Quando o assunto é um negócio, duas décadas e meia nunca são pouca coisa. Tratando-se de um restaurante, então, esse número ganha ainda mais força. Ainda mais quando o estabelecimento em questão se propõe a subverter uma lógica de tradição em uma cidade interiorana e conquistar, com isso, os olhares de todo um país, os 25 anos de história são motivo de muito mais orgulho.

Esse é o caso do Tragaluz, restaurante em Tiradentes, cidade histórica no Campo das Vertentes, em Minas Gerais, que colocou a goiabada no The New York Times; o jiló e a carne de porco em um serviço noturno complementado com taças de cristal e luz de velas; e protagonizou o processo de transformação da pequena cidade onde está em um polo gastronômico, além de turístico.

Em 2026, com os emblemáticos 25 anos (celebrados, mais especificamente, em março deste ano), o restaurante está mais maduro, conforme explica o sócio-proprietário Pedro Navarro, que comanda, ao lado da esposa Patrícia, a casa fundada pela tia, Zenilca Navarro. “Ao longo deste quarto de século, o Tragaluz passou pela sua juventude e amadureceu com graça.”

“Graça”, aqui, podemos traduzir em coerência e solidez – que fizeram, inclusive, com que, há pouco menos de um ano, nascesse o Lagar, casa “irmã” do Tragaluz – presente em Tiradentes e em Belo Horizonte.

Esse amadurecimento que Pedro destaca se mostra evidente em um cardápio consciente, que olha para pequenos produtores do entorno e traduz a essência da casa, mesmo com a presença de toques internacionais.

Chef, cliente e amigo

O trabalho em Tiradentes reforça a ligação do chef Felipe Rameh com o interior de Minas Gerais

Victor Schwaner/Divulgação

Há cerca de seis anos, o chef Felipe Rameh – que coincidentemente celebra também em 2026 25 anos com o diploma de gastronomia – é quem assina o menu do Tragaluz.

Sua história com a casa é interessante. Depois de se formar como chef e ter passado por cozinhas internacionais, brasileiras e belo-horizontinas, ele começou a dar aulas e montou uma turma em Tiradentes. “Conheci o Tragaluz como cliente e ele sempre me encantou pela ambientação que te leva a uma Minas antiga, pela simplicidade e pela comida bem-executada”, explica.

Em uma das idas à cidade para ministrar suas aulas, em meados de 2010, Rameh se deparou com um pedido inusitado. Zenilca, então proprietária do Tragaluz, queria que o chef admitisse colaboradores do seu restaurante em suas aulas.

“Alguns funcionários fizeram aula comigo e depois de alguns meses a Zenilca me ligou. Ela queria que eu fosse até Tiradentes para cozinhar uma ceia de fim de ano para a equipe. Desde então, não nos desgrudamos mais. Me tornei um parceiro e conselheiro do Tragaluz”, conta.

No almoço que marcou a passagem de bastão de Zenilca para Pedro, foi Rameh quem cozinhou – e foi naquele momento que os dois se conheceram.

“Ele me manteve como parceiro do projeto, tanto que os últimos chefs que passaram pela casa foram indicações minhas, até o dia em que me perguntou se eu toparia ser de fato o chef do restaurante, estar lá de forma mais consolidada”, rememora o chef, que comemora estar à frente dessa cozinha que tanto o encanta.

Retorno ao interior

Porco e milho: os ingredientes aparecem em diferentes versões no prato que une bochecha de porco e risoni

Victor Schwaner/Divulgação

A chegada de Rameh ao Tragaluz reforça a sua ligação com o interior. O chef é natural de Juiz de Fora e cresceu em Muriaé, duas cidades da Zona da Mata mineira. Depois de uma temporada de quatro anos na Europa, quando passou por grandes restaurantes, como o aclamado Mugaritz, no País Basco, na Espanha, retornou para o Brasil e, diferentemente do que a ordem “mais lógica” mandaria, não foi à São Paulo para abrir um restaurante e sequer veio para Belo Horizonte, a capital de seu estado. Em vez disso, voltou para Muriaé com um sonho.

