Recomeço e ‘desfingimento’ em novo livro de Antonio Carlos Secchin
Com variedade de ritmos e formas, poeta retoma em "Desmentir" o viés irreverente do primeiro modernismo, passando pelo descolamento da poesia marginal
compartilhe
SIGA
Adriano Espínola - Especial para o Estado de Minas
Já tive a oportunidade de afirmar, no livro “O cego e o trapezista” (2022), que na poesia de Antonio Carlos Secchin teria ocorrido, “ao longo dos anos, um gradativo e curioso rejuvenescimento”. Fato, aliás, pouco frequente nas nossas letras.
Leia Mais
Com efeito, nos três primeiros livros do autor, “Ária de estação” (1973), “Dispersos” (1982) e “Elementos” (1983), percebe-se um tom pessimista predominante (“me limito nesse corpo amanhecido,/ asa e gozo onde a morte mora”). Nesse último livro, constata-se ainda certa desconfiança da linguagem (“Dizer é corroer o que se esquiva”), pautada por uma dicção por vezes sentenciosa e solene a respeito das coisas, dos seres e do tempo. Tudo isso escrito na plenitude dos vinte, trinta anos do autor.
Entretanto, a sua visão de mundo e da criação poética começam a mudar parcialmente no pequeno volume “Diga-se de passagem” (1988). Em alguns poemas, aparece então um certo humor parodístico, centrado em poetas parnasianos, em contraponto àquele tom algo sombrio das primeiras produções.
A virada teria continuidade sobretudo na primeira parte do volume seguinte, “Todos os ventos” (2002), livro por sinal premiado pela Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras, como o melhor livro de poesia do ano. Encontramos aqui, como então afirmei, um “poeta amadurecido e solar, aberto a todos os ritmos e formas”.
Quinze anos depois, com “Desdizer” (2017), o autor nos surpreenderia com um conjunto de poemas eivado de ironia e humor, desdizendo, através do registro direto e coloquial da linguagem, a imagem de certa poesia previsível e/ou sublime. Secchin nessa obra teria encontrado a melhor forma e estilo a sua própria voz. O estilo é o homem, diria o velho Buffon.
A essa leveza e soltura se juntaria o pleno domínio técnico da composição poética. Pelo menos três notáveis poemas se destacam no volume: “Língua negra, Rio 30 graus”, pelo seu teor crítico-social; “Autorretrato”, pela sua apurada reflexão metapoética e “Galo gago”, pela beleza da fábula, logo transformada, em 2018, em livro infanto-juvenil.
Eis que agora Antonio Carlos Secchin nos chega com “Desmentir” (Patuá), para acentuar a maestria de sua arte, acompanhada do frescor dos versos de um poeta que, embora mais velho na idade, se encontra aqui esteticamente remoçado (“Vida, te agradeço. Setenta anos/e ainda em recomeço”). A nota bem-humorada predomina, ao lado da linguagem distensa e da reflexão autoirônica do fazer poético. É possível afirmar nesse ponto que o autor retoma certo viés irreverente dos poetas brasileiros do primeiro modernismo, passando pelo descolamento da poesia marginal, para chegar a Leminski e até mesmo à antipoesia de um Nicanor Parra, por exemplo.
Some-se a isso o domínio técnico, revelando não raro virtuosismo, ao obter rimas quebradas ou em mosaico (“mar do o-/(caso)/árduo”; “pêssego/nesse go-/(zo)”, ou, adiante, agudas em série (“Soneto agudo”), bem como em sequência vocálica (“Lírica”, com rimas em asa, eza, isa, osa, usa), ou ainda, unissoantes (“Retrato a cores, de corpo inteiro”, com todas em “eza”). Tudo isso para alcançar apurada musicalidade e ritmo aliciantes, entretecendo os versos e reforçando a sua comunicabilidade.
O livro, contendo 32 poemas, parece dar continuidade ao anterior – a partir mesmo do contraponto dialógico e complementar dos títulos “Desdizer” e “Desmentir”: o primeiro interdita o previsível; o segundo, refuta o já dito. Há aqui um espelhamento verbal, uma imagem dúplice de negação, a partir do prefixo “des”, e reafirmação da linguagem. Por conseguinte, um jogo paradoxal e incessante da própria palavra poética, que, negando-se a si mesma, afirma em seguida no poema a sua potência diante do devir das coisas e dos seres. Ocultação e desvelamento.
A obra contém uma variedade de ritmos e formas, que vai do haicai (“Noite. Bebo. Pinto./Tudo que na noite é negro/vai virando tinto.”), passa pelo poema em prosa (“Poema tirado de uma notícia de poema”), pela composição em versos livres (“Sentimento drummundo”), pelos versos regularmente metrificados em quase todos os poemas, para chegar à forma talvez preferida do autor, o soneto, com 15 peças, destacando-se o conjunto “Dez sonetos malcriados”, num gesto a um só tempo voltado para a tradição e para a sua renovação, por meio de uma linguagem próxima da oralidade.
