PALAVRAS IMORTAIS

Leia o discurso de Milton Hatoum na ABL

Novo ocupante da cadeira número 6 da Academia Brasileira de Letras citou Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Clarice Lispector na cerimônia de posse no Rio

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Milton Hatoum - Especial para o Estado de Minas

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Devo uma porção da minha duvidosa imortalidade aos meus familiares manauaras, à minha enteada Eleonora, à Ruth e aos nossos filhos, João e Gabriel, que sempre me perguntam por que demoro tanto para terminar um livro. Eu mesmo não entendo essa lentidão que, no entanto, não me exaspera. Talvez ela guarde uma relação atávica com o tempo e com o ritmo da Amazônia, de onde vim. 

Leia: Milton Hatoum: 'Escritores, poetas e leitores são imigrantes do imaginário'

Sobre esse ritmo, o médico e escritor Drauzio Varella, apaixonado pelo rio Negro e por suas comunidades indígenas e ribeirinhas, contou esse episódio: numa tarde, enquanto descia o maior afluente do Amazonas, ele viu um homem – caboclo ou indígena – sentado à beira da água. Horas depois, quando Drauzio subia o rio, encontrou o mesmo homem, na exata mesma posição, com ar contemplativo, e perguntou: “O que o senhor está fazendo?”. O homem respondeu: “Estou sentado”. 

Conheci o inesquecível acadêmico Cícero Sandroni há exatos onze anos, quando proferi uma palestra na ABL a convite da minha amiga, a acadêmica, escritora e ensaísta Ana Maria Machado, a quem agradeço o belíssimo e generoso discurso de recepção. 

Eleito por unanimidade membro da ABL em 2003, Sandroni foi considerado pelo saudoso e eminente historiador Alberto da Costa e Silva o herdeiro natural de Barbosa Lima Sobrinho. 

Cícero Sandroni presidiu esta Academia no biênio 2008-2009. Embora ele próprio se definisse como um ficcionista bissexto – autor do livro de contos “O diabo só chega ao meio-dia” e do romance “O peixe de Amarna” –, sua atuação como jornalista foi exemplar. Exerceu essa longa profissão, bem como as de cronista e pesquisador, com muita obstinação, honestidade e competência. Publicou o livro “De Dom Pedro I a Lula: História do Jornal do Commercio” e, em parceria com sua esposa, Laura Sandroni, uma biografia de Austregésilo de Athaíde, que presidiu a ABL por quase 34 anos. 

Editou, com os grandes historiadores Leslie Bethell e o saudoso José Murilo de Carvalho, dois valiosos volumes da vasta correspondência internacional de Joaquim Nabuco, de 1882 a 1891, publicada na imprensa do Rio e no jornal uruguaio La Razón. 

Na apresentação de sua coletânea de crônicas “A arte de mentir”, Sandroni adverte que seus textos não ensinam essa arte, e que tampouco se trata de um manual de autoajuda para quem deseja vencer na vida contando inverdades. Nesse livro, ele traça o perfil de escritores brasileiros e estrangeiros, evoca viagens, fala de política, literatura, cinema e música. Como bom cronista, fisga lances do cotidiano carioca, um deles grave: um assalto a sua casa no Cosme Velho, ocasião em que o cronista foi baleado. 

Não por acaso, o jovem narrador do romance “O peixe de Amarna” mora no Cosme Velho, título de outro de seus livros, no qual Sandroni conta a história desse bairro antigo e de alguns de seus moradores. 

Em 2006, o discurso de posse de Sandroni resumiu, de maneira notável, a vida e a obra dos acadêmicos que o antecederam: o poeta Teixeira de Melo – primeiro ocupante desta cadeira número seis e um dos trinta fundadores desta Casa –, responsável pela indicação de Casimiro de Abreu como patrono dessa mesma cadeira. Os demais, em ordem cronológica, são: Artur Jaceguai, Goulart de Andrade, Barbosa Lima Sobrinho e Raymundo Faoro. 

