LAR DOCE COZINHA

Vale a pena abrir negócios de gastronomia em casa? O que dizem empresários

Veja os relatos de quem une trabalho e moradia e transforma a própria residência em espaços para receber os clientes

Publicidade
Carregando...

A comida mineira costuma ser associada ao ambiente caseiro, às mesas compartilhadas e à cozinha como espaço de convivência. Em Belo Horizonte e na região metropolitana, alguns empreendedores ampliam essa lógica e abrem as portas das próprias casas para o público.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


Quintais, garagens e salas são transformados em salão, que recebem clientes em horários definidos ou mediante reservas. O formato permite que empreendedores iniciem projetos gastronômicos em escala menor, mantendo controle sobre produção, atendimento e custos operacionais.


Segundo o analista de negócios do Sebrae Minas Renato Lana, esse modelo de negócio teve um ponto de crescimento: a pandemia, período marcado pelo isolamento social e aperto econômico. “Não é para todo mundo e exige que a pessoa saiba os prós e contras deste tipo de estratégia, incluindo a parte burocrática, como alvará de funcionamento, leis voltadas ao meio ambiente e a barulhos”, alerta.


Ao mesmo tempo, abrir a própria casa ao público atrai clientes que esperam, não só comida boa, mas uma nova e diferente experiência. “Com o aumento do consumo da cozinha afetiva, cresce também essa necessidade de conhecer o dono e quem está por trás dessa experiência”, explica.

Quintal com vista


A cafeteria Afeto surgiu durante a pandemia, quando Maria Luiza Alves, a Malu, e Pedro Cunha começaram a produzir caixas de café da manhã na cozinha do apartamento onde moravam. Um ano depois, a demanda crescente levou à busca por um espaço maior. O casal encontrou, então, uma casa no Bairro Santo Antônio, Região Centro-Sul de BH, para estruturar e ampliar a operação, além de receber os clientes presencialmente no quintal com vista para a cidade.

O restaurante Casa Azeite funciona no primeiro andar; em cima é a residência dos proprietários
O restaurante Casa Azeite funciona no primeiro andar; em cima é a residência dos proprietários Rafael Carrieri/Divulgação


“Em determinado momento, percebemos que precisávamos de mais espaço. Encontramos uma casa onde conseguimos manter a moradia e, ao mesmo tempo, criar uma cozinha maior”, conta.


Segundo Malu, trabalhar no mesmo endereço onde mora exige organização para equilibrar a rotina pessoal e profissional. “Nossa casa acabou se transformando em trabalho. Tem facilidades, como evitar deslocamentos e dois aluguéis com valores altos, mas também é complexo. A gente passa a maior parte do tempo aqui, então precisa ser um ambiente agradável para viver e trabalhar. Acredito que quem tem interesse precisa ser desgarrado de uma rotina organizada”, afirma.


A separação entre casa e empresa nem sempre é simples, e não só pela divisão física. Contas como água e energia são compartilhadas e os gastos precisam ser divididos por estimativa. “Até o financeiro pode se misturar. A gente faz uma proporção para separar os custos, mas não é algo totalmente simples.”


O cardápio da cafeteria muda duas vezes por ano. Entre os produtos mais recorrentes, estão o bolo de fubá (R$ 18), o sanduíche de mortadela, burrata e pistache (R$ 38) e os biscoitos amanteigados (R$ 38 e R$ 48, dependendo do sabor, entre eles chocolate, laranja e goiaba).


Projeto de vida


O restaurante Casa Azeite também nasce da história de um casal. Iolanda Silva e Philippe Borges tomaram a decisão de abrir o negócio em 2022, após a lua de mel, quando caiu a ficha de que o hábito de receber amigos poderia se tornar um projeto de vida.


No ano seguinte, eles encontraram um imóvel no Bairro Floresta, Região Leste de BH, que permitia combinar restaurante e moradia no mesmo espaço. Segundo a empresária, a análise racional dessa escolha foi feita depois.

'A gente passa a maior parte do tempo aqui, então precisa ser um ambiente agradável para viver e trabalhar', diz a fundadora da cafeteria Afeto, Maria Luiza Alves
'A gente passa a maior parte do tempo aqui, então precisa ser um ambiente agradável para viver e trabalhar', diz a fundadora da cafeteria Afeto, Maria Luiza Alves Magê Monteiro/Divulgação

“Hoje questionamos se, caso trabalhássemos em outro lugar, seria menos trabalho, mas a resposta é sempre não”, enfatiza. A divisão é clara: no primeiro andar funciona o restaurante e o segundo é a moradia do casal.


A estrutura do negócio foi planejada paralelamente à reforma do imóvel, que tinha uma história que o casal desconhecia. “Certo dia, vi um grupo de pessoas na frente da casa. O restaurante estava fechado e fui verificar.” Era um tour de arquitetos.


