Autor diz que escreve sobre Trump 'num esforço de compreender a maldade'
José Eduardo Agualusa fala sobre o novo livro, ‘Tudo sobre Deus’, explica por que faz do presidente dos EUA tema de crônica e conta o que aprendeu com Mia Couto
Hoje radicado em Moçambique, José Eduardo Agualusa prepara roteiro a quatro mãos com o escritor moçambicano Mia Couto crédito: Divulgação
José Eduardo Agualusa chega a Minas Gerais para encontros com leitores em três cidades. Nos dias 15/5 e 16/5, estará no Fliaraxá na condição de escritor homenageado.
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“No romance ‘Tudo sobre Deus’, José Eduardo Agualusa transforma o deserto do Namibe em uma metáfora poética e fantástica.
A trajetória do protagonista dialoga diretamente com o tema de 2026 do Fliaraxá, ‘Meu Lugar no Mundo’, inspirado no pensamento de Milton Santos: é o lugar se metamorfoseando em experiência humana, afetiva e cultural.
Na obra de Agualusa, o território é sinônimo de identidade, travessia e reinvenção”, justifica o curador do Fliaraxá, Afonso Borges.
No dia 18/5, Agualusa participa do projeto Sempre um Papo em Paracatu. Dois dias depois, ele estará com o escritor Alexandre Coimbra Amaral na edição especial do projeto em Belo Horizonte no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE), às 19h30, com entrada franca.
A seguir, leia a entrevista de José Eduardo Agualusa ao Estado de Minas.
Como surge “Tudo sobre Deus”? O livro também nasce do que você já chamou de “grande ânsia interior, bicho aflito dentro de nós”? Sim, sem dúvida. Este livro surgiu de um estado de enorme inquietação interior, depois que adoeci, em 2025, e tive de fazer uma série de exames.
Uma tarde, achei-me dentro de um tubo de ressonância magnética, e para enfrentar a angústia, comecei a escrever uma história em que eu mesmo era o narrador, o protagonista. Foi o início deste livro.
Mais tarde, encontrei outro protagonista. Escrevi-o muito rapidamente, com grande paixão, e isso ajudou-me a superar a sombra daqueles dias.
Posso não ter encontrado respostas, mas a euforia da escrita, só por si, já me ajudou. Queria escrever um livro que respirasse, que duvidasse. Não um tratado sobre Deus, mas um tratado sobre o espanto diante da ideia de Deus.
Por que dedica o romance aos filhos? Eles o mudaram também como escritor? Os filhos nos mudam todos os dias — como pessoas. Primeiro, eles nos amarram ao presente. O nosso tempo passa a ser o tempo deles. Eles nos ajudam a ver o mundo. Então, também me mudaram como escritor.
O livro traz uma passagem do protagonista em festival literário que termina em agressão. É inspirada em fatos? Já passou por situações desconcertantes como essa em eventos semelhantes? Não vivi nada idêntico, felizmente. Vivi, sim, momentos de tensão. Os festivais literários são, quase sempre pequenos teatros do mundo.
Há vaidades, ressentimentos, equívocos. A cena no livro exagera isso, levando ao limite uma violência que tende a ser mais teatralizada do que explícita. Por vezes, acontece um Vargas Llosa dar um soco no rosto de um Gabriel García Márquez. Felizmente, é raro.
“Escutar é reconhecer o outro, na sua individualidade ou dignidade.” A leitura também é um ato de escuta dos outros? Nos dias de hoje, estamos falando mais do que escutando? Sim, sem dúvida, a leitura é um ato de escuta. Um exercício de alteridade. Ao abrirmos um livro, aceitamos ser outros.
E, sim, creio que vivemos num tempo apressado, em que todo o mundo quer falar e poucos estão dispostos a escutar. Poucos estão dispostos a ser outros.
“Na minha idade, já não posso aspirar a tremendos espantos. Envelhecer é perder a capacidade de se espantar.” Quando o espanto ainda o visita? Lembra da última vez que isso aconteceu? Felizmente, ainda me espanto. Usufruo, quase todos os dias, de pequenas cintilações. Passei os últimos dias na companhia de um grande amigo, Mia Couto, escrevendo um roteiro a quatro mãos, e espantamo-nos juntos, várias vezes, por exemplo com a beleza de um gato selvagem. Espantos bons.
O livro traz uma citação ao “supremo horror” de Donald Trump e o presidente dos EUA é assunto recorrente em suas crônicas em O Globo. O que mais o perturba em Trump a ponto de levá-lo para a sua ficção? Perturba-me a banalização do absurdo. A facilidade com que a linguagem pode ser usada para distorcer o real.