Barbosa Lima Sobrinho, presidente da ABL em 1953 e 54, autor de mais de cem livros, participou ativamente da Campanha das Diretas Já (1983-1984) e tornou-se, de acordo com Sandroni, a consciência moral da nação. Em 1959, quando relator da comissão da ABL que indicaria o Prêmio José Veríssimo, Barbosa Lima Sobrinho argumentou pela premiação do livro “Os donos do poder”, de Raymundo Faoro. Sandroni lembrou que esta Casa foi a primeira instituição a reconhecer o valor desse livro, uma obra erudita e um marco fundamental da historiografia brasileira que analisa em profundidade a formação do patronato no país.

Não menos erudito — generosamente erudito — é o livro “A pirâmide e o trapézio”, em que Faoro faz uma análise minuciosa da obra de Machado de Assis à luz da transição da velha sociedade de estamentos para a sociedade de classes. Nesse estudo, ele identifica questões históricas, sociais e políticas nem sempre explícitas nos contos, romances e crônicas machadianos, contrariando a visão de uma parte da crítica que se limitou a enaltecer a psicologia universalista das personagens de Machado de Assis. Em “A arte de mentir”, Sandroni cita, logo na primeira página, esta frase de Machado: “A mentira é muita vez tão involuntária quanto a respiração”. 

Sim, há mentiras e mentiras. Em que consiste, então, a mentira dos ficcionistas? 

No conto “A hora e vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, o narrador diz: “E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho desse jeito, sem tirar nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor”. 

O leitor acredita nas estórias inventadas, que não são casos acontecidos, mas que poderiam ter acontecido. Então é melhor acreditar nas estórias inventadas: são mais verdadeiras e menos constrangedoras. 

Na minha infância e primeira juventude manauara, quando ainda não havia televisão, eu acreditava nas histórias fantasiosas que ouvia do meu avô libanês. Igualmente fascinantes eram as histórias narradas por caboclas e indígenas que trabalhavam na minha casa e nas casas vizinhas. Não desconfiava que meu avô inventava façanhas, nem que aquelas mulheres recorriam a lendas e mitos, que estão na origem da literatura, mas muito pouco tem a ver com o romance, gênero moderno. 

Ouvi relatos de viagens e deslocamentos: levantinos que partiram do Mediterrâneo rumo à Amazônia, e amazonenses que saíram — ou tiveram que sair — de suas comunidades indígenas e ribeirinhas para se instalar em Manaus. 

A infância e a juventude são períodos decisivos. A passagem da adolescência à vida adulta é uma espécie de “Linha de sombra”, para usar o título e o tema de uma novela de Conrad. Depois da juventude, a realidade torna-se mais palpável, às vezes áspera e intratável, como o cacto do poema de Manuel Bandeira. Mas sabemos que para muitos brasileiros essa linha de sombra surge antes. A necessidade de trabalhar para ajudar os pais – principalmente a mãe – usurpa os anos de juventude e a própria formação educacional. 

 

Convivi com alguns desses jovens numa escola pública de Manaus: o Ginásio Amazonense Dom Pedro II. Décadas depois, as lembranças desse convívio com estudantes de origem humilde e as histórias que ouvi foram importantes para o meu projeto literário. Àquela época, Manaus era uma cidade pequena, isolada, uma província com ar cosmopolita, resquício do fausto da borracha ou da “Ilusão do fausto”, título do livro da professora e historiadora Edinea Mascarenhas Dias. Como observou Octavio Paz, “a província é a invenção romanesca por excelência, porque a contemplamos como um espaço fechado e suficiente: um lugar privilegiado onde as coisas secretas acontecem aos olhos de todos”. De fato, na província nós sabemos de muitas coisas secretas, mesmo à nossa revelia: é como se a cidade fosse um palco diuturno, em que todos são atores e espectadores. Esse grande teatro gratuito é um prato cheio para quem quer escrever ficção. E eu era um solitário à espreita, um pequeno ator secundário, meio na moita, que ouvia muito e falava pouco. Ouvir, para depois inventar. Muita coisa inventada nos romances “Relato de um certo Oriente”, “Dois irmãos”, “Cinzas do Norte” e “Órfãos do Eldorado” veio das reminiscências da infância e juventude manauara. Já os volumes da trilogia “O lugar mais sombrio” têm uma relação mais forte com a experiência da vida adulta. Mas todos foram alimentados por outro tipo de experiência, também vital e inerente a qualquer escritor ou escritora: a leitura. 

