‘Eclipse’ terá sessão comentada em Belo Horizonte
Atriz e diretora Djin Sganzerla participará de sessão seguida de debate de seu segundo longa-metragem, na próxima quinta-feira (14/5)
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O desejo da atriz e diretora Djin Sganzerla de mergulhar no universo feminino, que gerou seu primeiro longa, “Mulher oceano” (2020), foi também o que a moveu a realizar o segundo, “Eclipse”, que acaba de ser lançado.
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Os dados alarmantes sobre o recrudescimento da misoginia deram o direcionamento para o filme, que é dirigido e protagonizado por Djin. Ela estará em Belo Horizonte na próxima quinta-feira (14/5), para uma sessão comentada do filme, no cinema do Centro Cultural Unimed-BH Minas.
A história focaliza a astrônoma Cleo (Djin Sganzerla), grávida e emocionalmente fragilizada, que é surpreendida pela chegada de Nalu (Lian Gaia) sua meia-irmã de origem indígena. O encontro entre as duas destrava memórias perturbadoras e expõe camadas ocultas de relações abusivas, no passado, referentes ao pai, e no presente, na figura de Tony (Sérgio Guizé), marido de Cleo.
Nas palavras da diretora, “Eclipse” é um thriller que aborda a violência contra a mulher, ancestralidade, intuição e resistência.
Filha de Rogério Sganzerla (1946-2004) e de Helena Ignez, dois nomes centrais no cinema brasileiro, ela conta que uma notícia que chegou ao seu conhecimento e ao da corroteirista, Vana Medeiros, deu o norte para a história: uma mulher norte-americana que aparentemente tinha um ótimo relacionamento com o marido, um policial, descobre acidentalmente que ele, em uma comunidade on-line da machosfera, compartilhava o plano de matá-la e esquartejá-la.
Discursos de ódio
“Essa mulher se separou, entrou na Justiça, mas perdeu a causa, pelo entendimento de que são espaços de livre expressão. Isso me chamou muito a atenção. Até que ponto se pode destilar ódio contra as mulheres nesses ambientes?”, afirma.
“Eu não conhecia os 'chans' (fóruns anônimos frequentemente marcados por discursos extremistas, vazamento de fotos íntimas e ataques coordenados contra mulheres), mas fui me deparando com esse universo e comecei a escrever com a Vana", conta Djin.
A diretora diz que, em paralelo, tinha vontade de falar de duas mulheres, duas irmãs que, juntas, representassem a força feminina. “Eu queria falar da tecnologia, dos 'red pills', da 'deepweb', mas queria trazer, também, a questão da sororidade e da ancestralidade, na figura de uma personagem de origem indígena, uma mulher poderosa, misteriosa, que tem capacidade grande de lidar com a própria dor e que você não decifra completamente”, comenta. Ela pontua que Cleo é um contraponto de Nalu e, ao mesmo tempo, um complemento.
Djin classifica sua personagem como uma mulher branca, ligada à ciência, uma excelente profissional, que está prestes a lançar um livro, inteligente, mas que não é capaz de perceber sutilezas de seu cotidiano.
“Ela está feliz, grávida de cinco meses, casada com um marido amoroso, mas será que é isso mesmo? Fui me apaixonando por essas possibilidades de falar do feminino, da ancestralidade e da tentativa de libertação de um mundo em que a misoginia está tão disseminada, é tão presente”, comenta.
Filme de gênero
Um clima opressor, de tensão, de ameaça que ronda, muito característico dos filmes de suspense ou terror, está presente todo o tempo em “Eclipse”. Djin diz que fez o uso intencional de elementos do gênero para provocar o “batimento cardíaco acelerado” no espectador, só que a serviço de um bem maior, que é chamar a atenção para o que está sendo contato e instigar a reflexão.
Ela diz que seria diferente fazer, sobre os mesmos temas, um documentário ou um filme de caráter mais jornalístico. “São questões tão presentes na mídia que, às vezes, as pessoas se distanciam em vez de se tocarem. Tem uma parcela da população que precisa ser envolvida para ser levada à reflexão, e a ficção – esse gênero, em especial – me permite isso, pegar o público pela mão e ir espiralando os caminhos", afirma.
Durante as filmagens, a atriz e diretora foi se dando conta do tanto de casos de abusos contra meninas de uma estrutura social mais frágil. “Isso normalmente parte de homens que têm acesso a tudo, mas eles precisam do não consentimento, do estupro”, diz.
Por se tratar de um filme de gênero, realizar “Eclipse” foi mais desafiador, sobretudo na escrita do roteiro, do que “Mulher oceano”, que, conforme ela diz, é mais livre. Os dois, contudo, têm em comum o mergulho no feminino.
“Outra coisa que compartilham é que sempre busquei deixar um espaço livre para o espectador, para que, de alguma forma, ele seja cocriador da história, possa se imaginar na tela. Nem todos os diálogos estão impressos, existe essa lacuna em que a reflexão pode caber”, ressalta.
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“ECLIPSE”
(Brasil, 2026, 108 min.). Direção: Djin Sganzerla. Com Djin Sganzerla, Sergio Guizé, Lian Gaia, Selma Egrei, Helena Ignez e Luís Melo. Sessões no Centro Cultural Unimed-BH Minas, na próxima quarta-feira (13/5), às 20h30, e na quinta-feira, às 19h, seguida de debate com a diretora e mediação de Clarissa Campolina.