“Em um momento, quando estava na Bélgica, percebi que conhecia mais da cozinha belga do que da culinária de onde eu vim. Resolvi voltar para Muriaé e trouxe toda uma bagagem comigo, que implementei no Benedita Bistrô. Lá tínhamos uma horta orgânica, um cardápio sazonal, uma equipe local… Foi uma grande utopia que vivemos por quatro anos.”

Hoje, apesar de morar em BH, Rameh mantém uma raiz interiorana em Tiradentes. Todos os meses, ele passa três dias na cidade história para acompanhar de perto as cozinhas que comanda por lá – do Tragaluz e do Lagar.

“Inconscientemente, busco esse lugar [o interior]. Ir para Tiradentes é, sem dúvida, um retorno para esse local”, conta o chef, que ainda enfatiza buscar traços interioranos dentro da própria capital, morando no Bairro Floresta, Região Leste de BH, onde as casas ainda são parte da paisagem e o diálogo entre vizinhos, corriqueiro.

Clássicos do menu

Estragão, taioba, farofa de maracujá, arroz negro e frutos secos acompanham o surubim selado no azeite

Victor Schwaner/Divulgação

No Tragaluz, há uma série de pratos que são como entidades – levemente adaptados, mas jamais transformados por inteiro. A Pintada Tragaluz (R$ 164), por exemplo, um dos mais emblemáticos, é um arroz caldoso com paio acompanhado de coxa e sobrecoxa de galinha-d’angola confitadas, telha de angu e microbrotos.

“Existem mudanças na forma de fazer. Hoje temos esse esmero no confit [técnica francesa de cozimento lento e submerso em gordura] e no caldo de galinha-d’angola usado na cocção dos grãos”, aponta Pedro.
A mundialmente famosa goiabada cascão prensada na castanha-de-caju granulada, frita na manteiga, servida sobre queijo cremoso e ao lado de sorvete de goiaba (R$ 59) também é sagrada para os clientes. O sorvete de queijo com fatias de queijo Canastra meia cura, farofa de nozes e doce de leite levemente queimadinho (R$ 49) é outra sobremesa que tem lugar cativo no cardápio. Os três clássicos citados, inclusive, compõem o menu do Lagar Tragaluz em Tiradentes e em BH.


O sócio-proprietário destaca, ainda, pratos que exprimem bem a criatividade dos chefs. “Temos o creme de baroa que é um clássico da casa. Hoje o Rameh prepara com base em uma receita que desenvolveu com o Alex Atala [quando trabalhou no estrelado D.O.M., em São Paulo]”. Cogumelos frescos, farofa de especiarias, redução de vinagre, castanhas crocantes e microbrotos complementam a atual versão (R$ 69).

Novidades em breve

A costela bovina glaceada ganha sotaque francês com o molho "au poivre" de pimenta e batata-baroa rosti

Victor Schwaner/Divulgação

Ao lado dos clássicos, caminham pratos mais jovens e não menos saborosos. Em celebração aos 25 anos, um novo menu deve ser lançado em meados de junho. Felipe Rameh e Pedro Navarro revelaram, com exclusividade, alguns “spoilers” do que deve ser implementado, a começar pela costela bovina au poivre.

O corte (que corresponde aos cinco primeiros ossos da costela, retirados da parte frontal do animal) é glaceado, servido com o clássico molho francês de pimenta com creme de leite e acompanhado de uma batata-baroa rosti (R$ 164).

Entre as novidades assinadas por Rameh, uma das favoritas de Pedro é o surubim selado no azeite mineiro (R$ 176), que chega à mesa com estragão, taioba, farofa de maracujá e creme de leite fresco. Arroz negro cremoso com castanhas, frutos secos e raspas de limão siciliano completam o prato, inspirado na famosa receita da família Troigros de salmão com azedinha.

O diálogo entre o imaginário mineiro com ingredientes e técnicas estrangeiros é evidente no prato intitulado O Porco e o Milho (R$ 113). A criação une bochecha de porco braseada com molho roti, risoni (massa em forma de grãos que se assemelha ao arroz), milho fresco, creme de leite fresco, guanciale (bochecha de porco curada), queijo parmesão e texturas de milho.

A já consolidada burrata – que lá é produzida por Vincenzo Santaniello, em Ibertioga, cidade no Campo das Vertentes – vai passar a vir, no novo cardápio, sobre uma compota de mexerica (R$ 82).

