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Caso Alice: Justiça nega pedido de revogação da prisão de réu

Segundo a polícia, Alice foi perseguida e espancada por dois garçons na madrugada de 23 de outubro. Ela morreu 17 dias depois por complicações dos ferimentos

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A Justiça negou um pedido de liberdade provisória e revogação da prisão preventiva de um dos garçons réus pela morte de Alice Martins Alves, de 33 anos, na Savassi, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. A decisão foi publicada em 30 de dezembro pela juíza da Vara Plantonista da capital, Myrna Fabiana Monteiro Souto.

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Arthur Caique Benjamin de Souza, de 27 anos, está preso desde 19 de dezembro, depois que teve a prisão preventiva decretada. De acordo com a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) ele seria o comandante do ataque e agressões à vítima, uma mulher trans. Ele e William Gustavo de Jesus trabalhavam como garçom no Bar Rei do Pastel e respondem por feminicídio qualificado.

Conforme a decisão, a que o Estado de Minas teve acesso, as advogadas do réu preso alegaram ausência de fatos novos aptos a justificar a manutenção da prisão preventiva. Além disso, a defesa argumentou que há medidas cautelares, diversas à detenção, cabíveis para o caso.

Em sua análise, a magistrada afirmou que os motivos que justificaram a decretação da prisão preventiva, há 14 dias, foram indicados na medida cautelar. Souto também argumentou que a defesa não incluiu no processo fatos novos que justifiquem a reavaliação da preventiva e, por isso, a manutenção da ordem anterior, por enquanto, é a medida “que se impõe a gravidade dos fatos”.

O que motivou a prisão preventiva?

A prisão de Arthur foi decretada na manhã de 19 de dezembro. Na época, a juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza afirmou que houve “superveniência de fatos novos aptos a justificar a reapreciação da matéria”, destacando que os elementos reunidos ao longo da investigação reforçaram a necessidade da prisão preventiva.

“À luz do novo laudo pericial apresentado, não mais subsiste a dúvida outrora existente quanto ao nexo causal, sendo possível afirmar, neste momento processual, que a agressão perpetrada constituiu a causa primária do resultado morte”, escreveu a juíza na decisão.

Na oportunidade, a magistrada também rejeitou as preliminares apresentadas pela defesa, que alegava inépcia da denúncia - ou seja, não descreveu o fato com todas as circunstâncias e não individualizou a conduta de cada réu - e ausência de justa causa para a ação penal. Para o juízo, a denúncia descreve de forma clara a dinâmica dos fatos e apresenta indícios suficientes de autoria e materialidade, o que autoriza o prosseguimento da ação penal.

Apesar disso, esse não foi o primeiro entendimento da magistrada que negou, outras duas vezes, o pedido da PCMG e do Ministério Público afirmando que a conduta dos acusados ainda era “nebulosa”. Na nova decisão, ao fundamentar a decretação da prisão, a juíza ressaltou ainda a gravidade concreta da conduta, a violência empregada e o risco à ordem pública. Conforme consta no documento, há relatos de que o acusado teria ameaçado uma testemunha logo após o crime, o que também contribuiu para a adoção da medida cautelar.

O que diz a defesa?

Após a prisão de Arthur, pela Polícia Militar de Minas Gerais, Susan de Jesus Santos afirmou que a detenção do seu cliente foi “irregular e forçada pela mídia”. Ela, que também representa o outro réu, disse que não há fatos novos sobre o caso e ressaltou que três pedidos de prisão preventiva foram negados anteriormente, que ela diz ter ocorrido pelas “provas serem frágeis”.

Susan informou ainda que a defesa dos réus está fazendo uma investigação por conta própria. “Vai dar uma reviravolta no caso”, afirmou. Sobre o novo laudo pericial apontado pela juíza Ana Carolina Rauen Lopes de Souza na decisão da prisão preventiva, a advogada disse que: “Os novos exames que ela diz já estavam no processo”.

