'Missa' musical celebra o legado de Lô Borges e do Clube da Esquina
Artistas, fãs e moradores de Santa Tereza se reúnem aos domingos no cruzamentos das ruas Paraisópolis e Divinópolis para cantar, tocar e mostrar sua arte
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Domingo é dia de missa, mas ninguém precisa confessar. Nem rezar. Sem palco e sem a garantia de que realmente vai acontecer, músicos se reúnem em domingos aleatórios no cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, em Santa Tereza, na Região Leste de Belo Horizonte. Batizado como “Missa”, o encontro transforma o berço do Clube da Esquina em comunhão de artistas, fãs, curiosos e moradores do bairro.
O anúncio ocorre poucos dias antes, no Instagram (perfil Na Esquina do Clube). Mas ninguém sabe exatamente quem vai cantar naquela “Missa”.
A última celebração musical, em 17 de maio, contou com os mineiros Wagner Tiso, Tadeu Franco e Henrique Portugal, o carioca George Israel (Kid Abelha) e o cantor sul-mato-grossensse Matu Miranda.
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“A galera aparece do nada”, resume o compositor Gabriel Guedes, primogênito de Beto Guedes. Os encontros começaram em 2013, inclusive com participação de Lô Borges, que morreu aos 73 anos, no ano passado. Foi graças a Lô que o cruzamento daquelas ruas batizou o famoso álbum duplo de 1972 e o movimento musical liderado por Milton Nascimento.
O adolescente Lô e amigos se reuniam ali, nos anos 1960/1970. Em novembro, quando ele se foi, artistas fizeram, naquela esquina, homenagens acompanhadas por verdadeiras multidões. Por alguns dias, permaneceu no local uma espécie de altar, com velas e flores. Agora, as canções do Clube tocam o dia todo em caixas de som. Desde então, as “Missas” seguem atraindo artistas e fãs.
A conexão entre a geração atual e o Clube da Esquina passa por um endereço importante: o Godofrêdo. Criado por Gabriel Guedes e batizado em homenagem ao avô dele, pai de Beto Guedes, o bar funcionava onde está hoje o Bar e Museu Clube da Esquina, na Rua Paraisópolis.
“Quando acabavam os shows na cidade, virou uma coisa... As pessoas começaram a ir ao Godofrêdo para o 'pós'”, diz Gabriel. Boa parte da turma da “Missa” se conheceu ali.
Barbacena, Caratinga e Abre Campo
Mário Wamser chegou de Barbacena para estudar música em BH e encontrou no bar a porta de entrada para a cena artística da cidade. Outro frequentador, Dan Oliveira, mais tarde trabalhou com Lô Borges. Flávio Boca veio de Caratinga.
Felipe Bedetti saiu de Abre Campo para também estudar música em Belo Horizonte. Encontrou ali parceiros ligados ao universo do Clube.
A jovem cantora Bárbara Barcellos começou a frequentar Santa Tereza aos 16 anos. No Godofrêdo, conheceu Milton Nascimento e, anos depois, faria turnê com Bituca.
A cantora e compositora Júlia Guedes (filha de Gabriel, neta de Beto e bisneta de Godofredo) é destaque da nova cena autoral de BH.
Lô Borges, Toninho Horta, Wagner Tiso e Milton Nascimento circulavam por Santa Tereza, convivendo naturalmente com os mais jovens.
“A música do Clube da Esquina não se aprende no Cifra Club. Você precisa beber direto da fonte”, resume o pianista Marcelo Dande.
Além de escutar discos e estudar partituras, os integrantes da “Missa” aprenderam ouvindo histórias, assistindo a ensaios e conversando com os veteranos. Quando o Godofrêdo fechou, os encontros prosseguiram em outros espaços, como o Clubinho, criado por Rai Medrado. Mais tarde, voltaram para a rua.
“Esta esquina tem uma espécie de magnetismo”, diz Flávio Boca, que mora há 16 anos na Rua Divinópolis e “fiel” assíduo dos encontros. A ideia não é reproduzir o passado, mas continuar criando. Novos músicos chegam, amizades se formam e parcerias surgem sob inspiração do Clube.
“O que valeu na esquina sempre foi a amizade”, resume Marilton, o primogênito dos Borges. Foi ele quem apresentou Milton Nascimento aos irmãos Lô, Márcio e à sua família, na década de 1960. “Então, continua valendo. A esquina que ficou famosa no mundo inteiro dificilmente vai morrer”, garante.
Espaço aberto
O prazer de tocar na esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis está na relação direta com o público. Músicos e espectadores ocupam o mesmo espaço, sem palco e hierarquia. Flávio Boca chama essa lógica de “simétrica paridade”. Um termina, passa o instrumento para o outro e volta para a plateia. “Quem quiser tocar, vem”, resume Marcelo Dande.
Para eles, esse formato ajuda a preservar o caráter espontâneo dos encontros da “Missa”. A proposta é oferecer um espaço aberto à convivência, à música e à conexão de diferentes gerações.
“É movimento político também, a esquina é pública. É uma manifestação popular”, diz a cantora e compositora Júlia Guedes.
“Rapunzel”
A relação com a vizinhança reforça a convicção de Júlia. Embora haja reclamações pontuais, os músicos afirmam que a recepção dos moradores é positiva.
Daniela Arruda Felício até ganhou o apelido de “Rapunzel”, a dona das tranças nos contos de fada. Da varanda desta vizinha saem os fios para ligar caixas de som e instrumentos na eletricidade.
Certa época, um morador costumava chamar a polícia quando havia música na rua. Para evitar que os encontros acabassem, Daniela e o marido, Roberto, abriram a própria casa para que eles tocassem na varanda.
Nome na placa
João Salomão Elian Neto, o Joãozinho, mora na Rua Paraisópolis desde criança. Tem 77 anos e viu de perto o surgimento do Clube da Esquina.
“Meu nome está lá na placa (alusiva ao movimento musical), porque a gente ficava na esquina trocando ideia”, conta.
Hoje, ele prefere acompanhar a “Missa” de casa. “Não vou lá porque não precisa. Daqui, já gosto”, comenta, afirmando que a movimentação faz bem para o Bairro de Santa Tereza.
Flávio Boca gosta de repetir uma história contada pela matriarca dos Borges. Durante homenagem ao Clube da Esquina, dona Maricota relembrou as queixas de moradoras sobre os meninos reunidos na rua. Depois de citar o fato de a música deles cruzar o oceano, deu o troco: enquanto algumas vizinhas reclamavam, os filhos dela conquistavam o mundo com sua arte.
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