No romance “Os demônios”, de Dostoiévski, a personagem Nikolai Vsielódovitch diz: “A segunda metade da nossa vida é constituída dos hábitos e da experiência acumulados na primeira”. Isso acontece com muitos ficcionistas. Livros lidos na juventude abriram meus olhos e minha consciência para dramas humanos ambientados em regiões muito diferentes, distantes do Amazonas, e até do Brasil. Livros já considerados clássicos. Cito a definição de Jorge Luis Borges, por ser breve e, a meu ver, exata: “Clássico não é um livro que necessariamente possui estes ou aqueles méritos; é um livro que as gerações humanas, premidas por razões diversas, leem com prévio fervor e misteriosa lealdade”. 

“Os sertões” e “Vidas secas” foram dois desses clássicos que me impressionaram em 1967, quando eu concluía o curso ginasial e já me preparava para morar em Brasília, na companhia dos amigos Aurélio Michiles, cineasta, e Enéas Valle, artista visual e professor. 

Devo a um professor de geografia e a uma professora de português a descoberta de uma região do Nordeste, com seus dramas e tragédias. A professora, uma jovem que sabia escutar e cultivava uma saudável autoironia, orientou a leitura de livros de Graciliano e de outros autores importantes. Já o professor de geografia era impermeável ao sorriso, pouco propenso ao diálogo e sempre disposto a castigar os imprudentes e os distraídos. Ele impôs a leitura de “Os sertões” como punição coletiva por um ato de vandalismo não delatado ocorrido na escola. Nesse exercício de crueldade, fui obrigado a fichar a última parte do grande livro, sem entender direito as razões daquela batalha fratricida que foi, a bem dizer, um massacre do povo pobre de Canudos. 

Esses livros me surpreenderam pelas questões abordadas e pelo estilo contrastante em seus modos de narrar. Como se sabe, “Os sertões” é uma obra narrada com uma linguagem sofisticada, de tom elevado, em que se entrelaçam várias modalidades de discurso e não poucas figurações literárias. Para Antonio Candido, Euclides da Cunha foi, mais que um sociólogo, um iluminado. 

“Eu era um solitário à espreita,um pequeno ator secundário,meio na moita, que ouvia muito e falava pouco. Ouvir,para depois inventar.Muita coisa inventada nos romances “Relato de um certo Oriente”, “Dois irmãos”,“Cinzas do Norte”e “Órfãos do Eldorado” veio das reminiscências da infância e juventude manauara.”

Milton Hatoum

 

O que antes era apenas uma intuição ou um tateio, tornou-se uma busca incessante para compreender a relação entre a linguagem e as questões abordadas nessas e outras obras, ficcionais e poéticas. Talvez essa fase de leitura passional seja a região luminosa no outro lado da linha de sombra. E só a partir dos 28 anos comecei a escrever meu primeiro romance.

No poema “Graciliano Ramos:”, João Cabral de Melo Neto alude à essência do estilo do grande autor alagoano:

Falo somente com o que falo: com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol/ que as limpa do que não é faca.

A linguagem precisa, ou, como diz o poema cabralino: “em que só cabe cultivar/ o que é sinônimo da míngua”, traduz um esforço de estilo, o que o poeta pernambucano chamou de trabalho de arte. Não por acaso, há uma frase emblemática no “Caetés”, primeiro romance de Graciliano: “O difícil é escrever”. 

Essa dificuldade, que opera por subtração e evita qualquer adorno, foi apontada nesses versos nada fáceis do poema “Murilograma a GR” (1963), de Murilo Mendes.

Brabo. Olhofaca. Difícil./ Cacto já se humanizando./ Deriva de um solo sáfaro./ Que não junta, antes retira,/ Desacontece, desquer/ Funda o estilo à sua imagem:/ Na tábua seca do livro/ Nenhuma voluta inútil./ Rejeita qualquer lirismo./ Tachando a flor de feroz. 

A linguagem de Graciliano é uma recusa consciente a uma escrita pomposa e derramada, que ele criticou com aspereza em vários artigos e nos romances “Caetés” e “São Bernardo”. Penso que ele também atentou às sábias palavras do Conselheiro Aires, personagem de Machado: “Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar”. 

