Espetáculos na rua têm de tudo. Participações involuntárias, outras voluntárias mas completamente inconvenientes e condições climáticas nem sempre favoráveis. Os rapazes da companhia circense paulistana Irmãos Sabatino que o digam! Ao longo dos 18 anos de estrada, já precisaram lidar com cachorro correndo atrás dos integrantes, bêbado querendo participar a todo custo e chuva cancelando o espetáculo.


Neste sábado (1º/8) e domingo, eles voltam a se apresentar na rua. Desta vez, nas praças Floriano Peixoto (Santa Efigênia) e Aggeo Pio Sobrinho (Buritis), respectivamente. O espetáculo acrobático “VaiqueeuVoo”, da Cia. Irmãos Sabatino, integra a 24ª edição do Festival Mundial de Circo, cuja programação começa nesta sexta-feira e segue até 16 de agosto em diferentes praças, ruas e espaços culturais de Belo Horizonte.


O espetáculo dos Irmãos Sabatino é uma homenagem aos grandes aviadores da década de 1930. Tendo como base o período do pós-guerra, os acrobatas circenses se inspiraram nos pilotos de biplanos e monomotores sem função militar, que organizavam espécie de “circos aéreos” e viajavam de vilarejo em vilarejo para realizar apresentações.


Resgate fiel

Em “VaiqueeuVoo”, contudo, as manobras ousadas e arriscadas das aeronaves são simuladas pelos corpos dos próprios artistas. “Há um resgate visual fiel aos aviadores clássicos, com o uso de toucas de couro, óculos característicos, lenços, coletes e calças bufantes”, conta um dos criadores da companhia, André Sabatino. “No palco, também manipulamos aviõezinhos de forma coreográfica e teatral, utilizando técnicas próximas ao teatro de bonecos para estimular a ludicidade do público”, acrescenta.


A ideia do espetáculo surgiu a partir da especialização do grupo em acrobacias aéreas e do desejo de contar uma história que envolvesse adrenalina, voos e emoção. Para isso, os artistas lançam mão de estrutura cenográfica que permite movimentos em três níveis – solo, médio (com barras fixas) e alto (com quadrante e argolas ao voo simulando decolagens e voos rasantes). A técnica principal explorada é a báscula, uma espécie de gangorra acrobática que os artistas transformam esteticamente em um avião para realizar saltos mortais e piruetas.


Idealizado em 2012, “VaiqueeuVoo” já passou por Bélgica, Holanda e Argentina, sendo montado em circos de lona e também nas ruas.


Se o espaço público permite contrariedades, também traz ânimo aos artistas. “Quem está do outro lado da rua, passeando com o cachorro, consegue ver que está rolando um espetáculo. Isso se torna um chamariz e vai chegando cada vez mais gente”, afirma André.


Para ele, a apresentação funciona em 360 graus e permite que até quem não saiu de casa para assistir a um espetáculo seja atraído pela movimentação. “A gente nunca sabe se vai vir um cachorro ou se vai vir uma pessoa que de repente habita aquele ambiente. Tudo isso traz vida ao espetáculo”, ressalta.


Picadeiro moderno

É justamente a aproximação com o público que está no centro da proposta do 24º Festival Mundial de Circo. De acordo com a idealizadora e curadora Fernanda Vidigal, 90% da programação desta edição ocorre em ruas e praças. Pela primeira vez, o festival não terá uma lona própria.


“Este ano a gente quis colocar o festival literalmente na rua”, ela diz. A ideia é levar o circo para lugares em que o evento ainda teve pouca presença, incluindo bairros fora do circuito cultural tradicional, principalmente na periferia.


A mudança interfere também na curadoria. Em vez de concentrar a programação em um único espaço, como aconteceu em edições anteriores com a chamada Cidade do Circo, na Funarte, a organização buscou artistas e espetáculos acostumados a dialogar diretamente com quem está ao redor.


“Acho que é esse tipo de espetáculo em que o público faz parte dele que chama a atenção e desperta o interesse das pessoas. A participação pode ser voluntária ou até inesperada, mas os artistas escolhidos têm experiência suficiente para lidar com essa relação sem constranger quem prefere permanecer apenas como espectador”, afirma Fernanda.


Inspiração no cinema

Entre os destaques internacionais, está o espetáculo “Pss Pss”, da suíça Compagnia Baccalà, formado por Camilla Pessi e Simone Fassari. Inspirado em Chaplin, Buster Keaton e nas estrelas do cinema silencioso, a performance mescla comédia física, acrobacia e teatro, tendo recebido 16 prêmios internacionais.


