Marcelo Drummond traz a Belo Horizonte o ‘quase-solo’ ‘Paranoia’
Ator e diretor do Teatro Oficina apresenta desta sexta-feira (8/5) a domingo, na capital mineira, o espetáculo adaptado do livro homônimo de Roberto Piva
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Quase é a palavra que define o espetáculo “Paranoia”, baseado no livro homônimo do poeta Roberto Piva (1937-2010), que o ator e diretor Marcelo Drummond, do Teatro Oficina, traz a Belo Horizonte neste fim de semana, com sessões de desta sexta (8/5) a domingo, no Teatro de Bolso do Sesc Palladium.
Por um lado, é quase um show, em que ele lê os poemas com uma trilha executada ao vivo. Por outro, é quase um solo, já que, além da companhia de uma pianista, há uma equipe que confere um caráter multimídia à montagem.
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As intervenções caligráficas, a direção de arte e o figurino de Sonia Ushiyama somados à intervenção de videoarte de Cecília Lucchesi e Igor Marotti compõem a cena, de forma que o espetáculo não se configura como um monólogo tradicional.
“Paranoia” destoa em sua forma do restante dos trabalhos do Teatro Oficina, grupo criado e conduzido por Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023). Marcelo Drummond conta que concebeu o espetáculo em 2011, nos intervalos entre uma peça e outra da companhia paulistana.
Segundo ele, o período entre 2011 e 2016, quando a montagem ganhou uma primeira temporada no próprio Teatro Oficina, foi de ajustes e adequações. O ator e diretor destaca que, como o livro de Piva fala muito de São Paulo – trazendo à tona seu subterrâneo homoerótico –, a montagem nunca saiu do estado. A única vez que ele apresentou “Paranoia” fora foi há aproximadamente de três anos, em Portugal, para onde viajou com a montagem de “Esperando Godot” do Oficina.
CIDADE RECEPTIVA
Belo Horizonte é, desta forma, a primeira cidade brasileira fora de São Paulo a receber a montagem. “Depois que apresentei em Portugal, vi que a peça pode comunicar com outros públicos além do paulista. Me deu vontade de mostrar em outros lugares e me apareceu essa possibilidade em Belo Horizonte, uma cidade muito receptiva, com uma cena teatral de que gosto muito”, diz. Atualmente com 64 anos, ele conta que tomou contato com o livro “Paranoia” quando tinha pouco mais de 20, por indicação do próprio autor.
Piva era muito amigo de Zé Celso, com quem Drummond foi casado por 37 anos, até a morte do criador do Oficina, em 2023, vítima de um incêndio no apartamento dos dois. “Quando cheguei na casa do Zé, há 40 anos, encantado com a possibilidade de fazer teatro, que eu nunca tinha feito, ele estava conversando com o Piva, que o visitava muito, ligava muito, praticamente todos os dias. Ele falou para eu ler e eu li, gostei, achei bonito, mas só fui sacar mesmo aquilo em 2010”, comenta.
Ele conta que, apesar de ser um livro de poemas, percebeu, na releitura de “Paranoia”, que havia ali um “personagem” e que, portanto, seria possível fazer uma adaptação para o teatro. “Quando percebi isso, falei com o Zé, que viajou pouco tempo depois. O Piva ficou doente e ele me ligou dizendo para ir visitá-lo, para ver se estava bem. Quando cheguei ao hospital em que estava internado, ele falou que o Zé tinha contado que eu ia montar o 'Paranóia', mas eu não tinha resolvido nada, isso era coisa da cabeça do Zé”, recorda.
EMBRIÃO DO PROJETO
Drummond diz que, diante da expectativa de ambos, resolveu levar adiante o projeto. “Eu precisava fazer, senão ia ficar uma coisa pendurada na vida, uma energia rondando, porque o Piva morreu logo depois, e aí comecei a trabalhar, sem muitas pretensões. Fui me apaixonando por aqueles poemas, que são maravilhosos”, diz. As primeiras apresentações de “Paranoia” aconteceram em espaços alternativos, como bares ou bibliotecas, até que em 2016 o espetáculo fez sua primeira temporada no Oficina.
Foi aí que o espetáculo virou um “quase-solo”, segundo o ator e diretor. “Eu queria fazer bem simples, só eu e um músico, mas aí entrou uma equipe cuidando do visual, do vídeo, e virou uma coisa cheia de intervenções. O Oficina é foda, qualquer coisa que a gente faz, vem um monte de gente fazer junto, aí tudo cresce”, diz.
Ele pontua que, ainda assim, “Paranoia” é “um Oficina em sua menor dimensão”, que não se destina a grandes públicos – daí a adequação ao Teatro de Bolso do Sesc Palladium, que comporta 82 pessoas.
Segundo o ator e diretor, o espetáculo é um lugar de descanso, de onde ele pode olhar sua companhia “de fora”, ainda que mantendo uma interpretação clássica do Oficina, mais aberta, jogando para o público.
“Piva escreveu 'Paranóia' muito jovem, com 23 anos, sob inspiração da geração beatnik, então tem um lado pop – não no sentido de popular, mas da pop art, quer dizer, não é uma coisa que comunica com a multidão, como são os trabalhos do Oficina. Sou eu interpretando poemas com uma trilha ao vivo”, pontua.
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“PARANOIA”
Espetáculo com Marcelo Drummond, nesta sexta-feira (8/5), às 20h, sábado, às 18h e às 20h, e domingo, às 19h, no Teatro de Bolso do Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1.046, Centro). Ingressos a R$ 80 e R$ 40 (meia), à venda pela plataforma Sympla e na bilheteria.