Safra de 2026 impulsiona azeites mineiros dentro e fora do Brasil
Estado vem ganhando notoriedade na produção de azeites, que colecionam prêmios nacionais e internacionais
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Já há algum tempo Minas vem sendo celebrada por produtos que vão muito além do queijo e do doce de leite. Os vinhos – cada vez mais premiados – são parte desse movimento ao lado dos azeites que, pouco a pouco, vêm pedindo passagem.
Ambos os produtos têm raízes, quase sempre, na Região da Mantiqueira ou no Sul do estado. Com paisagens exuberantes, as cadeias montanhosas oferecem algo imprescindível na produção de vinhos e azeites: noites de temperaturas mais baixas, boa amplitude térmica, altitude acima de 900 metros e um solo bem drenado.
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Todos esses fatores formam um terroir único e recém-descoberto na olivicultura que vem conquistando não só todo o país, mas o mundo. Prova disso é o crescente número de premiações internacionais que os azeites mineiros vêm recebendo – só nesta matéria, contamos as histórias de três produtos medalhistas de ouro em competições mundiais.
Segunda safra
Entre os municípios de Cruzília e Aiuruoca, na Mantiqueira de Minas, está a fazenda Cruzziléia, onde é produzido o azeite Carcará. As primeiras oliveiras foram plantadas lá em 2017 depois que a sócia-proprietária Thaís Campomizzi e seu marido, Jacson, se apaixonaram pela planta após uma temporada em Andaluzia, na Espanha. “Ficamos apaixonados por essas árvores ancestrais. Visitamos a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) em Maria da Fé (MG) e trouxemos mudas para a nossa fazenda”, explica.
Em 2024, Thaís conseguiu produzir pela primeira vez, em uma safra bem pequena, de apenas 20 litros. No último ano, que marcou uma safra ruim para todo o setor, a produtora rural não produziu nada. Mas, em 2026, o resultado foi melhor que o esperado: 900 litros de azeite, mesmo com uma perda significativa das plantas depois de uma chuva de granizo.
A ideia de mandar amostras dessa primeira safra comercial para concursos internacionais veio depois que Francisco Andrade, mestre lagareiro que atende Thaís, falar que o produto estava “excepcional”. O blend das variedades de azeitona arbequina, arbosana, koroneiki e grappolo, que apresenta notas de amêndoa verde, abacate verde e folha de tomate, foi, então, diretamente para a Europa.
Em abril deste ano, o produto ganhou medalha de ouro (isto é, pontuação acima de 85) no Anatolian International Olive Oil Competition, na Turquia. Já no EVO IOOC 2026, na Itália, o Carcará saiu com medalha de ouro. Entre os azeites que receberam medalha dourada no evento, aqueles com nota mais alta avançaram para a fase final, na qual o Carcará foi escolhido como o Melhor Azeite da América do Sul.
Os bons resultados surpreenderam Thaís. “Fiquei assustada, mas sabíamos que nosso azeite era bom, temos muito cuidado com as azeitonas”, destaca, chamando a atenção para o processo natural de colheita, em que o ponto do fruto deve ser o correto.
Negócio familiar
A safra de 2026 foi a primeira do azeite Poema, produzido na zona rural de Aiuruoca, no Sul de Minas Gerais, mais especificamente na Fazenda Aurora da Mantiqueira. Lá, as oliveiras plantadas em 2019 dividiam espaço com ovelhas criadas para corte. “São duas atividades complementares. As ovelhas pastam entre as ‘ruas’ do olival e produzem um esterco muito valioso para adubar o solo”, explica Leonardo Araújo, sócio da marca ao lado do filho, Bernardo Araújo, e da nora, Paula Peres.
Cada qual com sua competência contribui para o melhor resultado possível, seja em termos de qualidade sensorial, operação logística e construção de marca. Por falar nela, o próprio nome dado ao produto simboliza um traço familiar: Leonardo é também poeta e apaixonado por literatura. Foi daí que a família decidiu batizar o azeite de Poema. “Estamos empenhados em fazer com que nosso azeite seja um convite aos sentidos”, conta.
Em termos sensoriais, um dos aspectos que mais contribui para a qualidade do azeite Poema é um lagar dentro da propriedade. “Metade da qualidade do nosso azeite está no campo e os outros 50%, no momento em que as azeitonas entram na máquina. Aí está a importância de um lagar dentro da nossa propriedade, pois temos o menor tempo possível entre a colheita e o processo de produção em si”, detalha.
