Quem nunca se encantou com um cardápio ao visitar um restaurante? E quem também nunca se frustrou com a chegada de uma placa de acrílico com um QR Code estampado? Por mais que possa parecer banal à primeira vista, os menus são peças importantes para que os clientes tenham, de cara, uma impressão do estabelecimento visitado.



As folhas também funcionam como forma de reforçar o posicionamento da marca e ampliar o serviço de hospitalidade. Apesar de todos os pontos positivos, entretanto, a necessidade de constante manutenção “pesa” para algumas casas que optam apenas pelo menu digital.




No tradicional restaurante italiano Província di Salerno, no Bairro Santa Efigênia, Região Leste de Belo Horizonte, o cardápio físico sempre foi uma das prioridades. Marcello Peluso, responsável pela casa e sobrinho do chef fundador, Remo Peluso, conta que o primeiro menu com que teve contato na casa era uma folha A3 com uma dobra e uma imagem da atriz italiana Anna Magnani no verso.



“Lembro que ele chamava muito a atenção porque ninguém tinha cardápios assim. Todo mundo usava aqueles com uma espécie de pasta de plástico em que se colocavam as folhas de ofício”, diz.


Ao assumir o Província di Salerno, Marcello Peluso decidiu reproduzir no menu o quadro que Yara Tupynambá pintou para seu tio, Remo

Jair Amaral/EM/D.A Press



Esse modelo ainda tinha uma peculiaridade que Marcello se recorda bem. “Quando era preciso alterar preços, meu tio o fazia manualmente à caneta. Naquela época, a moeda era o cruzeiro e cada valor tinha muitos zeros. Aquilo me marcou”, comenta.




Depois de um tempo, a casa optou por um cardápio clássico de capa dura vermelha. A ideia de Remo Peluso era fazer uma referência ao passaporte italiano. “Meu tio sempre dizia que queria proporcionar uma viagem à Itália sem que as pessoas precisassem sair de BH”, destaca o sobrinho.



A capa ainda vinha com o termo “passaporto” (passaporte em italiano) impresso, além da logomarca do restaurante. Por ser mais elaborado, Marcello conta que, a cada mudança de preço, era uma verdadeira novela, porque a gráfica demorava a entregar o item. Depois dessa versão, outras foram implementadas e a última antes da atual era mais sóbria, de capa dura preta de couro.


Nova era, novo cardápio


Remo faleceu em 2022 e, desde então, Marcello, que já trabalhava com o tio, assumiu o comando do Província di Salerno. Bruno Peluso, irmão de Marcello, é atualmente o chef que assina o menu.




“Havia muita expectativa em torno do restaurante após a morte do tio Remo, tinha gente achando que o Província nem aberto estava. Então, decidimos criar esse cardápio trazendo uma nova identidade, mostrando que estava sob nova direção”, conta Marcello, relembrando ainda como a capa preta estaria também bastante ligada ao luto.



Assim, em vez de olhar para fora, Marcello e sua esposa, Isabella Peluso, decidiram encontrar um símbolo para compor o cardápio dentro do restaurante. Pensaram no boneco que fica na porta da casa e nos ladrilhos hidráulicos que são emblemáticos. A referência escolhida, entretanto, foi um quadro pintado de Yara Tupynambá que havia sido um presente para Remo.



“Yara era amiga do Remo, frequentava o restaurante e falou que queria presenteá-lo com um quadro. Pediu para Remo compor a mesa com itens que representavam a casa. Ele selecionou vinhos, um bandolim italiano e outros elementos e ela pintou a cena”, explica o dono do restaurante, que reforça que buscou a pessoa que cuida dos interesses da artista para que fosse autorizada a reprodução da obra no menu.



Nada de QR Code


“Sempre quis trazer mais tecnologia para o restaurante. Tentei levar tablet, QR Code e o tio Remo dava ‘bomba’ na mesma hora”, brinca Marcello, que optou por manter a opção do chef fundador do Província e não trabalhar com menu digital. “Tio Remo tinha aversão ao cardápio digital ou QR Code”, completa, dizendo acreditar que sua clientela, sobretudo os mais velhos, gosta de passar as mãos pelo cardápio, de folheá-lo.