Outra novidade é o filé bovino com molho de pimenta rosa acompanhado de brócolis e batatas coradas (R$ 148). “Resgatei essa receita clássica e simples que comi há muitos anos no Tragaluz, em uma das minhas primeiras vezes lá”, explica o chef.

Sofisticação discreta

"Esperamos que o Tragaluz continue com a sua essência, valorizando as raízes mineiras, os produtores e as pessoas" - Pedro Navarro, sócio-proprietário do Tragaluz e do Lagar

Tragaluz/Divulgação

Ao longo dos 25 anos, Rameh conta que o que mais o encantou no restaurante – que é justamente o que ele investe para evidenciar cada vez mais – é a elegância e a sofisticação que estão “em outro lugar”. Nada de pretensão gastronômica que mira apenas em prêmios e grandes conquistas, mas um restaurante mais despretensioso, com mais autenticidade local e conforto. “No meu entendimento, o Tragaluz precisa ser o que sempre foi, um lugar que traduz a essência do que é a restauração.”

Pedro, por sua vez, reforça a ideia do chef e diz que o foco da casa sempre foi “criar momentos agradáveis em torno da mesa, cultivando generosas pitadas das origens do restaurante”.

Olhando para os próximos 25 anos que virão, o sócio almeja novos projetos, que podem até “ultrapassar a exuberante Serra de São José e alcançar outros públicos”, mas enfatiza a manutenção da trajetória consistente e sólida – que envolve, diga-se de passagem, o enfrentamento da pandemia de COVID-19 sem o desligamento de nenhum funcionário.

“Esperamos que o Tragaluz continue com a sua essência, valorizando as raízes mineiras, os produtores e as pessoas; que siga a se reinventar e acompanhe, com sutileza, as transformações do mundo, mantendo o propósito mais sincero de proporcionar momentos agradáveis ao redor de uma boa mesa”, finaliza o sócio-proprietário.

Minas cosmopolita

O homus com pão frito faz referência ao Líbano, um dos país produtores de azeite e vinho homenageados no cardápio

Magê Monteiro/Divulgação

Quando um restaurante se torna praticamente um ponto turístico, como ocorreu com o Tragaluz, em Tiradentes (MG), as filas de espera se tornam recorrentes. Muitas vezes, em dias visados como sextas e sábados, há clientes que sequer conseguem se sentar. Essa foi uma das razões por trás da criação do Lagar Tragaluz, uma casa independente, mas que carrega no próprio nome a herança de um “irmão” consagrado.

“Sempre provoquei o Pedro [Navarro, sócio do Tragaluz] dizendo que o restaurante é um negócio consistente e robusto, que nos permitiria ‘olhar para fora da janela’, pensar em algo novo. Nós também lidamos com a situação de, em dias de forte movimento, precisar ‘voltar para a casa’ mais de 40 mesas”, comenta Felipe Rameh, chef da operação, destacando os motivos por trás da fundação do Lagar.

A casa, localizada na Rua Direita, em Tiradentes, a mesma do Tragaluz, pode, além de receber clientes que não conseguiram um lugar no restaurante, apresentar uma outra cozinha, com outras pretensões. “Além do mais, entendemos que muitos clientes vêm até Tiradentes e passam dois ou três dias na cidade. Com o Lagar, essa casa mais descontraída e contemporânea, podemos mostrar outras facetas da nossa gastronomia para essas pessoas”, destaca Pedro Navarro.

Vinho e azeite

A ideia do nome Lagar veio de uma experiência do chef na Semana Criativa de Tiradentes. “Vi a palavra lagar gravada numa pedra de um artesão, comecei a pirar naquilo e depois enxerguei ela dentro de Tragaluz, quando lida de trás para frente”, explica Rameh.

Lagar também é o espaço em que uvas ou azeitonas são prensadas na produção, respectivamente, do vinho e do azeite. Esse é, justamente, o “fio condutor” do menu e da casa como um todo – que se inspira em regiões produtoras desses itens e reforça como Minas Gerais vem se destacando nesses setores.

O homus de grão-de-bico com azeite, zaatar, páprica e pão frito (R$ 59) e a berinjela espalmada com coalhada seca, menta, romã, tahine e pão árabe (R$ 45), por exemplo, fazem alusão ao Líbano (país que, além de tradição na produção de vinho e azeite, é berço da família de Rameh).

