Repórter
“Cheguei a Juiz de Fora com os olhos atentos a cenas importantes que pudessem mostrar o poder destrutivo da tragédia, os riscos ainda existentes, o sofrimento de quem viu famílias inteiras serem dizimadas.
Em alguns momentos me arrisquei. Susto grande quando o córrego quase levou o passeio onde entrevistava uma família e corremos juntos, sob os apitos dos socorristas, para fugir do perigo.
Mas, aos poucos, senti que meu foco se abria e a minha guarda racional baixava, por me ver de repente cercado por uma corrente de solidariedade das mais verdadeiras que já pude experimentar.
A cada passo, uma pessoa que você nunca viu trazia de casa a sua garrafa de café, bolos e sanduíches para aplacar a fome de um desalojado.
Água mineral era trocada de mãos até matar a sede de idosos que não podiam ir até elas ou de quem se empenhava em remover lama do quarto dos filhos.
Carros próprios, caminhonetes e até motos chegavam para ajudar a levar para um local seguro, muitas vezes emprestado, os móveis e intimidades de desconhecidos.
Gente ainda em choque, que caminhava sem norte entre destroços de casas e pertences arrancados das residências familiares, ao lado de linhas de voluntários com enxadas revolvendo escombros atrás de pessoas soterradas, debaixo chuva, sob novas ameaças.
Quando vi, já estava distribuindo uma trouxa de roupas que me deram para um senhor atrás de um portão de grades. Estava na corrente humana de mãos em mãos, e pelas minhas iam passando os fardos da única água pura que uma mãe e quatro filhos teriam.
Também me vi servindo de apoio pelo braço para uma senhora idosa, trêmula a cada passo, deslizando os dedos dos pés pelo chinelo de borracha completamente enlameado até que cruzasse a rua alagada.
Quantos colegas da imprensa vi imbuídos do mesmo sentimento, colaborando com quem precisa, ainda que à custa de um momento impactante perdido no trabalho de apuração...
A imersão neste ambiente, contudo, nos trouxe a compreensão do sentimento dos atingidos. Mais que flagrantes de momento, isso nos permitiu transmitir essa atmosfera pelo nosso trabalho. O verdadeiro sentimento que emerge da tragédia de Juiz de Fora é o da mesma solidariedade que certamente agora vai reerguer esse povo.”
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Túlio Santos
repórter fotográfico
“Diante de barragens de lama, entulho e pedras, de vidas e de moradias desabadas, interponho, às pressas, uma fotografia, uma barragem de informações visuais. Uma imagem geral, em relevo acidentado. É um registro, entre tantos outros, de fragilidade, a cidade ao fundo. Nas buscas por uma família soterrada na escadaria da Rua do Carmelo, no Bairro Paineiras, em Juiz de Fora, em um fevereiro de 2026 que nunca será esquecido, um momento congelado entre a tristeza e a gratidão dos sobreviventes, o esforço e a esperança dos vivos.”