Foi nesse momento que eles descobriram que a casa era da década de 1930, projetada por Ângelo Murgel, responsável por projetos como: Cine Theatro Brasil, Hospital São Lucas e Brasil Palace Hotel. “Estamos buscando o tombamento. Durante as reformas, procuramos preservar elementos originais como janelas e pisos, mesmo que na época não sabíamos dessa informação”, destaca.

Vantagens logísticas


Para Iolanda, viver no mesmo imóvel onde funciona o restaurante traz vantagens logísticas, mas exige adaptação. “A demanda é grande, mas, ao mesmo tempo, estou perto de tudo. Posso fazer pausas e voltar para casa rapidamente. Para mim, essa dinâmica funciona bem.”


Ela ainda destaca que esse modelo é percebido pelos clientes, que notam uma atmosfera mais doméstica. “Eles veem minha gata na janela e minha cachorrinha. Além disso, as pessoas me abraçam quando vão embora. Acho que conseguimos transmitir uma sensação de conforto, como se elas estivessem na casa de um amigo.”


O cardápio inicial contou com consultoria do chef Pedro Melo e foi desenvolvido para trabalhar com o azeite como elo. Entre as opções, destacam-se entradas como guioza de cogumelos e legumes com molho teriyaki de tucupi (R$ 55) e acelga na brasa com creme de castanhas de caju, picles de semente de mostarda, picles de cebola e queijo grana dos Laura (R$ 36).


O arroz de pato com acelga, ovo perfeito e maionese de pimenta gochujang (R$ 89) é um dos mais queridos, assim como a sobremesa que leva o ingrediente ícone da casa: mousse de chocolate amargo, azeite de laranja, crocante de mel e flor de sal (R$ 35).


Controle da rotina


A historiadora, pesquisadora científica e mixologista molecular Marcela Azevedo desenvolveu na sua casa, em Brumadinho, a 40 minutos de BH, uma experiência gastronômica baseada em coquetelaria e história alimentar. A proposta surgiu a partir de pesquisas que ela realizava sobre o ciclo do ouro na região e sobre a produção de cachaça em Minas Gerais.

Ao levar a experiência da mixologia molecular para sua casa, Marcela Azevedo permite que as pessoas conheçam os bastidores das alquimias
Ao levar a experiência da mixologia molecular para sua casa, Marcela Azevedo permite que as pessoas conheçam os bastidores das alquimias Dani Braga/Divulgação


Foi durante a pandemia que o projeto atual tomou forma. “Na época, eu participava de eventos levando esses drinques que criava. Quando veio o isolamento, entendi que era a hora de criar mais receitas. Quando começou a flexibilização, pensei: ‘Tem espaço para as pessoas conhecerem os bastidores da alquimista’”, relembra.


Desde o início, as experiências se desenrolam na sua residência. “Abro a porta da minha casa e da minha vida.” Mas isso não é um problema para a mixologista, que enxerga vantagens de trabalhar em casa. Como o jantar só ocorre mediante reserva, ela consegue ter mais controle da própria rotina e disponibilidade. “Recebo de segunda a segunda, se puder”, diz.


Para Marcela, essa dinâmica faz com que os convidados se sintam na casa de uma amiga, tanto que eles passam pela cozinha, com panelas e utensílios que foram usados para a preparação do menu. “Eles até pedem para tirar foto e encostar e eu brinco: pode, só não some com nada que eu sei tudo que está aqui.” Além disso, ela mostra os bastidores de onde acontecem as “químicas”, com livros que chamam a atenção.


Cardápio surpresa


Os encontros são para grupos de até oito pessoas, podendo comportar mais, caso seja um evento especial. Segundo Marcela, o cardápio é revelado durante a degustação, ou seja, o cliente chega sem saber o que vai experimentar. “Claro que antes pergunto sobre restrições alimentares, se alguém é vegetariano ou tem alergias.” O jantar custa a partir de R$ 280 e dura cerca de quatro horas e meia.


“O objetivo é oferecer uma experiência gastronômica e turística. As pessoas não vêm apenas para consumir um prato ou um drinque, mas para entender a história dos ingredientes e da região”, afirma. A mixologista é focada na questão da sustentabilidade, por isso o cardápio segue a disponibilidade de ingredientes produzidos por agricultores locais.

Mesmo espaço, vários usos


No ano 2000, o Estado de Minas entrevistava uma das poucas chefs de cozinha de Minas Gerais, Cristiane da Silva, que, 17 anos depois, abriria o restaurante Quintal do Ouro, em Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.


O projeto começou em 2017, com investimento inicial de cerca de R$ 100. Na época, Cristiane preparava marmitas para um pequeno público e também mantinha uma colônia de férias no espaço da sua residência. Com o aumento da demanda, o quintal foi adaptado e, ao longo dos anos, transformou-se em um restaurante, que hoje tem capacidade para 100 pessoas. Cerca de 90% do público são turistas.

