Segundo dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), até o final de 2024 o Brasil contava com cerca de 5,9 milhões de pessoas trabalhadoras domésticas, sendo 91,9% mulheres. Dessas, 69% são negras. No campo dos direitos, 76,4% não têm carteira assinada e 65,7% não têm contribuição previdenciária.
No documentário “Aqui não entra luz”, em cartaz em Belo Horizonte, a cineasta Karol Maia retrata parte da trajetória de cinco mulheres trabalhadoras domésticas: Rosarinha, de Minas Gerais; Cris, do Rio de Janeiro; Mãe Flor, do Maranhão; Marcelina, da Bahia, e Miriam, de São Paulo – mãe da diretora.
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Nesta sexta-feira (8/5), haverá sessão especial do filme no UNA Cine Belas Artes, com presença da diretora, da entrevistada Rosarinha e de Padre Mauro, curador do Museu Muquifo, com mediação da professora e pesquisadora Tatiana Carvalho.
O documentário leva em conta estudos sobre a arquitetura dos quartos de empregada, vistos como uma adaptação urbana das senzalas e casas grandes. “Fizemos uma pesquisa voltada para os quatro estados que mais receberam escravidão no Brasil – Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A ideia era entender de que modo a morada da população escravizada e dos escravocratas aconteciam nesses lugares e entender como a arquitetura moderna se adaptou a essas dinâmicas escravagistas”, explica Karol.
PESQUISA
Segundo a diretora, o pensamento inicial era de que o estudo concentrasse a maior parte do documentário. Porém, durante o processo, os relatos das trabalhadoras receberam mais destaque. Como deveriam. Rosarinha, Cris, Mãe Flor, Marcelina e Miriam têm histórias diferentes, mas que se conectam de alguma forma. Trajetórias de sofrimento e dificuldade são narradas por elas. Entretanto, essas mulheres conseguiram superar as dificuldades e ter orgulho de suas vidas.
Rosarinha divide com a filha noites de jogos de cartas e mesas postas com fartura. Cris comemora o aniversário de uma de suas filhas com tudo o que tem direito: bolo, guloseimas, lanches e brinquedos. Mãe Flor mostra com admiração seus acessórios e vestidos comprados durante os anos, inspirada pela família, descrita por ela como “pretos que gostavam de luxo”. Marcelina orquestrou e fez acontecer a construção de um condomínio de apartamentos, que ela gerencia e onde vive. Ao lado do marido, Miriam criou uma filha que viria a dirigir um documentário inspirado por sua trajetória.
NEGATIVA DA MÃE
Quando as gravações começaram, Karol Maia não havia conseguido a permissão da mãe para integrar o documentário. “Fui gravá-las com a negativa da minha mãe. Eu estava entrando em contato com uma parte muito íntima da vida delas, enquanto diretora é muito emocionante quando vou filmar alguém e essa pessoa confia em mim a ponto de falar coisas terríveis que aconteceram com ela”, diz.
“Com a situação com minha mãe, tudo ficou mais à flor da pele. Eu estava de fato procurando um pouco da minha mãe em cada uma delas e acho que, de alguma forma elas me acolheram enquanto filha”, conta.
Condições precárias no trabalho doméstico são uma realidade no Brasil. Em muitos casos, nem mesmo o salário é pago às trabalhadoras. Além disso, o assédio moral e físico se faz presente em muitas residências. No documentário, os quartinhos minúsculos, muitas vezes com uma cama e uma cômoda, são comparados com as residências enormes dos empregadores.
“Nunca cheguei nem perto de ser trabalhadora doméstica. Escutar cada uma delas me fez entrar em contato com o Brasil que é bastante devastador. Às vezes o Brasil consegue ser bem cruel com a população, especialmente com a população negra e feminina. Ainda assim, elas me ensinaram uma forma de chegar até o que era dignidade para elas”, afirma a cineasta.
Para Karol Maia, a cena em que a equipe está fazendo uma refeição ao lado de Rosarinha é um dos principais momentos do filme. “Lutei muito por esse momento. Para mim, é um dos mais bonitos do filme. Porque depois a Rosarinha fala que chegou a receber comida como pagamento. E ali, como uma boa mineira que não deixa ninguém passar fome, ela fez uma comida maravilhosa, com muita fartura e muita prosperidade”, comenta.
“É uma cena simbólica ao se pensar na construção da dignidade, da autopreservação, do autorespeito. São histórias muito duras, mas, ainda assim, cada uma delas ensina de alguma forma como conseguiram se manter lúcidas.”
“AQUI NÃO ENTRA LUZ”
(Brasil, 2025, 80 min.) Direção: Karol Maia. Documentário. Em cartaz no UNA Cine Belas Artes (Sala 3, 17h). Nesta sexta-feira (8/5), sessão especial na sala 2, às 20h10, com bate- papo com a diretora e convidados, após a exibição. No sábado (9/5), sessão única, às 20h30, no Cinema do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes).
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*Estagiária sob supervisão da editora Silvana Arantes