Destaque internacional
O Poema, que mescla as variedades arbequina, arbosana, koroneiki e grappolo e tem como característica notas de ervas frescas, couve e almeirão, também se destacou em competições internacionais neste ano. Foi medalhista de ouro no EVO IOOC, na Itália; no Anatolian International Olive Oil Competition, na Turquia; e no Terra Olivo, em Israel, onde também esbanja do título de “Grand Prestige Gold”, que quer dizer que o rótulo ganhou mais de 90 pontos.
“Quisemos entrar nos concursos justamente para termos feedbacks. Com as conquistas, também vamos ganhando reconhecimento do público, funciona como uma chancela”, conta Leonardo.
Altitude favorável
Outro medalhista de ouro em premiações internacionais que vem de solos mineiros, o Azeite da Pedra é produzido na cidade de Caldas, na Mantiqueira de Minas. “Achamos um sítio em Caldas e, inicialmente, pensamos em produzir vinhos lá”, conta Fabio Dias, sócio da marca ao lado da esposa, Paula Pedrão, que são de São Paulo.
Conversando com um produtor, no entanto, eles constataram que a altitude de 1.300 metros em que a propriedade se encontra não seria ideal para esse tipo de produção. “Falaram para plantarmos oliveiras e assim fizemos, no fim de 2021”.
A primeira safra foi justamente a de 2026 – abençoada pelo clima. Foram 250 litros do blend de grappolo, arbequina e koroneiki, que apresenta notas de amêndoas, mel, banana verde, entre outros, que já foram todos vendidos. O produto foi enviado para um especialista, que destacou as chances de medalha em premiações internacionais. “Por isso, resolvemos investir. Mandamos para um concurso na Itália, na Turquia e outro de Israel.”
Tanto no italiano EVO IOOC quanto no turco Anatolian International Olive Oil Competition e no israelense Terra Olivo, a marca conquistou medalha de ouro. Nesta última, ainda ficou entre os 10 melhores azeites do mundo e o melhor do Brasil na competição.
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Vantagens e desvantagens
Em entrevista ao Degusta, Fabio destacou pontos positivos e negativos de se produzir azeite em Minas. “Por ser uma produção artesanal, te permite fazer as coisas com muito mais capricho e precisão. Mas essa colheita manual, que está ligada ao relevo da região, também é um dificultador para escalarmos a produção”, pontua.
As tecnologias de maquinário são outro fator importante. Isso porque, enquanto regiões tradicionais na produção contam com máquinas mais antigas, novos produtores como Minas já despontam com um maquinário mais tecnológico.
Por fim, o produtor paulista destacou que o mineiro sabe contar muito bem a história do seu produto. “Acho muito legal ver como o mineiro sabe valorizar o que foi feito em Minas. Consequentemente, as pessoas de outros lugares vão percebendo que aquele produto é bom”, comenta, tomando como exemplo os queijos das diversas regiões do estado, que são motivo de orgulho para produtores e nativos.
O nosso terroir
Os azeites produzidos no Sul de Minas, apesar de terem em comum a produção em ambiente de boa amplitude térmica, altitudes mais elevadas e solo vulcânico e drenado, são muito distintos entre si. “Minas Gerais é um estado muito grande e diverso, com diferentes altitudes, solos, microclimas e condições de cultivo. Por isso, ainda seria prematuro falar em um único perfil sensorial que represente todo o azeite produzido no estado”, defende a azeitóloga Ana Beloto.
A especialista, no entanto, destaca algumas notas que aparecem com frequência nos óleos da região. “Na Serra da Mantiqueira, por exemplo, a altitude, as amplitudes térmicas e as características de cada região favorecem a produção de azeites com bastante frescor e expressão aromática. Em diferentes azeites da região, encontramos com frequência notas verdes, herbáceas, de folhas e ervas frescas, além de sensoriais que podem remeter a elementos muito presentes na paisagem e na gastronomia mineira, como couve, café verde e algumas frutas e hortaliças de quintal.”
Por dentro dos prêmios
Para que um azeite seja premiado, o produtor deve enviar uma amostra para uma análise do júri, o que envolve muitos custos. Entre as premiações internacionais de maior importância, destacam-se:
- EVOO IOOC (Itália): realizado no primeiro semestre de cada ano, com cerimônia de premiação em junho;
- Terra Olivo (Israel): ocorre anualmente no mês de junho;
- Anatolian International Olive Oil Competition (Turquia): competição anual com cerimônia em maio;
No Brasil, o Prêmio CNA Brasil Artesanal, promovido pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, tem uma categoria de azeite de oliva, além de outros produtos artesanais. As datas de divulgação dos resultados deste ano ainda não foram definidas.
Serviço
Carcará (entre Cruzília e Aiuruoca)
- (31) 99621-9914
- @azeitecarcara
Azeite da Pedra (Caldas)
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Poema (Aiuruoca)
- (31) 98475-6863
- @azeitepoema