Também da Europa chega “Embolic”, do espanhol Pau Palaus, um espetáculo de palhaçaria que praticamente dispensa as palavras. O palhaço trabalha a comunicação por meio do gesto, do olhar e da brincadeira. A escolha de Pau Palaus para se apresentar no festival ganha dimensão especial diante do trabalho desenvolvido pelo artista com a organização Contaminando Sorrisos, que leva apresentações a regiões atingidas por guerras e desastres naturais, entre elas o Oriente Médio.


Da Argentina vem Camila Basterra, com “Yo soy Américo”, personagem que percorre o universo dos bairros latino-americanos como vendedor de café. A partir de objetos cotidianos, o espetáculo combina palhaçaria, dança, parada de mãos e acrobacias de solo e aéreas.


Companhias brasileiras

O Brasil também ocupa papel central. O Grupo Trampulim apresenta “Casamento”, investigação cômica sobre a vida a dois que mistura circo, teatro, música e improvisação. A programação conta ainda com a estreia do Festival Interno de Escolas de Circo, reunindo professores e alunos de sete escolas de Belo Horizonte em uma mostra de variedades com acrobacia, técnicas aéreas, malabarismo, equilibrismo e palhaçaria.


Além da mostra, haverá o “Experimenta Circo”, atividade promovida pelas escolas circenses da cidade para que o público tenha contato gratuito com diferentes modalidades e oficinas voltadas à formação profissional.


“Se não tiver artista em Belo Horizonte, para que fazer um festival de circo na cidade?”, questiona Fernanda, ao comentar as atividades de fomento à formação artística.


Desafio do setor

A preocupação está ligada a um desafio maior, a dificuldade de financiamento da atividade. Embora o circo tenha avançado no reconhecimento institucional, ainda existe uma distância entre a relevância artística e cultural da linguagem e o acesso dos profissionais aos mecanismos de financiamento.


“A gente, geralmente, é o segmento que recebe menos recurso, o que menos ganha edital, o que menos está inscrito em leis de incentivo”, diz Fernanda. Parte do problema está na dificuldade de artistas e grupos em compreender e acessar os mecanismos de financiamento cultural.


Enquanto enfrenta essas questões, o Festival Mundial de Circo aposta no encontro direto com a cidade. Ao lado dos espetáculos e oficinas, a programação inclui intervenções como “Intimisterium”, de Ricardo Malerbi, e “MotoClown – Eu fui!”, dos palhaços Mulambo e Alfinete, além de mostra de cinema dedicada ao circo no Cine Santa Tereza. Entre os filmes em cartaz, “O palhaço” (2011), de Selton Mello.


E, se depender da experiência dos Irmãos Sabatino, o público pode se preparar também para a imprevisibilidade. Afinal de contas, é nesse território entre o risco e a surpresa que o circo encontra uma de suas formas mais antigas e, ao mesmo tempo, mais contemporâneas de existir. É diante de todo mundo que qualquer pessoa pode parar, olhar e, por alguns minutos, entrar na brincadeira.


PROGRAME-SE

• “Pss Pss”, da Compagnia Baccalà (Suíça)
Quando: Sexta (31/7) e sábado, às 20h; domingo, às 19h
Onde: Galpão Cine Horto (Rua Pitangui, 3.613, Horto)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada), no Sympla e na bilheteria

• “Casamento”, do Grupo Trampulim
Quando: Sexta (31/7) e sábado, às 20h; domingo, às 19h
Onde: Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro)
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada), no Sympla ou na bilheteria

• “MotoClown – Eu fui!”, com os palhaços Mulambo e Alfinete
Quando: Sábado (1°/8), às 13h30
Onde: Praça Duque de Caxias (Santa Tereza)
Entrada franca

 Festival Interno de Escolas de Circo
Quando: Sábado, às 15h30
Onde: Praça Duque de Caxias
Entrada franca

 Cine Circo – Mostra de Filmes
Quando: Sábado e domingo, às 16h30 e 19h
Onde: Cine Santa Tereza (Praça Duque de Caxias, 200, Santa Tereza)
Programação de sábado: 16h30 – “O que ela quiser”, de Pri Garcia, e “Lacuna”, de Rafael Protzner; 19h – “Mambembe”, de Fábio Meira.
Domingo: 16h30 – “Chaplin”, de Richard Attenborough; 19h – “O Palhaço”, de Selton Mello
Entrada franca

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24° FESTIVAL MUNDIAL DE CIRCO
Desta sexta (31/7) a 16 de agosto, em praças, ruas e espaços culturais de Belo Horizonte. Espetáculos em teatros têm ingressos a R$ 40 e R$ 20 (meia) e no Mercado de Origem Santa Tereza a R$ 20, à venda no Sympla. Programação completa no site do festival.

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