VOCAÇÃO EM EXPANSÃO

Comida muda identidade de cidade mineira conhecida como Vale da Eletrônica

Santa Rita do Sapucaí está no mapa da inovação, mas cozinheiros, cafeicultoras e empreendedores mostram que criatividade também se expressa à mesa

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Quem chega a Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas Gerais, costuma logo associar a cidade às startups e empresas que lhe renderam o título de Vale da Eletrônica. Mas basta participar da rotina do município para descobrir outra vocação em expansão: a gastronomia.

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A cerca de 450 quilômetros de Belo Horizonte, em uma viagem de aproximadamente cinco horas de carro, a cidade que uniu a devoção à padroeira Santa Rita de Cássia ao rio Sapucaí, com seus 343 quilômetros de extensão, também reúne histórias, tradições e culturas à mesa. Em restaurantes, cozinhas afetivas e pequenos empreendimentos, receitas de família e influências trazidas por imigrantes ajudam a contar a formação do município.


Esse movimento acompanha o amadurecimento do setor na região. Segundo a analista do Sebrae Myrian Sousa, a gastronomia deixou de ser apenas um serviço de apoio ao intenso fluxo de estudantes, empresários, investidores e visitantes atraídos pelo ecossistema de inovação para se consolidar como um diferencial competitivo da cidade.

'A gastronomia deixou de ser apenas um serviço de apoio para se tornar também um importante atrativo para quem visita Santa Rita' - Myrian Sousa, analista do Sebrae
'A gastronomia deixou de ser apenas um serviço de apoio para se tornar também um importante atrativo para quem visita Santa Rita' - Myrian Sousa, analista do Sebrae Arquivo pessoal


“Nos últimos anos, vimos um amadurecimento do setor, com empreendedores investindo em identidade, qualidade, gestão e inovação. A gastronomia deixou de ser apenas um serviço de apoio para se tornar também um importante atrativo para quem visita Santa Rita”, afirma.


Para ela, a profissionalização dos empreendimentos e a diversificação da oferta deram novos contornos ao cenário gastronômico local. Negócios familiares passaram a conviver com cozinhas autorais, enquanto eventos como o Festival Sabores do Vale e o Prepara Gastronomia estimularam os empresários e cozinheiros iniciantes a investirem em identidade, capacitação e experiências capazes de fortalecer o turismo e valorizar a culinária regional.


Com cerca de duzentos anos de história, Santa Rita do Sapucaí, assim como outras cidades, teve influência dos imigrantes que pode ser percebida nos pratos. A forte presença da comunidade libanesa, por exemplo, inspirou a cozinheira Renata Nassar a transformar receitas passadas entre gerações em profissão. Hoje, ela prepara pratos típicos do Oriente Médio para eventos e encomendas, preservando sabores que chegaram à cidade com seus bisavós.

Por que não?


A gastronomia, porém, surgiu quase por acaso em sua vida. Durante a pandemia, depois de preparar uma grande quantidade de coalhada seca, Renata enviou parte para amigos na empresa onde o marido trabalhava. A repercussão despertou uma ideia que até então parecia distante: transformar a cozinha em negócio. “As pessoas sempre perguntavam por que eu não vendia. Achava um absurdo. Até que um comentário me fez pensar: por que não?”, relembra.

Descendente de libaneses, Renata Nassar transformou receitas de família em negócio
Descendente de libaneses, Renata Nassar transformou receitas de família em negócio Benedito Junior/Divulgação


Ela deixou o antigo emprego, cursou gastronomia e passou a aperfeiçoar as receitas de família com técnicas aprendidas em restaurantes especializados. Hoje, o quibe, vendido cru (R$ 27), assado (R$ 48) e frito (R$ 24), está entre os campeões de venda, ao lado de pastas tradicionais, como homus (R$ 20), coalhada seca (R$ 18) e babaganuche (R$ 20). “Trabalho com o básico, com aquilo que as pessoas conhecem. É uma comida muito saudável, rica em grãos, verduras e legumes”, diz.


Renata também destaca que eventos como o Sabores do Vale, realizado neste ano entre os dias 23 e 26 de julho, e os cursos de capacitação foram essenciais para a profissionalização e o aperfeiçoamento, tanto de quem já cozinhava havia anos quanto de quem havia ingressado recentemente no mercado. “


Cozinha mediterrânea


Se a culinária árabe preserva a herança dos imigrantes que ajudaram a formar Santa Rita do Sapucaí, a Casa do Pi, próxima à praça central, mostra como a cidade também incorporou novas referências gastronômicas ao longo do tempo. Inspirado pela temporada em que viveu na Espanha, o casal Vagner e Aparecida de Fátima Simoni trouxe a cozinha mediterrânea para o Sul de Minas e transformou a própria residência em um espaço onde a comida é servida mediante reserva, em um ambiente pensado para receber os clientes como convidados.


A história começou há mais de duas décadas, quando o casal deixou São Paulo e se mudou para a região. Depois de passar dois anos na Espanha, Vagner trouxe na bagagem ingredientes, técnicas e sabores típicos da culinária mediterrânea. “Minas não tem mar. Então, nós trouxemos o mar para Minas”, resume Aparecida.


A pizzaria que administraram durante duas décadas deu lugar, há 11 anos, a um novo formato: uma casa onde o chef prepara os pratos e a anfitriã faz questão de conhecer cada visitante pelo nome. Ao chegar, os clientes recebem uma pequena cortesia, criada para despertar o paladar antes de escolher o que comer. “Não gosto que os clientes cheguem e já pegue o cardápio correndo. Calma. Preparamos uma entrada com tempo, enquanto escolhemos um vinho ou outra bebida”, explica.