Remo também não gostava das letras miúdas e sempre pedia para Marcello aumentar o tamanho da fonte dos cardápios. “Uma coisa interessante é que o cardápio passava pelo momento da vida do Remo, afinal, ele foi envelhecendo com o restaurante. Se ele não conseguisse enxergar a letra da carta sem óculos, não prestava, tinha que aumentar. Ele dizia: ‘o cliente não quer pôr os óculos toda a hora”, recorda.


Imersão medieval


O cardápio é peça fundamental para transportar os clientes do restaurante A Forja Taverna, no Bairro Funcionários, Região Centro-Sul de BH, para a Era Medieval. Na casa temática, as paredes são de pedra e recebem bandeiras de pano, escudos de madeira e arandelas metálicas. A mesa é montada com pratos, copos e taças de pedra sabão e a cerveja, servida em grandes canecas revestidas com madeira. A comida, não precisa nem dizer, segue a mesma proposta.


Igor Escobar explica a composição e a história dos pratos do A Forja Taverna em páginas com escritos inspirados na caligrafia do período medieval

Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press



Todos os pratos e bebidas são anunciados em um cardápio com capa de couro, feita artesanalmente, que mais parece ter sido tirado de um filme. Dentro, as páginas de papel contam com palavras reproduzidas em fonte inspirada na caligrafia do período medieval.




“Prezo por ser o mais fidedigno possível. Durante a criação, pesquisamos livros medievais e grimórios antigos. Eu mesmo fiz o design com essas referências”, conta Igor Escobar, proprietário do restaurante. “Pensamos primeiro em um cardápio que se parecesse com uma Bíblia antiga, com a capa dura, depois em um grande pergaminho e, enfim, chegamos nesse que se assemelha à estrutura de grande parte dos livros do período”, completa.



Igor ainda reforça que as buscas foram feitas levando em consideração o território da Mongólia à Escandinávia, “até para quebrar esse paradigma que liga a Idade Média apenas à Europa”.


Link com fotos


O menu no A Forja acaba sendo também importante para, além de apresentar, explicar a composição e a história de cada prato ao cliente. Mas como em alguns casos as palavras não bastam, o curioso é que, na contracapa do cardápio físico do restaurante, há um QR Code que leva o público ao menu digital com imagens.



“Não seria legal se tivesse só o QR Code na mesa, porque o cardápio físico é parte da imersão, mas muitos clientes gostam de ver fotos dos pratos e nos pedem isso, até porque são receitas menos conhecidas”, explica Igor.


Dicionário do amor


A padaria especializada em pães de fermentação natural Albertina, no Lourdes, Região Centro-Sul de BH, vem trazendo cada vez mais novidades da cozinha para os clientes e, com elas, chega um novo cardápio físico.




Renata Rocha, padeira e proprietária do estabelecimento, conta que, ao fazer um menu, tinha uma limitação: as fornadas mudam constantemente. “Desde sempre tivemos um cardápio meio improvisado, de papel. Meu desafio era criar um menu mais genérico, já que minha seleção de produtos muda muito.”


Com nomes e ilustrações, o 'Pequeno dicionário amoroso', idealizado por Renata Rocha, descreve os principais produtos da Albertina

Jair Amaral/EM/D.A Press



Aliado a essa questão, a padeira pensou em outro gargalo, que são os diversos nomes de pães que as pessoas não conhecem e fez, no verso do cardápio fixo da casa, o “Pequeno dicionário amoroso”. Com ilustrações da designer Luma Lage, o item define o que são os principais produtos da padaria: sourdough, baguete, ciabatta, focaccia, brioche, pães integrais de forma, pão hokkaido, cannelé, as viennoiseries e o pão de queijo (que não é explicado por razões óbvias, mas consta no verso da carta).