Ao EM, Luciana Rezende afirmou que a investigação não considerou as próprias declarações da vítima para indiciar os suspeitos. A representante legal explicou que as características repassadas por Alice, dos homens que a atacaram, não condizem com a fisionomia física dos garçons indicados pela investigação. A menção foi feita em um boletim de ocorrência, registrado em 5 de novembro. Na oportunidade a vítima relatou que não conhecia os suspeitos e identificou um deles apenas como um homem, branco, com cabelos escuros e usando calça jeans e camisa preta.

“No boletim de ocorrência está bem claro que ela identificou os agressores como homens brancos e altos. Arthur e William são dois homens pretos. Não dá nem para ficar em dúvida e chamar os dois de pardos”, afirmou.

A defesa de Arthur informou que ainda não teve acesso à decisão que indeferiu o pedido de liberdade provisória. "Na próxima semana vamos nos posicionar", informou a defesa.

O que disseram os réus?

Em um primeiro momento, os réus afirmaram que os ferimentos de Alice foram auto infligidos. A afirmação teria sido feita à PCMG durante oitivas. Segundo a delegada Iara França, os suspeitos, acompanhados de uma advogada, afirmam que ao abordarem a cliente, ela teria se jogado no chão e começado a se bater. Além disso, ela teria batido a própria cabeça no meio fio, quebrado o nariz e tentou chutá-los.

Já ao Estado de Minas, em entrevista exclusiva, William Gustavo alegou que Alice caiu diversas vezes da motocicleta do motoboy que parou para ajudá-la. Além disso, o jovem afirmou que a todo momento a vítima se debatia no chão e quando alguma pessoa passava começava a gritar por socorro, mesmo não sendo agredida. Questionado se as quedas poderiam provocar a ruptura de três costelas, o réu afirmou que sim já que a mulher era muito alta.

“Em alguns momentos, a Alice dizia que ia pagar, mas depois dizia o contrário. Enquanto isso ela afirmava que ia se jogar no chão e quando as pessoas passassem iria falar que estava sendo agredida”.

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Na tarde de ontem, após a prisão, as advogadas dos réus afirmaram outra versão. Susan de Jesus Santos e Luciana Rezende afirmaram que uma investigação particular mostrou indícios que Alice foi espancada, por outras pessoas, no período entre sua alta da Unidade de Pronto Atendimento Centro-Sul - para onde foi levada na madrugada de 23 de outubro - e o registro da ocorrência, em 7 de novembro.

O que se sabe sobre o crime?

  • Alice esteve na Savassi, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, na noite de 22 de outubro
  • A mulher trans consumiu bebida alcoólica em uma unidade do Bar Rei do Pastel e, por volta de 23 horas foi para outra unidade, a poucos metros de distância
  • No segundo bar, ela voltou a consumir e foi embora, depois de 00h, sem pagar a conta de R$ 22
  • Assim que saiu, em direção a Avenida Getúlio Vargas, Alice, segundo a investigação da Polícia Civil, foi perseguida por dois funcionários do bar
  • As investigações apontaram que eles a encurralaram na mesma avenida, próximo a esquina com a Rua Sergipe, e a cobraram a conta
  • Uma câmera de segurança gravou o momento que a mulher afirma que quitou o débito, mas é desacreditada pelos garçons
  • O equipamento de segurança flagrou o momento que a vítima começou a gritar por socorro, enquanto é ameaçada e agredida pelos homens
  • Alice pediu socorro 12 vezes
  • As, supostas, agressões continuam por mais de 10 minutos e só param depois que um motoboy interveio ao crime
  • A Polícia Militar e o Samu chegam ao local e levam Alice até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Centro-Sul
  • Na unidade de saúde ela é medicada e liberada
  • Em 2 de novembro, Alice é novamente levada a um pronto atendimento onde constatam fraturas nas costelas, cortes no nariz e desvio de septo
  • Em 8 de novembro, em nova internação, Alice é diagnosticada com perfuração no intestino
  • Em 9 de novembro, ela é submetida a uma cirurgia de emergência e morre por infecção generalizada

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