No coração de Tianjin, um megalômano monumento aos livros e inaugurado no fim de 2017 atrai fãs da literatura e da arquitetura. A Biblioteca de Tianjin se tornou um espetáculo, com um imenso “olho” iluminado no átrio central e que observa e acolhe visitantes. Um ícone global que une cultura, design e imaginação.
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Ao atravessar suas portas, a sensação é de entrar em outro mundo. Uma “caverna de livros” com cinco andares e 33.700 metros quadrados revelados em curvas e cobertas de obras, do chão ao teto. Mas não engane: alguns livros são falsos, meramente decorativos.
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Contudo, cada detalhe reforça a monumentalidade de um espaço dedicado às ideias e pensado para ser funcional e cenográfico. Nele, o visitante se sente pequeno diante da grandeza do saber. A biblioteca, aliás, abriu em outubro de 2017 e logo na primeira semana de funcionamento, foi visitada por aproximadamente dez mil pessoas por dia, sendo responsável por filas gigantescas do lado de fora.
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A luz natural invade o átrio e reflete nas superfícies brancas, construindo um ambiente que parece suspenso entre sonho e realidade. O “olho” central funciona como farol de cultura e encontro, guiando passos curiosos rumo às estantes onduladas. À noite, a iluminação deste templo futurista do conhecimento cria atmosfera quase cósmica.
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Suas estantes vão além das prateleiras comuns: têm ondas que se desdobram em movimento, como se fossem rochas de papel moldadas pela imaginação. O olhar percorre curvas infinitas que convidam à exploração, transformando cada livro em parte de uma escultura viva.
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Esse espetáculo arquitetônico rapidamente ultrapassou fronteiras, tornando-se destino obrigatório para quem visita a cidade costeira no norte da China. Turistas chegam tanto para fotografar quanto para se perder nos livros, pois cada visita é experiência que une arte, turismo e cultura.
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Mediante tamanha imponência, predomina a ordem. Afinal, existe um sistema sequencial para que cada visitante encontre livros específicos em cada camada. Cada fila, portanto, tem um nome e é identificada por ordem alfabética.
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Concebida pelo estúdio holandês MVRDV em parceria com o Instituto de Planeamento Urbano e Design de Tianjin, a biblioteca nasceu da ideia de unir funcionalidade e espetáculo, cabendo um total de 1,2 milhões de livros. O resultado redefine o conceito de bibliotecas no século 21, onde design e cultura se fundem em harmonia futurista.
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Além de lugar de estudo, é centro de convivência e encontro, com salas de leitura, auditórios e áreas para diálogo. Ali, conhecimento e vida comunitária se juntam em ritmo constante, fazendo da biblioteca um organismo vivo dentro da cidade. Caminhar por suas curvas é uma viagem sensorial, onde escala, luz e silêncio criam atmosfera única. Cada passo revela novos ângulos e perspectivas inesperadas.
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Imagens do “olho”, aliás, viralizaram nas redes sociais e jornais, transformando Tianjin em referência mundial de inovação cultural. Arquitetos e viajantes a citam como obra-prima contemporânea, um símbolo que conecta a cidade ao mapa global da arte.
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As estantes guardam milhares de volumes como ondas literárias, um oceano de páginas que se confunde com arte. O visitante mergulha nesse mar e se perde em narrativas, descobrindo que leitura também pode ser experiência visual.
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A obra questiona o papel das bibliotecas na era digital, mostrando que o espaço físico ainda pode ser revolucionário. Não apenas depósito de livros, mas experiência arquitetônica, um futuro onde cultura e design caminham de forma sincrônica.
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A biblioteca fortalece a identidade cultural de Tianjin, orgulho local e vitrine internacional de inovação. Cada visitante leva consigo uma memória marcante, que transcende fronteiras e inspira novas criações.
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O imenso globo central parece vigiar o conhecimento, metáfora de sabedoria que tudo vê e conecta. Ali, passado e futuro se encontram em silêncio, com o olho como guardião da imaginação coletiva.
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Entre curvas futuristas, há áreas dedicadas às crianças, coloridas e acolhedoras, despertando curiosidade desde cedo. A biblioteca é sementeira de futuros pensadores, um convite para que novas gerações amem os livros.
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O espaço abriga palestras, concertos e encontros culturais, transformando-se em palco de ideias e arte. Cada evento reforça sua vocação comunitária, onde conhecimento ganha voz e movimento.