Com o aumento da demanda, Cristiane da Silva aproveitou a área do quintal e da garagem para expandir o seu restaurante
Com o aumento da demanda, Cristiane da Silva aproveitou a área do quintal e da garagem para expandir o seu restaurante Arquivo pessoal


A casa funciona como uma extensão da residência: as mesas ocupam o quintal e a rotina doméstica convive com a operação do restaurante. “A pessoa chega no quintal da nossa casa, onde vivemos nossa infância, e encontra um restaurante com vários itens ligados à nossa família”, afirma.


Segundo Cristiane, ela não trocaria por nada essa dinâmica, na qual pode entrar em casa, tomar um banho e descansar em um momento de baixo movimento. “É uma casa mesmo. Quando acaba o serviço, a gente estende as roupas no varal que fica no quintal. Depois tem que tirar”, conta.


A garagem, que também é uma extensão do restaurante, tem sua própria dinâmica. “Pela manhã, tiro o carro para ter mais espaço e, pela tarde, coloco de volta. Esses detalhes já fazem parte da rotina, sabe? Não me vejo fazendo outra coisa.”


O cardápio se baseia na culinária mineira e utiliza ingredientes associados à tradição local. Um dos pratos mais conhecidos é o Caminhos do Borba, que leva linguiça artesanal com jabuticaba. A fruta também aparece em preparações como caipirinha (R$ 25), sorvete (R$ 18) e até arroz com costelinha defumada (entre R$ 30 e R$ 60, dependendo do dia da semana).


A sobremesa de destaque se chama Bento Epaminondas (R$ 20) e leva goiabada e queijo quente acompanhado de sorvete à escolha do cliente. O nome não é em vão: Bento foi um homem negro que se tornou notório por sua luta abolicionista na região. Por conta disso, ficou conhecido como “advogado dos escravos”, embora atuasse sem formação. Ele foi promotor público, delegado e vereador de Sabará.


Além disso, a casa funciona com menu degustação que possibilita experimentar um pouco do cardápio do dia, tendo a opção que serve de duas a três pessoas (R$ 190) e a opção que serve de quatro a cinco (R$ 260). O restaurante também recebe grupos de até 15 pessoas para café colonial mediante reserva.


Com alma inquieta, Cristiane sempre participa de festivais, como a Festa da Jabuticaba, e agora prepara o lançamento do livro “Sabores do Quintal – receitas mineiras de alma sabarense”, que reúne receitas inspiradas na culinária local e na trajetória do estabelecimento.

Nova fase


A cafeteria e padaria Coisa de Vó, no Bairro Santa Amélia, Região da Pampulha, começou em 2020, na casa de Thaís e Gustavo Andaki.

Segundo ele, a rotina exigia jornadas longas. A produção começava por volta das seis da manhã e o atendimento se estendia até a noite. “Além do trabalho diário, havia entregas de fornecedores, controle de estoque e outras demandas dentro do mesmo espaço onde a gente morava e nem sempre no horário em que a cafeteria estava aberta.”

Com a chegada da filha, o casal decidiu separar residência e negócio. “Entendemos que seria melhor ter um espaço mais reservado para a família.” Os clientes sentem a falta dos donos integralmente no local, mas eles se dividem para que sempre um deles esteja presente.

Quer começar a empreender em casa? Veja as dicas do Sebrae:

  • Adeque o espaço seguindo o modelo de negócio;
  • Crie acesso para pessoas com deficiência;
  • Separe um banheiro para clientes;
  • Invista em medidas de segurança, como saídas de emergência e extintores;
  • Se for necessário, faça reformas do sistema hidráulico e elétrico;
  • Adeque a iluminação para o espaço comercial e o residencial;
  • Crie entradas independentes entre a casa e o negócio;
  • Respeite os horários para não misturar a hora de almoço com a papelada de trabalho.

Serviço

Afeto

  • Rua Santo Antônio do Monte, 495, Santo Antônio
  • (31) 99489-0147
  • De segunda a sexta, das 8h às 18h;
  • Sábado, das 8h às 14h;
  • Domingo; das 8h às 12h.
  • @caixa.afeto

Casa Azeite

  • Rua José Pedro Drumond, 56, Floresta
  • (31) 99248-5993
  • De terça a sexta, das 18h30 às 23h;
  • Sábado, das 16h30 às 23h.
  • @casa.azeite 

A Alquimista – Bistrô Secreto

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

  • Avenida São Francisco, 565, Córrego Ferreira – Brumadinho
  • (31) 98896-0701
  • Funcionamento mediante reserva
  • @eumarcela_azevedo

Quintal do Ouro

  • Rua do Carmo, 66, Centro – Sabará
  • (31) 99537-0444
  • De segunda a quinta, das 11h às 15h;
  • Sexta e domingo, das 11h às 16h;
  • Sábado, das 11h às 16h30.
  • @quintaldoourorota66

Tópicos relacionados:

bares casa gastronomia restaurantes

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay