O adolescente, de 17 anos, apreendido sob suspeita de ser o autor do ataque que matou três mulheres em uma padaria no Bairro Lagoa, em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, enviou três cartas para sua mãe pedindo ajuda e afirmando ser inocente. O jovem está internado — termo usado quando um menor de idade é acautelado por decisão judicial. Nessa terça-feira (10/2), um homem de 30 anos confessou ser o responsável pelos disparos. Ele foi preso em flagrante pela Polícia Militar por porte ilegal de arma de fogo.
O crime aconteceu na noite de 4/2. Entre as vítimas estão Nathielly Kamilly Fernandes Faria, de 16 anos; Ione Ferreira Costa, de 56; e Emanuelly Geovanna, de 14. O adolescente foi apreendido horas depois pela Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) após testemunhas informarem que, no mesmo dia, ele teria ido até a padaria e discutido com Nathielly, com quem mantinha um relacionamento. Ainda segundo o depoimento, a briga teria sido motivada por ciúmes.
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Nas cartas, a que o Estado de Minas teve acesso, o jovem diz que não está aguentando “pagar” por algo que não fez. Ele afirma que nunca esteve na padaria em que a namorada trabalhava e conta que a amava. “Eu nunca teria coragem de matar alguém. O monstro que fez isso com ela merece pagar, ela não merecia isso. Eu amava demais essa menina, muita covardia o que fizeram com ela”, escreveu.
Em outra carta, o garoto suplica que a mãe reúna provas que comprovem sua inocência. Ele cita todas as pessoas com quem conversou em uma mercearia, onde estaria no momento do crime, e pede que a família faça um vídeo e o poste nas redes sociais. “Toma cuidado na rua, não fica lá em casa. Se fizeram isso com ela (Nathielly), podem fazer com vocês, e não se esqueçam que o assassino dela está solto ainda”, pediu o adolescente.
Erro judiciário
Para a família do rapaz, ele não teve relação com os crimes e sua apreensão não foi baseada em provas. No mesmo dia, em entrevista ao Estado de Minas, a mãe do jovem afirmou que os dois estavam na casa de parentes e que câmeras de segurança de um vizinho registraram os momentos em que o adolescente saiu e voltou de bicicleta.
De acordo com a mulher, ela pediu ao garoto que fosse a uma mercearia próxima comprar cigarros, e ele teria retornado em poucos minutos. A mulher ainda afirmou que a padaria onde o crime ocorreu fica longe do local onde estavam, o que impossibilitaria o deslocamento e o retorno no tempo registrado pelas imagens. Além disso, a família conseguiu comprovantes de pagamento no estabelecimento que comprovam que o adolescente permaneceu no local até 20h43, depois que as vítimas foram atacadas.
Ao EM, Gilmar Franco, advogado do adolescente, afirmou que pediu a liberdade provisória do jovem. O requerimento foi protocolado na noite de domingo (8/2), e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) foi intimado a se manifestar em até cinco dias. “Foi uma decisão equivocada que gerou grandes prejuízos à família e ao menor. Um erro irreparável na vida de todos”, afirmou o defensor.
Conforme Franco, a apreensão e a seguinte decisão que determinou a internação do seu cliente são infundadas. Segundo o defensor, a sobrevivente do ataque confirmou no registro da ocorrência e em depoimento à Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) que não reconheceu o jovem como sendo o autor dos disparos.
“O maior erro judiciário porque não tinha provas naquele momento. A juíza, por uma questão garantista, deu essa decisão com base na informação de que ele era ex-namorado da vítima e que no BO apontava indício de autoria”, explica Franco.
A reportagem procurou o Ministério Público de Minas Gerais, para se posicionar sobre as provas recolhidas pela defesa e o pedido de liberdade provisória. No entanto, o órgão informou que por força do Estatuto da Criança e do Adolescente, o caso corre em segredo de Justiça, razão pela qual não pode se manifestar à imprensa.
Segundo suspeito preso
Na noite de terça-feira (10/2), a Polícia Militar prendeu um homem, de 30 anos, que confessou ser o responsável pelo triplo homicídio na padaria em Ribeirão das Neves. De acordo com a corporação, a detenção aconteceu depois que uma equipe recebeu informações do paradeiro de um suspeito de outro crime, uma tentativa de homicídio, em uma oficina mecânica, no Bairro Céu Azul, na Região de Venda Nova, em BH, próximo a divisa com o município vizinho.
No endereço informado, também no Bairro Céu Azul, os policiais chamaram no portão do imóvel, mas não receberam resposta. Ao olharem por fendas na estrutura notaram um homem, que ao perceber a presença dos agentes, foi até um cômodo da casa e voltou com um objeto semelhante a uma arma de fogo de fabricação artesanal em mãos e a escondendo dentro de um fogão.
Em seguida, o morador atendeu os policiais e, em um primeiro momento, negou que existisse no local algum objeto ilícito. No entanto, depois de ser informado que havia algo semelhante a arma de fogo no eletrodoméstico, o homem confessou.
Suspeito confessou?
Diante as informações, os militares entraram no local e durante buscas, também encontraram um carregador e 11 cartuchos calibre .380 intactos, além de outros materiais. No endereço, também foram identificados uma capa de colete balístico com compartimentos, placas balísticas, touca tipo ninja, capacete branco, uma bolsa de entrega, telefone celular e uma carta manuscrita do suspeito se despedindo de sua mãe. Uma motocicleta branca também foi encontrada. O veículo, a arma e os materiais foram apreendidos.
Ainda segundo o boletim de ocorrência, o homem foi preso por porte ilegal de arma de fogo. Ao ser encaminhado para a delegacia confessou que seria o responsável pela morte das três mulheres na padaria no Bairro Lagoa, e uma tentativa de homicídio, contra um adolecente. Conforme os militares, diante das informações, o serviço de inteligência do 40º Batalhão entrou em contato com uma sobrevivente do ataque da última quarta-feira que identificou o suspeito.
“A equipe deslocou-se até o endereço da testemunha a qual confirmou as características físicas do autor, bem como a utilização de touca tipo ninja, capacete branco, motocicleta branca e do armamento na prática delitiva”, informaram os PMs no registro.
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Procurada, a PCMG informou em nota que o homem foi conduzido à Delegacia Especializada em Investigação de Homicídios em Ribeirão das Neves, onde é ouvido pela autoridade policial. "Os procedimentos de polícia judiciária estão em andamento e outras informações poderão ser repassadas em momento oportuno".