Produtos sazonais


O menu muda conforme a sazonalidade dos ingredientes, a criatividade do chef e até os pedidos de quem está à mesa. “A pessoa chega e diz que não sabe o que quer comer. A gente conversa, entende o momento e prepara a experiência. No nosso entendimento, não é só gastronomia, mas proporcionar acolhimento.”

Inspirado pela temporada em que viveu na Espanha, Vagner Simoni faz uma cozinha mediterrânea com ingredientes mineiros
Inspirado pela temporada em que viveu na Espanha, Vagner Simoni faz uma cozinha mediterrânea com ingredientes mineiros Arquivo pessoal


Entre as especialidades da casa, estão o arroz de polvo (R$ 165), preparado com o molusco cozido lentamente em arroz caldoso; o bacalhau ao azeite ou à moda da casa (R$ 165); e as trutas servidas com molho de alcaparras (R$ 105) ou de amêndoas (R$ 125).


Aparecida explica que a cozinha tem como base o azeite, o vinho e os frutos do mar, marcas da tradição mediterrânea, mas dialoga com ingredientes produzidos na própria região. Na época do pinhão, por exemplo, o ingrediente aparece em diferentes preparações.


Já o café ganha espaço em molhos que acompanham carnes, enquanto hortaliças e outros produtos são adquiridos de produtores locais ou cultivados na própria horta da família. “A gente procura usar a sazonalidade a nosso favor e mostrar às pessoas o que a região oferece”, conta.

Turismo de negócios


O perfil de Santa Rita também ajuda a explicar o sucesso do negócio. Acostumada a receber empresários, pesquisadores e visitantes de diferentes países por causa do Vale da Eletrônica, a cidade impulsionou um turismo de negócios que encontra na gastronomia uma forma de prolongar a experiência. A convivência entre tradição e inovação, aliás, é uma das marcas da gastronomia santa-ritense.


“Existem muitos negócios familiares, que fazem parte da história da cidade e continuam se reinventando. Ao mesmo tempo, cresce o número de jovens empreendedores e de pessoas que migraram de outras áreas em busca de realizar o sonho de empreender na gastronomia. Essa mistura de tradição e inovação é uma das características mais positivas do setor em Santa Rita”, observa a analista do Sebrae Myrian Sousa.

Espaço cultural


Poucos lugares traduzem tão bem esse encontro entre passado e presente quanto a Casa da Sinhá, no Bairro Eletrônica. Instalado no campus da Escola Técnica de Eletrônica (ETE), o restaurante ocupa um espaço carregado de simbolismo para a cidade. Foi ali que nasceu a primeira escola de eletrônica da América Latina, idealizada por Sinhá Moreira, ou Luzia Rennó Moreira, figura que ajudou a transformar Santa Rita do Sapucaí em referência nacional em tecnologia.

Emerson Bernardes comanda restaurante que fica onde funcionava uma antiga marcenaria da Escola Técnica de Eletrônica (ETE)
Emerson Bernardes comanda restaurante que fica onde funcionava uma antiga marcenaria da Escola Técnica de Eletrônica (ETE) Arquivo pessoal


Inaugurado em novembro de 2024, o restaurante nasceu quase por acaso. O chef Emerson Bernardes conta que a ideia surgiu durante uma conversa para dar um novo destino ao espaço onde funcionava uma antiga marcenaria da escola. O projeto ganhou forma e deu origem a um ambiente pensado para oferecer não apenas refeições, mas também experiências ligadas à cultura e à história do município.


A cozinha valoriza ingredientes e receitas mineiras com técnicas contemporâneas. Entre os destaques do cardápio, estão a costelinha defumada por cerca de duas horas em madeira de goiabeira, servida com molho de goiabada e tomate (R$ 120), os bolinhos caipiras recheados com vaca atolada, rabada ou joelho de porco (R$ 40) e os pastéis preparados com massa de angu (R$ 40), que se tornaram uma das marcas da casa.


Mais do que um restaurante, Emerson acredita que o espaço assumiu um papel de preservação da memória local. Muitos clientes são ex-alunos da ETE ou moradores que já conheciam a trajetória de Sinhá Moreira. Aos visitantes que chegam apenas para conhecer a gastronomia, a equipe faz questão de apresentar a história da pioneira e de sua contribuição para o desenvolvimento da cidade.


“Quando descobrimos que alguns clientes não conhecem essa história, sentamos e contamos. Isso nos enche de orgulho. Tudo acaba em boa comida, histórias marcantes e amizades duradouras”, afirma o chef.


Para Emerson, a proposta da Casa da Sinhá é dar continuidade ao legado deixado por uma das personagens mais importantes de Santa Rita do Sapucaí. “Nosso local deixou de ser apenas um restaurante e se tornou um espaço cultural. A Sinhá Moreira sempre pensou na comunidade e hoje estamos seguindo esse legado”, diz.

Serviço


Renata Nassar

Casa do Pi

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  • Praça Santa Rita, 212, Centro
  • Terça, das 19h às 23h
  • De quarta a sábado, das 19h às 22h
  • (35) 98837-1804
  • @casadopi

Casa de Sinhá

  • Rua Loreto Garcia, s/n, Eletrônica
  • Quinta e sexta, das 18h às 23h30
  • Sábado, das 11h30 às 14h30 e das 18h às 23h30
  • Domingo, das 11h30 às 14h30
  • (35) 99929-5489
  • @casadesinhaoficial

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