Riviera Maya, México – Durante muito tempo, houve no Brasil (mais) uma brincadeira em relação à Argentina: que só havia um ator naquele país. Ricardo Darín, de 69 anos, segue como o mais conhecido e respeitado intérprete argentino. No entanto, faz mais de uma década que ele não anda só. Aos 71, Guillermo Francella é outro nome popular também internacionalmente.


Neste sábado (9/5), Francella será homenageado nos Prêmios Platino Xcaret com o Platino de Honra pelo conjunto da obra – troféu que Darín recebeu uma década atrás. Em sua 13ª edição, a premiação dedicada à produção audiovisual ibero-americana será realizada no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret. O Canal Brasil realiza a transmissão, a partir das 21h45.


Mesmo que seja bastante conhecido pelas comédias – a recente série “Meu querido zelador”, cuja quarta temporada estreou há pouco no Disney+, está com a quinta confirmada –, Francella tem papéis dramáticos muito marcantes. O sombrio Arquimedes Puccio de “O clã” é capaz de gerar pesadelos ainda hoje, uma década depois do lançamento do filme de Pablo Trapero.


Francella também está na disputa na categoria Melhor Interpretação Masculina em Longa por “Homo Argentum”, de Mariano Cohn e Gastón Duprat, filme argentino de maior no país vizinho desde a pandemia. Wagner Moura, por “O agente secreto”, é um de seus concorrentes – o baiano, que não veio para a premiação, já levou a melhor no voto popular, anunciado previamente.


Muito jovem, Francella trabalhou como jornalista. “A única coisa que eu gostava de fazer era teatro. Meu pai me apoiou, mas disse: ‘Dê um jeito de ganhar a vida’. Eu senti que o jornalismo, a imprensa falada, tinha algo de atuação.”


A carreira jornalística, ainda bem, não foi longe. Francella foi demitido da revista em que trabalhava, conforme contou a jornalistas na manhã de ontem. Quem intermediou a conversa foi Axel Kuschevatzky, um dos produtores de “O segredo dos seus olhos”.


“Tire o bigode!”

O célebre longa de Juan José Campanella deu, em 2010, o segundo Oscar de Melhor Filme Internacional à Argentina – não por acaso, foi a única vez que Darín e Francella atuaram juntos no cinema. “Era um personagem que eu nunca tinha interpretado antes, um alcoólatra. Estávamos (ele e Campanella) com um desafio para a construção, até que o diretor me disse: ‘Tire o bigode!”.


Para o ator, “seja com humor leve, para crianças, ou algo mais profundo”, o que importa é não perder a conexão com o público. “Todos os meus personagens têm a ver com a cultura popular.”


Uma história de quase 20 anos atrás ressurgiu na entrevista coletiva concedida pelo ator. Francella protagonizava a sitcom “Casados com filhos” (2005/2006) quando foi chamado a participar de um filme mexicano, “Rudo e Cursi” (2008). Na história, Gael García Bernal e Diego Luna vivem dois irmãos rivais no futebol. O filme de Carlos Cuarón tem Alfonso Cuarón, Alejandro Iñárritu e Guillermo Del Toro como produtores.


Só que Francella deveria fazer um teste. “Você aceitou algo que, para alguém na sua posição, poderia ter sido um retrocesso”, lembrou Kuschevatzky. “Na época, audições não eram comuns na Argentina, e muito menos de alguém conhecido. Me disseram que queriam me conhecer de uma maneira diferente e concordei. Adorei, pois tinha me esquecido como eram os testes, aquele nervosismo que você sente quando está sujeito à aprovação de alguém.”


Questionando sobre seu método de interpretação, ele disse que precisa “entrar na pele de cada personagem” e não se sentir forçado ao que tem que expressar. Para o ator, independentemente de métodos ou estudos, atuação é algo inato. “Não vai ser uma universidade que vai te tornar engraçado, não é?”


Brasil na disputa

Em 2025, o Brasil foi o grande vencedor dos Prêmios Platino, em Madri (o evento intercala suas edições entre Espanha e México). “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, recebeu os prêmios de Melhor Filme, Direção e Atriz. “O agente secreto” chega neste sábado com força também para fazer bonito. O cineasta Kleber Mendonça Filho e a produtora Emilie Lesclaux participam do evento.


Nesta noite, o longa brasileiro está na disputa de Melhor Filme Ibero-Americano, Direção, Roteiro e Ator. Nesta edição, a maior do Platino, são 35 categorias para cinema e TV. Vinte e uma delas foram anunciadas previamente – a entrega desses troféus abriu, anteontem (7/5), a agenda oficial do evento.


A produção pernambucana recebeu três Platino técnicos: Música (Tomaz Alves Souza e Mateus Alves), Montagem (Eduardo Serrano e Matheus Farias) e Direção de Arte (Thales Junqueira). Mateus, que está no México com o irmão, Tomaz, falou sobre a repercussão do filme.


“Nosso trabalho é tão detalhista que acompanhamos tudo, divulgação e distribuição, meio de longe. Ao mesmo tempo, percebemos como o filme alcançou tanta gente. E acho que ele terá uma trajetória longa, que vai para os próximos anos”, disse o compositor.


Já o montador Eduardo Serrano afirmou que como latino-americanos, os profissionais “devem propor perspectivas diferentes do mundo. Acho que ‘O agente secreto’ tenha tocado a todos a respeito das controversas experiências políticas que tivemos nas últimas décadas”. 

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*A repórter viajou a convite dos Prêmios Platino Xcaret

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