O clássico bacalhau à lagareiro (R$ 169), um dos grandes sucessos da casa, é uma herança portuguesa, enquanto o pão com tomate ralado, azeite, flor de sal e copa (R$ 59), se mostra uma versão do espanhol “pan tomaca”.

Dois públicos

Do Tragaluz para o Lagar, o sorvete de queijo com farofa de nozes e doce de leite também faz sucesso em BH

Victor Schwaner/Divulgação

O Lagar está, paradoxalmente, localizado na pequena cidade de Tiradentes, com pouco mais de 80 quilômetros quadrados, e no DiamondMall, movimentado shopping no Bairro Santo Agostinho, Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

Nesse sentido, Felipe destaca mudanças significativas no público de cada unidade. Enquanto em BH são muitos os que comem o menu executivo no dia a dia – e com mais pressa –, no interior as pessoas “vão para descansar, estão mais abertas a viver uma experiência mais longa”.

Apesar das diferenças, as duas casas funcionam bem com as suas particularidades, conforme explicam Rameh e Navarro. E é claro que, mesmo no shopping, o Lagar de BH consegue trazer um pouco da atmosfera de Tiradentes por meio de itens decorativos, como um lustre feito por um artesão local usando as mesas fitinhas que enfeitam cruzes nas portas da cidade histórica.

Anote a receita: filé ao molho de pimenta rosa com batatas coradas do Tragaluz

Filé com molho de pimenta rosa, brócolis e batatas coradas do Tragaluz

Victor Schwaner/Divulgação

Ingredientes:

  • 250g de filé-mignon bovino;
  • Sal a gosto;
  • Pimenta-do-reino a gosto;
  • Manteiga a gosto;
  • Brotos orgânicos para finalização;
  • 2 batatas-inglesas médias cozidas;
  • 5g de manteiga;
  • 5g de banha;
  • 2g de sal;
  • 2g de alecrim;
  • 2g de alho;
  • 20ml de creme de leite fresco;
  • 20g de cebola;
  • 1g de sal;
  • 5g de pimenta rosa;
  • 20ml de conhaque;
  • 20g de molho roti;
  • 5g de queijo parmesão;
  • 90g de brócolis.

Modo de fazer:

  • Tempere o filé-mignon com sal e pimenta-do-reino.
  • Em uma frigideira quente, adicione a manteiga e sele a carne até atingir o ponto desejado.
  • Finalize o filé com manteiga, regando constantemente para agregar sabor.
  • Corte as batatas já cozidas ao meio.
  • Em uma frigideira, aqueça a banha e a manteiga.
  • Adicione o alho e o alecrim, deixando perfumar.
  • Acrescente as batatas e salteie até dourar bem todos os lados.
  • Ajuste o sal e sirva imediatamente.
  • Para o molho, refogue a cebola finamente picada até ficar transparente.
  • Adicione a pimenta rosa e deixe liberar aroma.
  • Flambe com o conhaque.
  • Incorpore o creme de leite fresco.
  • Acrescente o molho roti, deixando reduzir levemente.
  • Finalize com parmesão ralado.
  • Ajuste o sal e mantenha em fogo baixo até atingir textura cremosa.
  • Para a montagem, disponha o filé no centro do prato, acrescente a batata e, se desejar, brócolis.
  • Regue a carne com o molho e finalize com brotos.

Serviço

Tragaluz (@tragaluztiradentes)
• Rua Direita, 52, Centro, Tiradentes
• (32) 3355-1424
• De domingo a quinta, das 19h às 23h; sexta, das 19h à 0h; sábado, das 12h30 às 15h e das 19h à 0h

Lagar Tragaluz

Tiradentes (@lagartiradentes)
• Rua Direita, 55, Centro
• (32) 99924-1035
• Quinta, das 19h às 23h; sexta e sábado, das 12h às 18h e das 19h à 0h; domingo, das 12h às 16h

Belo Horizonte (@lagarbh)
• Avenida Olegário Maciel, 1600, Lourdes
• (31) 99562-7137
• Todos os dias, das 12h às 23h

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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino

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