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As curvas remetem a paisagens naturais e cavernas, arquitetura que imita a fluidez da natureza. O visitante sente-se dentro de uma escultura habitável, onde design e ambiente se fundem em poesia espacial.
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A biblioteca tornou-se cartão-postal da cidade, imagem presente em guias, revistas e redes sociais. É símbolo de modernidade e orgulho urbano, projetando Tianjin como cidade de cultura e inovação.
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Visitar a Biblioteca de Tianjin é mergulhar no saber humano, em curvas cheias de riqueza intelectual que celebram a imaginação e a memória coletiva. Cada luz, cada livro, cada espaço compõe uma narrativa, um monumento que transforma leitura em experiência inesquecível.
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Trump é menos um indivíduo do que um sintoma. Representa um tempo em que a verdade perdeu densidade. Trago-o para as minhas crônicas num esforço para compreender a maldade — continuo sem compreender.
O que escreveria para sua filha mais nova em uma última carta, como fez o seu personagem? “Agora que tu completaste mil anos e eu 1056, estamos praticamente da mesma idade, vimos muitos mundos e talvez nos possamos despedir — embora não acredite em despedidas. Ou melhor, não acredite que as despedidas se justifiquem.
Creio que nada termina. Todos os momentos que vivemos continuam a existir, são eternos. Lembra-te disso, caso eu morra amanhã, o que, aliás, não me parece possível. Ninguém morre. A morte é uma ilusão”.
Ainda sobre cartas, uma das que estão incluídas em “Tudo sobre Deus” é destinada a Mia Couto. O que aprendeu – e ainda aprende – com o amigo moçambicano? Em primeiro lugar, Mia ensinou-me a estar gentil na vida. Aprendi com ele a escutar os outros e de como isso é fundamental no ofício literário.
Você está de volta a Minas Gerais. O que mais o fascina em nosso estado e quais os escritores mineiros que mais admira? Gosto de Minas — das pessoas, das cidades históricas, e de um certo vagar, que também temos na minha cidade natal, o Huambo, no interior de Angola, ou na Ilha de Moçambique, onde agora vivo. Na literatura, gosto muito do poeta Ricardo Aleixo.
Vários escritores de renome da literatura brasileira que, apesar do reconhecimento do talento e da qualidade do texto, nunca foram contemplados como “imortais” da Academia Brasileira de Letras. Flip.com.br
Mário Quintana (1906-1994) - Gaúcho de Alegrete, o "poeta das coisas simples" tentou três vezes, mas não foi eleito. Decepcionado, disse que a ABL estava politizada e que era até melhor ficar de fora, pois a academia "atrapalha a criatividade". Luís Fernando Veríssimo, seu conterrâneo, afirmou que, sem Quintana, o prejuízo era da ABL. Ricardo Timao /FLICKR
Luís Fernando Verissimo (1936-2025) – Modesto, afirmou não ter uma obra literária que merecesse a honra da imortalidade na academia, o que soou como ironia diante de tantos "imortais" que não são propriamente escritores. Ana Povoas/FLICKR
Érico Veríssimo (1905-1975) - Pai de Luís Fernando Veríssimo, foi um dos mais ilustres escritores do país. Livros como "O Tempo e o Vento" e "Olhai os Lírios do Campo" se popularizaram na teledramaturgia. Érico não se candidatou à ABL. Afirmou que era contra formalidades e jamais usaria fardão. Arquivo Nacional/Wikipedia
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) – Para muitos o maior poeta brasileiro do século XX. Quando Getúlio Vargas assumiu uma cadeira na ABL, no Estado Novo (ditadura getulista), Drummond e o escritor Sérgio Buarque de Hollanda, pai do compositor Chico Buarque, se comprometeram a nunca ingressarem na casa. Arquivo Nacional/FLICKR
Antonio Candido (1918-2017) – Escritor, sociólogo e crítico literário, autor de vasta obra adotada nas universidades. Defendia o direito para todos de acesso à literatura, considerando a leitura uma necessidade para a boa formação. Não quis se candidatar. Disse que não gostava de participar de grupos. FLICKR
Monteiro Lobato (1882-1948) - Escreveu um único romance ("Presidente Negro"), mas se consagrou como um dos maiores autores da literatura infanto-juvenil. Seus livros inspiraram produções na TV, no cinema e no teatro. Também fez contos e crônicas. Wikimedia Commons/Domínio Público
