O que a comida geraizeira pode levar para o seu prato?
Pratos e bebidas com produtos como pequi, baru, buriti, coquinho azedo e seriguela transformam a riqueza natural dos Gerais em experiências gastronômicas
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Os frutos do cerrado têm alto aproveitamento em vários pratos, podendo servir como ingredientes de sanduíches, pizzas, além do uso no preparo de sucos, sorvetes e drinques. Quando somados aos produtos da chamada cozinha geraizeira, como a carne de sol, tornam-se mais valorizados ainda. O potencial da culinária geraizeira e do cerrado foi apresentado no Festival Gastronômico Sabores do Gerais, promovido em Montes Claros, no Norte de Minas, no início do mês, numa iniciativa da prefeitura da cidade, com o apoio do Sebrae Minas e da Cemig.
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Durante o evento, 14 estabelecimentos apresentaram pratos preparados com ingredientes do cerrado e da região dos Gerais, entre os quais o pequi e a apreciada carne de sol, carro-chefe da culinária norte-mineira. Os representantes dos restaurantes, bares e outros empreendimentos presentes no festival foram capacitados sobre o uso dos ingredientes regionais durante um ano, por meio do programa Prepara Gastronomia, do Sebrae Minas.
Os visitantes do evento experimentaram pratos e bebidas com produtos como pequi, baru, buriti, coquinho azedo e seriguela, transformando a riqueza natural dos gerais em experiências gastronômicas. Foi lançada a Rota Gastronômica Sabores do Gerais – Montes Claros, com um guia dos bares e restaurantes que valorizam a cozinha geraizeira, fortalecendo o turismo e a economia local.
Não é só pequi
A chef Bernadete Guimarães, consultora e curadora do Prepara Gastronomia, salienta que “o cerrado não tem só o pequi” e as espécies nativas do bioma oferecem uma série de produtos que são aproveitados na gastronomia, entre os quais o baru, o buriti, a pimenta-de-macaco e o coquinho azedo. “No cerrado existem tantos ingredientes para o uso na culinária que ainda não sabemos qual a sua verdadeira dimensão”, sustenta.
Bernadete afirma que, por causa da “fama” do gosto característico do pequi, muitas pessoas acham que os pratos preparados com os ingredientes do cerrado têm sabor forte, que satisfaz a alguns e desagrada outros.
“Mas não tem essa história de 'amo ou odeio' na cozinha geraizeira e nos pratos do cerrado. Como estudiosa e pesquisadora do assunto, posso dizer que a junção desses ingredientes resulta numa gastronomia suave. Tem prato no qual pode ser usado o molho do coquinho azedo. Quando se fala no coquinho azedo, se pensa em algo forte, um pouco ácido. Mas, quando a gente trabalha o produto gastronomicamente, ele se torna harmônico”, descreve a chef de cozinha.
Ela cita também o baru. “Muita gente come o baru, pensando que ele tem um sabor quase igual ao do amendoim. Mas, depois que prova mesmo, percebe que ele tem um sabor neutro. É como se a pessoa educasse o seu paladar”, ressalta.
A coordenadora do Projeto Sabores do Gerais, Sara de Melo Teixeira, da prefeitura de Montes Claros, destaca que o festival promovido no Norte de Minas foi “uma celebração da cozinha geraizeira”. Ele lembra que o aproveitamento dos produtos do cerrado na gastronomia também é um incentivo aos pequenos agricultores e à preservação ambiental. “Ao saborearem os ingredientes do cerrado em um festival, as pessoas também se aproximam dos guardiões da biodiversidade, que são aqueles que produzem no cerrado”, avalia Sara.
A gastronomia geraizeira
A chef Bernadete Guimarães chama a atenção também para a importância dos ingredientes da “cozinha geraizeira”, que foram usados nos pratos apresentados no festival em Montes Claros, entre os quais o requeijão moreno, a linguiça caseira e a carne de sol. “A cozinha do Gerais é muito específica desse território. Precisamos estudar, harmonizar e saber utilizar os seus ingredientes.”
