A casa em que a estudante de enfermagem Jaqueline Teodoro de Fátima Vicente vivia foi destruída com as chuvas que caíram em Juiz de Fora na segunda-feira (23/2). Tanto ela quanto outros familiares estavam na residência, localizada no Bairro Paineiras, no momento e não sobreviveram. A maquiadora Gabriele Zaquine era amiga de Jaqueline há mais de 15 anos. Ela soube do desastre no município da Zona da Mata pela televisão e se preocupou.

“Mandei mensagem para ela (Jaqueline) e não recebi resposta. A partir dessa ausência, questionei o paradeiro em um grupo que tínhamos com outras amigas. Foi aí que minha prima me contou que a Jaque estava entre as vítimas”, afirma Gabriele.

Jaqueline chegou a ser resgatada com vida na terça-feira (24/2), após ficar 15 horas embaixo dos escombros da casa em que morava, mas não resistiu aos ferimentos e morreu na manhã de quarta-feira (25/2).

Neide Aparecida, mãe da estudante de enfermagem; Piettro César Theodoro e Sophia Teodoro Reis, filhos de Jaqueline; e o namorado David Pedro de Souza estavam na residência no decorrer dos deslizamentos de terra. Apenas o corpo do pequeno Piettro não foi localizado.

Em meio ao luto, ela descreve que tem vivenciado uma torrente de sentimentos com a morte da amiga: a dor de perder uma colega querida, mas até certo alívio tendo em vista que Jaqueline viveria sem as pessoas que mais amava. “Ela teria a nós, as amigas, mas os filhos, a mãe, a casa… nada pode ser substituído”, afirma Gabriele.

 

Ela também conhecia Neide desde nova. Ambas trabalhavam no Hospital Monte Sinai e se encontravam rotineiramente pelos setores da empresa.

“Dona Neide e eu nos encontrávamos muito nos corredores do hospital em que trabalhávamos. Antes de iniciarmos o dia, tomávamos café juntas, conversávamos sobre as crianças, a vida, a Jaque e seguíamos para os nossos setores”, aponta a maquiadora.

Gabriele não passou por problemas no local em que morava. Ela apontou que as enchentes são situações recorrentes por Juiz de Fora, mas que as situações se assimilam a cenários de guerra em decorrência da destruição da cidade.

Familiares 

Os parentes de Jaqueline que estavam no imóvel também não sobreviveram ao desmoronamento da casa. Neide, a mãe, foi a primeira a ser encontrada pelos bombeiros, seguida do namorado da estudante de enfermagem, David Pedro.

O corpo da pequena Sophia foi localizado na noite dessa quinta-feira (26/2). Josiane Aparecida Teodoro do Nascimento, prima da pequena Sophia, de apenas seis anos, cujo corpo foi encontrado na manhã desta sexta-feira (27/2), afirmou que a família tem vivido um pesadelo. O primo de nove anos, Piettro, segue desaparecido, o que tem causado ainda mais angústia à família.

O desconhecimento acerca do paradeiro do menino tem inquietado a família. Segundo ela, não poder proporcionar um enterro digno aos parentes impede a conclusão desse ciclo de dor.

“Uma tristeza muito grande. Parece que [a gente] tá num pesadelo. Que a gente vai acordar qualquer momento e não ser nada disso. Mas, infelizmente, não é assim. Nossa família tá acabada, destruída. Então, nossa expectativa agora é encontrar o Pietro, pra gente poder acabar esse sofrimento”, disse.

De acordo com ela, o sofrimento será para o resto da vida, pois a tragédia deixará marcas profundas nos familiares. Josiane conta que uma força-tarefa foi montada entre vizinhos e familiares para ajudar nas buscas. Além deles, bombeiros, integrantes do Exército Brasileiro e voluntários atuam em meio aos escombros para encontrar vestígios dos desaparecidos.

Reforço canino

Na manhã desta sexta-feira, as ações para encontrar as pessoas desaparecidas foram intensificadas. Bombeiros, voluntários, colaboradores e militares do Exército Brasileiro trabalham nas buscas pelos desaparecidos. Cães farejadores também auxiliam na procura. Até às 18h desta sexta, segundo a Polícia Civil, 63 pessoas morreram no desastre de Juiz de Fora e duas estão desaparecidas.

De acordo com o condutor de cães do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) de Uberaba, no Triângulo, cabo Cristiano Couto, há dois cachorros atuando no Bairro Paineiras. O tempo de atuação dos animais depende do esforço e do trabalho de cada um, mas eles ficam cerca de meia hora, sob avaliação dos condutores.

“Trouxemos o cão para reforçar os trabalhos agora. A maior dificuldade é a chuva que não para e a lama sobre o terreno, que dificulta sentir o odor do ser humano e o cachorro a trabalhar, mas seguimos firmes”, disse Couto.

Com ele, a cadela Flecha, de 1 ano e 9 meses, tenta rastrear os desaparecidos. Além da fêmea – um pastor-malinois –, um chamado Anjo também contribui com as buscas. Quando os cães entram em cena, o silêncio precisa ser absoluto para que eles se concentrem.

*Estagiário sob a supervisão do subeditor Humberto Santos

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

**Com informações de Melissa Souza e Mateus Parreiras 

compartilhe