VinÃcius de Moraes (1913-1980) - Escritor e dramaturgo, um dos maiores poetas brasileiros, com forte ligação na área musical. Fez letras para canções que se eternizaram, com reconhecimento internacional. O "Poetinha" se notabilizou por sonetos. O mais famoso: "Soneto de Fidelidade". Debora Spada - Flickr
Dalton Trevisan - (1925-2024) - Nascido em Curitiba, é famoso por seus livros de contos e já recebeu diversos prêmios. Avesso a entrevistas, chegou a ser apelidado de "Vampiro de Curitiba" (nome de um de seus principais livros) por gostar de viver recluso. Divulgacao
Clarice Lispector (1920-1977) – Brasileira nascida na Ucrânia, autora de romances, contos e ensaios. Entre as suas obras mais importantes estão “A Hora da Estrela”, "Água Viva" e “Laços de Família”. Nunca se candidatou à ABL. Ana Carolina Braga - FLICKR
Em 2024, a atriz australiana Cate Blanchett, um dos maiores nomes do cinema, declarou que é fã de Clarice Lispector e que a leitura de seus livros exerce influência e inspiração sobre ela. Instagram @cate_blanchettofficial
Lima Barreto (1881-1922) - Neto de uma escrava liberta, foi autor de romances, contos e crônicas memoráveis; jornalista polêmico; ícone na luta contra o preconceito racial; um dos mais destacados escritores das primeiras décadas do século XX. Tentou sem êxito ser eleito para a ABL. Morreu aos 41 anos. FLICKR
Graciliano Ramos (1892– 1953) - Autor de uma das obras mais importantes sobre o sertão nordestino (“Vidas Secas”), foi um expoente no regionalismo. Militante comunista, chegou a ser preso e morreu aos 60 anos, deixando obras póstumas notáveis. Entre elas, "Memórias do Cárcere". LABCOM - FLICKR
A Academia Brasileira de Letras foi inspirada no modelo da Academia Francesa e fez a sessão inaugural em 20/07/1897. Ao longo do tempo, elegeu não apenas escritores, mas também pessoas que exercem outras atividades na cultura e na política. Estúdio Luiz Musso / Domínio Público
A instituição funciona no palacete Petit Trianon, réplica da construção homônima em Versalhes. O imóvel foi doado pelo governo francês à ABL em 1923. Wolfhardt / Wikimedia Commons
A ABL tem 40 membros efetivos e perpétuos. Quando um acadêmico morre, a cadeira é declarada vaga e quem quer concorrer à vaga tem dois meses para se candidatar. Acervo ABL/Domínio Público
Os "imortais" são escolhidos mediante eleição por voto secreto dois meses depois de a cadeira ter sido declarada vaga. Arquivo Nacional / Domínio Público
Se pudesse repetir o que fez Leopoldo, onde compraria uma construção abandonada no Brasil e faria dela a sua última morada? Não tenciono morrer. Não tenho mesmo a menor intenção. Mas se a ideia é um lugar para ler, e para pensar, talvez comprasse uma casinha abandonada algures junto ao Rio São Francisco, onde o tempo dilata com o calor, e as estrelas são tão presentes que quase se ouvem.
Como se cada estrela tivesse uma voz muito antiga, muito baixa, e bastasse ficar ali, imóvel, para começar a entendê-la. Não seria um lugar para morrer, mas para demorar. Para ler devagar. Para pensar sem urgência.
Talvez para desaprender algumas certezas. Uma casa mínima. Uma mesa, uma cadeira, livros suficientes. E o rio — sempre o rio — a lembrar que tudo passa, mas nem tudo se perde.
O angolano José Eduardo Agualusa nasceu em 1960 no Huamba. Estudou Silvicultura e Agronomia em Lisboa. Escreve crônicas para o jornal brasileiro O Globo.
É membro da União dos Escritores Angolanos e já teve seus livros traduzidos para mais de 30 idiomas.
Foi um dos fundadores da editora Língua Geral. Sua editora atual no Brasil é a Editora Planeta, que já lançou, pelo selo Tusquets, “O terrorista elegante e outras histórias”, livro escrito a quatro mãos com o moçambicano Mia Couto, “A sociedade dos sonhadores involuntários”, “O vendedor de passados”, pelo qual Agualusa venceu o Independent Foreign Fiction Awards, “Os vivos e os outros”, “As mulheres do meu pai”, “A rainha Ginga”, “Mestre dos batuques” (finalista do prêmio Oceanos em 2025) e “Teoria geral do esquecimento”, finalista do Man Booker International Prize e premiado no International Dublin Literary Award. “Tudo sobre Deus” é o romance mais recente de Agualusa.