Para não enfadar vocês, vou apenas comentar dois tipos de violência e a posição do narrador em “Vidas secas”. Uma das cenas fortes desse romance é a detenção de Fabiano, após ser espancado pelo soldado amarelo. 

Nesse episódio, a violência física é inseparável de outra: a ausência da formação educacional da população mais humilde. Esse é um dos temas profundos de “Vidas secas”: a impossibilidade de os personagens terem acesso à leitura.

Uma passagem importante no fim desse romance alude ao desejo dos pais (Fabiano e Vitória) de educar os filhos. Talvez essas páginas finais sejam as únicas de esperança, ainda que tênue, numa obra tão pessimista como a de Graciliano. O anseio da família sertaneja por uma vida melhor numa cidade não contempla os pais, que já perderam tudo. Um futuro mais digno talvez seja possível para os dois filhos, e essa possibilidade só é vislumbrada na escola, onde os meninos aprenderiam “coisas difíceis e necessárias”. 

Fabiano quer pensar, mas não sabe pensar. “Incapaz de argumentar, como postular uma existência?”, indaga o crítico e professor Lourival Holanda, num belo ensaio sobre “Vidas secas”. 

Esse é o impasse de milhões de brasileiros até hoje: a angustiante ausência de articulação do pensamento com a palavra. Daí a humilhação de Fabiano diante do soldado amarelo, do patrão, dos próprios filhos e de Vitoria, mais sabida, mais sensata e mais resoluta do que o marido. 

Vários críticos analisaram em “Vidas secas” e em outros romances de Graciliano uma junção habilidosa da memória, da história, da geografia, do drama social e da sondagem psicológica. O mais fascinante nessa junção, contudo, é o modo de narrar. Quem conta a vida áspera dos sertanejos não é a voz de um outro, ou de outros, em posição elevada, com autoridade de narrar. Quem são esses outros? 

Na novela “O recado do Morro”, de Guimarães Rosa, o narrador Pedro Orósio, um capiau enxadeiro, é o guia de três homens numa viagem aos campos gerais: um naturalista estrangeiro, um religioso e um fazendeiro. Ao se referir aos membros dessa comitiva, Pedro Orósio diz: “Outros eram os outros, de bom trato que fossem: mas, pessoas instruídas, gente de mando. E um que vive de seu trabalho braçal não cabe todo avontade junto com esses, por eles pago”. 

Em “Vidas secas”, as particularidades de um flagelo social são examinadas por dentro, como uma mediação entre o mundo sertanejo e a cultura letrada. Nessa mediação não há uma voz hierárquica; o narrador não assume uma posição de superioridade em relação aos retirantes, cuja subjetividade é narrada de um ponto de vista das próprias personagens, incluindo os animais. Quem não se comove com a famosa cena em que a cachorra Baleia, faminta, delira com a visão de preás gordos? 

Graciliano combina habilmente essas vozes com a de um narrador em terceira pessoa, uma combinação que exclui gente de mando. As vozes, o silêncio, as hesitações, as dúvidas e os sentimentos partem da consciência deles, e não dos outros. Nada disso é falseado. Esse procedimento formal configura o sentido profundamente humano dessa pequena obra-prima, que discrepa de “Os sertões” quanto à forma e ao gênero literário, e diverge radicalmente em relação à posição e visão do narrador sobre questões cruciais. Penso que Graciliano corrigiu distorções e preconceitos de Euclides, principalmente quanto à hierarquia de raças, uma teoria falaciosa formulada por Artur de Gobineau no século 19. Cito um dos tantos exemplos da obra euclidiana: “Alguns (sertanejos) se aprumavam com altaneria incrível, no degrau inferior e último da nossa raça”. 

Sem dúvida, pode-se argumentar que Euclides, um engenheiro militar, foi um intelectual da segunda metade daquele século. Mas Machado de Assis, contemporâneo de Euclides, não caiu nessa armadilha ideológica. Um presente valioso que recebi da minha mãe – dádiva que ainda guardo – foi a coleção das obras completas de Machado, edição de 1958 dos Clássicos Jackson. Naquela quadra da juventude, li apenas os contos, que evidentemente me fascinaram, mas a intuição materna me conduziu depois aos romances de Machado, dentre os quais “Esaú e Jacó”, um dos meus preferidos e uma das fontes literárias do “Dois irmãos”. 