“Pensamos nesse cardápio como um guia, para que o cliente chegue na fila com um entendimento maior do que está na vitrine. E é interessante porque acabou virando uma distração para quem espera, percebi o quão importante é o menu físico”, destaca Renata. Com apenas um mês dessa novidade, ela já percebe que os atendentes não precisam explicar tanto como antes.



Livro com cordel


O Tragaluz Restaurante Casa, em Tiradentes, no Campo das Vertentes, em Minas Gerais, encanta os clientes não só pela gastronomia. Itens com o cardápio da casa, muito ligado ao cordel e repleto de imagens divertidas – inclusive desenhos de crianças que passaram por lá – também fazem brilhar os olhos dos comensais.



“Quem não gosta de um cardápio impresso? Nossos clientes gostam tanto desse material que muitos pedem para levá-lo. Por isso, disponibilizamos os exemplares por um valor simbólico, destinado somente a cobrir os custos de produção”, afirma Pedro Navarro, proprietário da casa.


Além das comidas e bebidas, o menu do Tragaluz apresenta a equipe, projetos paralelos e tem até sugestões para conhecer Tiradentes

Magê Monteiro e Camila Mendes/Divulgação



Ele ainda reflete sobre a importância do menu para que a experiência de todos seja a melhor possível, sem, por exemplo, o excesso de serviço. “O cardápio nos permite contar histórias sem transformar a refeição em uma explicação contínua. Cada pessoa pode folhear as páginas, descobrir uma curiosidade, conhecer a origem de um ingrediente ou simplesmente escolher o prato que despertou seu apetite. Não queremos que o cliente precise ler tudo para aproveitar a experiência, tampouco que se sinta diante de uma aula.”




Apesar disso, Pedro reforça que o menu não substitui o diálogo com a equipe, mas o complementa. “No fim, hospitalidade também é respeitar o tempo e a curiosidade de cada um. É oferecer possibilidades sem impor caminhos”, diz.



O dono do restaurante conta que o cardápio não é destinado apenas às comidas e bebidas. Nele, também são apresentados projetos e o próprio chef executivo do estabelecimento.



“Aproveitamos esse espaço para compartilhar outras dimensões do nosso trabalho: a trajetória do chef executivo, Felipe Rameh, as iniciativas do Instituto Tragaluz, os projetos sociais, o museu e sugestões para conhecer melhor a cidade. Assim, o menu funciona como uma espécie de porta de entrada para o universo da casa. Ele apresenta a comida, mas também revela o que existe ao redor dela e aquilo em que acreditamos”, completa.


Ode ao Mercado


Desde o início de sua história, há sete anos, o Cozinha Tupis, restaurante no Centro de Belo Horizonte, busca homenagear o Mercado Novo, onde está localizado. Nas comidas e no ambiente aparecem essas referências. No menu físico, ela era mais escondida. Não era exatamente uma alusão, mas o item era impresso lá dentro com um tipógrafo, segundo o designer e sócio da casa, Rafael Quick.



“A beleza dele era ser impresso com essa técnica antiga. Mas quando fizemos sete anos quisemos mexer em algumas coisas e pensamos em fazer um cardápio que contasse mais dessa história e que chamasse mais atenção para a parte do design, algo forte nosso”, comenta.


Em formato de 'folhinha', cardápio do Cozinha Tupis homenageia um dos maiores parques gráficos do Brasil existente no Mercado Novo

Bernardo Silva/Divulgação



E o menu atual, lançado no último ano, busca homenagear o universo gráfico do Mercado Novo. “Lá é um dos maiores parques gráficos do Brasil, concentra muitos serviços e técnicas pequenas diferentes. Uma das coisas em que o Mercado se especializou foi no que a gente chama de gráfica popular. Eles produzem muito folhinhas, esses calendários com o fundo mais rígido e folhas correspondentes aos meses em cima grampeadas”, explica o designer, que atuou ao lado de Camila Nolasco nesse projeto.




Assim, nasceu o cardápio que mais parece um calendário. “Ele é todo feito no Mercado Novo, as folhas são de lá, a serigrafia e o corte também”, conta Rafael. Apesar de muito chamativo (e inclusive alvo de alguns furtos), o produto é um meio termo: não é tão fácil de ser produzido quanto o antigo, que era apenas uma folha, mas não tem um custo elevadíssimo.



