Minas Gerais é o estado que mais mata pessoas trans, revela organização
O levantamento da Rede Trans é feito com dados extraoficiais, como notícias em veículos midiáticos
compartilhe
SIGA
Minas Gerais é o estado que mais registrou homicídios de pessoas trans e travestis em 2025, de acordo com levantamento da Rede Trans Brasil divulgado nesta segunda-feira (26/1). No ano passado, foram nove vítimas. Dentre elas, estão: Alice Martins Alves, agredida na Savassi, área badalada na Região Centro-Sul de BH; Christina Maciel Oliveira, espancada em plena luz do dia pelo ex-companheiro; e Jeane Lui, morta a tiros em uma avenida da capital mineira.
O número de pessoas trans assassinadas pode ser ainda maior, uma vez que a organização depende de dados extraoficiais, como notícias em veículos midiáticos.
Leia Mais
O “Dossiê: a geografia dos corpos trans” indica que é a primeira vez que Minas ocupa o primeiro lugar no ranking desde 2016, quando a coleta de dados teve início. As ocorrências no estado representam 9,89% dos casos no país, cujo total é 91, conforme a Rede Trans Brasil.
O estado que normalmente lidera a estatística é São Paulo, que em 2025 ocupou a terceira posição juntamente com Pernambuco, com sete notificações cada um. Ceará aparece em segundo lugar, tendo registrado oito casos de pessoas trans assassinadas.
De acordo com a organização, o fato de Minas aparecer no topo do ranking pode indicar tanto um aumento real da violência quanto uma melhora nos mecanismos de notificação e denúncia no estado. Apesar de ocupar a primeira posição, o estado teve uma redução em relação a 2024, quando a Rede Trans informou que foram dez vítimas.
Subnotificações
Além de denunciar a violência contra pessoas trans e travestis, o dossiê da Rede Trans Brasil também revela a falta de estatísticas, seja de vida ou morte, sobre essa parte da população. “Não é possível alegar que as informações e os resultados apresentados aqui representam todos os homicídios e a violência contra pessoas trans, devido às limitações durante o monitoramento e à falta de dados governamentais”, afirma Sayonara Nogueira, secretária de Comunicação da Rede Trans Brasil e responsável pela coleta de dados brasileiros para a organização mundial TGEU.
Sayonara explica que a subnotificação também pode estar atribuída à falta de preenchimento do campus de identidade de gênero em boletins de ocorrência ou até mesmo negligência em relação a isso. “Essa lacuna institucional reflete-se no uso de terminologias pejorativas ou na descaracterização da identidade trans em registros oficiais, nos quais termos como 'homossexual com vestimentas femininas' ou expressões transfóbicas ainda são utilizados indevidamente”, aponta o relatório, que é de autoria de Sayonara, Tathiane Aquino, Mariana Silva Arakawa e Daniel Henrique de Oliveira.
A subnotificação também pode estar por trás da diminuição no número de registros de pessoas trans mortas em relação a 2024, conforme aponta a secretária de Comunicação da Rede Trans Brasil.
Outro reflexo da falta de dados oficiais que contemplam a comunidade trans é a diferença entre os números apresentados pela Rede Trans Brasil e Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), cujo dossiê, também lançado nesta segunda-feira (26/1), indica que houve 80 vítimas no país e oito em Minas Gerais no ano passado.
Perfil das vítimas
O levantamento da Rede Trans Brasil indica que 94,5% das pessoas assassinadas tinham idade de gênero feminina, o que revela um cenário de dupla violência: transfobia e machismo. “A gente tem uma incidência muito grande tanto do machismo quanto do patriarcado no país. Então, quanto mais próximo dessa construção feminina, maior vai ser a violência”, avaliou Sayonara Nogueira ao Estado de Minas em novembro do ano passado, dias após a morte de Alice Martins Alves.
Na época, Evellyn Loren, mulher trans que preside o coletivo Trans Viva, também comentou sobre esse cenário. “O corpo da mulher trans é desejado, mas eles não assumem da mesma forma que assumem uma mulher cis”, afirmou ela em referência ao termo cisgênero, que se refere a pessoas que se identificam com o sexo de nascimento. Evellyn entende que as agressões podem ser uma maneira de os homens esconderem ou negarem a atração que sentem.
Além da identidade de gênero, o levantamento aponta que 43,3% das vítimas tinham entre 26 e 35 anos, faixa etária mais atingida. Pessoas pardas e pretas também são a maioria, sendo 30,3% e 27% respectivamente.
Vítimas
Dentre as ocorrências de pessoas trans assassinadas em Minas Gerais no ano passado, a morte de Alice Martins Alves, de 33 anos, teve grande repercussão. Ela foi agredida na madrugada de 23 de outubro em uma avenida na Savassi, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, e morreu semanas depois, em 9 de novembro, por complicações dos ferimentos sofridos.
De acordo com a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), a ocorrência teve cunho transfóbico. Dois homens são réus pelo crime, e um deles está preso preventivamente.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
- Caso Alice: o que acontece após garçons virarem réus por feminicídio
- Caso Alice: garçom acusado de matar mulher trans é preso
Outra vítima foi Christina Maciel Oliveira, mulher trans de 45 anos, espancada e morta pelo ex-companheiro em plena luz do dia na Rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova, em Belo Horizonte, em 20 de outubro. Imagens de câmeras de segurança no local flagraram o momento em que o acusado Matheus Henrique Santos, preso preventivamente, agrediu Christina.