Se é verdade que o traço de vivacidade preside o volume, podemos, entretanto, encontrar alguns textos que manifestam um tom mais grave, de crítica social e humana, como é o caso de “Sentimento drummundo”, em que o poeta dá voz a um camponês (“Minhas mãos tecem o rude trabalho:/capinar, semear, colher./Os olhos lacrimejam, o coração transborda./ E nada espero de ninguém.”). Já no poema “Retrato a cores, de corpo inteiro”, descreve uma mulher humilde e sofrida (“Não olhe muito essa cara,/ que teve talvez beleza,/nem veja a boca entortada/ pela pá da Natureza”). Os dois poemas vêm acompanhados de fotos das mãos do homem e do rosto da mulher, para uma leitura também icônica.
Outro destaque em “Desmentir” se encontra na exploração da linha metapoética, seja através do uso da paráfrase (“Poema tirado de uma notícia de poema”), da paródia (“Soneto a Capitolina”), da apropriação de poemas e versos da tradição (“Poema semipomposo”) ou mesmo da complementação, a partir das lacunas deixadas por outro poeta (“Soneto todo censurado...”), sem faltar a reflexão sobre a própria criação poética, como podemos ver no belo “Mineração”.
Lembremos que tais características da obra em tela – a variedade formal, o registro bem-humorado e o exercício metapoético , também se encontram em “Desdizer”, a sugerir continuidade do processo artístico. Outro ponto a reforçar essa ideia está no fato de colocar, no final de “Desdizer”, o poema infantojuvenil “Galo gago”, procedimento que Secchin repete, ao publicar, também na última parte de “Desmentir”, o divertido “Abecebicho”, composto de 32 quadras rimadas, de versos heptassilábicos, nos quais comenta e/ou descreve 32 animais, seguindo a ordem alfabética: parte do “a” de abelha até chegar ao “z” de zebra. Se publicado separadamente, em uma edição ilustrada, com certeza o “Abecebicho” fará o mesmo sucesso do “Galo gago”.
Em uma das melhores peças da obra, o “Soneto mentiroso”, no qual dialetiza os polos da verdade x mentira, sanidade x loucura, que reverberam na fala do poeta que “não merece crédito”, pois tem “prazer de mentir sobre a mentira”, Antonio Carlos Secchin reatualiza a seu modo e não sem certa ironia o paradigma do fingimento pessoano. Entretanto, diante do conjunto dos textos de “Desdizer”, podemos refutar o autor e reafirmar a verdade da sua poesia, que nos captura e surpreende.
ADRIANO ESPÍNOLA é poeta, ensaísta, professor/pesquisador na UERJ, membro do PEN Clube e atual presidente da Academia Carioca de Letras
“Desmentir”
De Antonio Carlos Secchin
Patuá
72 páginas
R$ 60
Lançamento no dia 05/05, às 17h30, com recital de acadêmicos na sede da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro. Entrada franca.
TRÊS POEMAS
Visita noturna
Gosto dos fantasmas
que morrem de susto frente a um ser humano.
Seus lençóis se arrepiam de medo.
Noite dessas, um deles veio, trêmulo, me visitar:
Dá licença?
Entra, Manuel, você não precisa pedir licença.
Pensei que fosse o poeta Bandeira.
Era o Venturoso Rei de Portugal.
No crachá dos fantasmas
deveria constar o sobrenome.
Poetas e fantasmas têm algo em comum.
Ainda que falem até a exaustão,
ninguém ouve o que eles dizem.
Mineração
Escavo o papel,
atrás de uma frase oculta.
Tento trazê-la à tona,
ela, porém, reluta.
Resiste a se entregar
nessa nossa disputa.
Depois de muito suor
consigo vencer a luta.
Arranco da folha o segredo
trancado em sua gruta.
Descubro então o conselho
destinado à minha escuta:
“Desista de aqui procurar
palavra fina ou bruta.
Nem tente escavar o papel,
não existe a frase oculta”.
Canção do exílio sideral
Agora, navegante neste espaço,
a distância enterrou minha quimera.
Pergunto ao Céu: aqui, o que é que faço?,
no frio exílio da longínqua Terra.
Diviso o vulto azul do meu planeta,
nuvens que o embalam numa densa lã.
Percebo as cores todas da paleta
jorrando luz no corpo da manhã.
Laranja a Terra não é; sendo pêssego,
semente dura na maciez externa,
acorda em mim o que há de humano, nesse go-
zo de voltar ao chão que enfim me espera:
maior beleza cósmica não há
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
do que aquela da serra em Gravatá.