“O cardápio é sempre um desafio, por que ou você faz uma peça mais cara e duradoura, mas tem o problema de ficar velho ou levarem, ou opta por um mais barato que é quase descartável. No último menu, a opção era a segunda. Agora, já é mais duradouro, embora não seja tão caro”, reforça Rafael.


É para ver de longe


No Balcão Savassi, casa de sanduíches artesanais na Savassi, em Belo Horizonte, o menu pode ser visto não só pelos clientes, mas por todos que passam pela movimentada esquina onde está, da Avenida Cristóvão Colombo com a Rua Fernandes Tourinho. Para Adams Mehl, diretor de operações do estabelecimento, o formato do menu exposto na parede dialoga bem com a proposta da casa.


A escolha do Balcão Savassi pela lista de itens na parede reforça a proposta da casa de oferecer um serviço prático e dinâmico

Jair Amaral/EM/D.A Press



“Está alinhado à busca por oferecer uma experiência prática, dinâmica e acessível, sem abrir mão da qualidade, claro. Ele também contribui para uma comunicação visual direta, as pessoas conseguem enxergar de longe. Isso permite que o cliente conheça as opções e tome a decisão com mais rapidez e facilidade”, afirma.




Essa agilidade é uma aliada para o serviço oferecido lá, em que o cliente faz seu pedido diretamente no balcão. “Contribui para organizar o fluxo de atendimento, especialmente nos períodos de maior movimento.”



Além do menu exposto na parede, a casa também conta com opções de cardápio físico para pegar com as mãos e o digital, que pode ser acessado via QR Code ou mesmo pelo perfil do Balcão Savassi no Instagram.



“Os cardápios fixos na parede permitem uma visualização rápida das opções disponíveis, enquanto as versões impressas habilitam uma consulta mais detalhada, seja à mesa ou na fila. Também disponibilizamos cardápios para consulta no momento do pedido no caixa, garantindo que o cliente tenha acesso às informações de maneira simples e conveniente. Trabalhamos com diferentes canais para manter as informações acessíveis e a comunicação clara”, elucida Adams.


Serviço


Província di Salerno



  • Rua Maranhão, 18, Santa Efigênia

  • (31) 3241-2205

  • Segunda, das 11h30 às 15h

  • De terça a quinta, das 11h30 às 15h e das 19h à 0h

  • Sexta, das 11h30 às 15h e das 19h à 1h30

  • Sábado, das 12h às 17h e das 19h à 1h30

  • Domingo, das 12h às 17h

  • @provinciadisalerno


A Forja Taverna



  • Rua Cláudio Manoel, 500, Funcionários

  • (31) 98291-9595

  • De terça a quinta, das 18h à 0h

  • Sexta e sábado, das 18h à 1h

  • @forjataverna


Albertina Pães



  • Rua Fernandes Tourinho, 1010, Lourdes

  • (31) 99793-8990

  • De quarta a sexta, das 9h30 às 18h30

  • Sábado, das 9h30 às 14h

  • @albertina_paes


Tragaluz Restaurante Casa



  • Rua Direita, 52, Centro – Tiradentes (MG)

  • (32) 3355-1424

  • De domingo a quinta, das 19h às 23h

  • Sexta, das 19h à 0h

  • Sábado, das 12h30 às 15h e das 19h à 0h

  • @tragaluztiradentes


Cozinha Tupis

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  • Avenida Olegário Maciel, 742, Centro

  • De domingo a terça, das 11h30 às 16h

  • De quarta a sexta, das 11h30 às 22h30

  • Sábado, das 11h30 às 22h

  • @cozinhatupis


Balcão Savassi



  • Rua Fernandes Tourinho, 19, Funcionários

  • (31) 97366-9671

  • De segunda a quinta, das 11h30 à 0h

  • Sexta e sábado, das 11h30 à 1h

  • Domingo, das 17h à 0h

  • @balcaosavassi


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