Bernadete afirma que a culinária típica regional, fomentada por ingredientes como a carne de sol e o pequi, tornou-se uma atração turística no Norte de Minas. “A região conta com o Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, o Rio São Francisco e outros pontos turísticos físicos. Mas a gastronomia norte-mineira tem atraído muitos turistas para esta parte do estado, principalmente pela curiosidade em conhecê-la e pelo seu sabor”, avalia expert na “cozinha geraizeira”.
Pratos em destaque
As delícias preparadas com ingredientes do cerrado e produtos “geraizeiros” apresentadas no Festival Sabores do Gerais, em Montes Claros, foram as mais variadas. O público experimentou diferentes pratos, tira-gostos, sanduíches, sorvetes, sucos e drinques preparados com os ingredientes regionais. Houve também degustação de queijos e vinhos produzidos na região.
Carro-chefe da gastronomia regional, a carne de sol chamou atenção no evento. Um dos pratos em destaque no festival foi o “Sereno sagrado”, preparado com a carne de sol (lagarto) assada na brasa, à base de manteiga de garrafa. Numa integração dos produtos geraizeiros com os ingredientes das espécies nativas, ela estava bem acompanhada de feijão-tropeiro, farofa de pequi e cajuzinho do cerrado.
“Fizemos esse prato mostrando a carne de sol serenada do Norte de Minas, que tem uma gastronomia muito rica. Além da carne de sol, temos frutos, castanhas e outras especiarias”, afirma o empresário Hugo Borges Pinheiro, da Charcuteria Sagrada Família, responsável pelo prato “Sereno sagrado”.
Outro prato oferecido no festival foi o “Mineirinho”, do Restaurante Godofredo. A iguaria tem carne de sol desfiada, servida com creme de mandioca e requeijão envolvido com batatas rústicas, além da farofa de baru.
“A nossa culinária é muito rica. O nosso cerrado conta com muitos frutos que podem ser usados na gastronomia, com preparação de pratos somente com produtos naturais, sem usar nada industrializado”, destaca Andréia Marques Moura, sócia-proprietária do Restaurante Godofredo. “Percebo que a gastronomia tem favorecido o turismo em nossa região. Muitas pessoas querem conhecer e experimentar os pratos feitos com os ingredientes do cerrado”, afirma.
Sanduíche com pequi
Os ingredientes do cerrado e da cozinha gerazeira também são bem aproveitados na preparação de sanduíches. Uma boa pedida é o “Pirata do Norte”, da hamburgueria Navio Pirata, apresentado no festival. Conforme explica Adailson Rabelo Oliveira, proprietário da hamburgueria, a iguaria é preparada com pão brioche, carne bovina, queijo muçarela derretido, polpa em lâminas de pequi, torresmo crocante e geleia de pimenta-biquinho.
“Quisemos aproveitar os produtos do cerrado e dos Gerais. Podemos dizer que esse é o universo temático dos nossos sanduíches”, declara Adailson.
Os visitantes do festival conheceram ainda os vários tipos de queijos e requeijões artesanais produzidos no Norte de Minas e o aproveitamento deles na gastronomia. Entre outros produtos, foram exibidos queijo de massa cozida, o queijo Minas artesanal e o requeijão moreno, produzidos na região de Porteirinha e da Serra Geral (perto da divisa com a Bahia) e o queijo parmesão, “fabricado” em Januária. Os derivados do leite foram apresentados pela “queijista” Natália Ferreira Barbosa.
Outras delícias do cerrado e da cozinha geraizeira em destaque no Festival Sabores do Gerais:
Rocambole Geraizeiro (Bar do Thom)
Rocambole de linguiça artesanal com especiarias e ora-pro-nóbis, recheio de queijo, batatas rústicas salteadas na manteiga de garrafa com leve toque de farinha de buriti e geleia de tamarindo com pimenta.
Milagre de Agosto (Venda do Fred)
Carne de sol serenada com cebola roxa dourada, redução de rapadura com limão-cravo, farofa de castanha de pequi e vinagrete de maxixe.
Espaguete com Ragu do Cerrado (Sabores de Casa)
Massa envolvida em um ragu de linguiça preparada com molho artesanal de tomates e delicadas lascas de pequi e finalizada com mix de queijos, bacon crocante, milho e azeitonas.
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Poke do Cerrado (PokeMoc)
Arroz de pilão com creme de pequi, carne de sol, vinagrete de maxixe, farofa de baru e molho de coquinho azedo.