Anos depois, ao ler os ensaios de Euclides sobre a Amazônia, percebi que ele retoma as mesmas questões sobre as nossas iniquidades, mas são questões escamoteadas pela enganosa oposição entre civilização e barbárie. Trata-se de uma construção ideológica do colonialismo que, em nome de uma suposta civilização, nomeava “bárbaros” os povos colonizados. 

“Exterminem todos os bárbaros” é a frase famosa do personagem Kurtz, um agente colonial europeu da novela “Coração das trevas”, de Joseph Conrad. Hoje, o mundo todo vê com mais consciência e conhecimento que os ditos civilizados de um certo Ocidente são os verdadeiros exterminadores.

Quase seis décadas se passaram desde as leituras da juventude e, nesse longo intervalo, volta e meia fala-se da crise ou mesmo do fim do romance. Ora, o romance, como gênero literário, já nasceu em crise. Aliás, crise e crítica têm o mesmo étimo, e o romance sobreviveu a ambas. Enquanto houver vida neste mundo em chamas, haverá histórias a ser narradas, lidas e ouvidas. Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes, no teatro – essa arte viva - na experiência mística, no devaneio. A humanidade não pode suportar tanta realidade, como diz T. S. Eliot num poema famoso. 

Um dos meus devaneios é imaginar um punhado de leitores anotando os mesmos trechos de um livro. Isso acontece nas manhãs nada inspiradas, em que busco em alguns livros frases sublinhadas e imagino leitores e leitoras sublinhando as mesmas passagens do romance “A hora da estrela”, os mesmos versos de um poema de João Cabral, ou esta frase de um conto de Guimarães Rosa: “Só sabemos de nós mesmos com muita confusão”. 

Muitos leitores cultivam o bom hábito de traçar relações temáticas e formais entre poesia e ficção. É um livre exercício para eleger afinidades literárias. Tracei livremente paralelismos entre obras da nossa literatura, e imaginei Macabéa, a extraordinária personagem de “A hora da estrela”, como uma sobrinha de Fabiano e Vitoria. Macabéa, uma retirante nordestina no Rio, onde, após ser enganada e humilhada, encontrou seu destino trágico. 

Vi parentes próximos de Fabiano e Vitoria no poema “Morte e vida severina”, e parentes distantes nos catrumanos, aqueles sertanejos do tempo do Império, personagens de “Grande sertão: veredas”, um romance que aprofunda e radicaliza o modo de narrar de “Vidas secas”. Aliás, a presença e a ausência da formação educacional são temas recorrentes no fabuloso romance de Rosa. Basta lembrar os tantos jagunços analfabetos e o narrador Riobaldo: professor, poeta, mestre da cultura popular e erudita, ambas amalgamadas numa prosa poética que inclui ditados, refrões e cantigas do centro-norte de Minas, citações de escritores brasileiros e estrangeiros, como Dante Alighieri, Thomas Mann e Goethe. 

Uma corrente de sensibilidade envolve leitores, narradores orais e livros, e formam, juntos, o que Goethe chamava de “Literatura do mundo”. Esse conceito surgiu na década de 1810, quando Goethe leu o Corão e poetas árabes e persas, notadamente Hafiz, fonte de inspiração dos doze volumes de poesia reunidos no “Divã Ocidental-Oriental” (1819). Esse mesmo poeta persa inspirou um dos mais belos poemas de Manuel Bandeira: “Gazal em louvor a Hafiz”. Já o título do livro de Goethe inspirou Edward Said e Daniel Barenboim a formar uma orquestra com jovens músicos cristãos, muçulmanos e judeus. 

Goethe era apaixonado pelo Brasil. Ele nunca esteve aqui, mas era amigo dos botânicos Carl von Martius e Nees von Esenbeck, que passaram anos pesquisando a flora brasileira. Uma rara e linda flor vermelha da Mata Atlântica, uma malva baiana em extinção, leva o nome científico de Goethea cauliflora. Berthold Zilly, o exímio tradutor alemão de “Os sertões” e “Grande sertão: veredas”, conta que G. Rosa disse numa entrevista: “Goethe não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo”.

Para o sertanejo-alemão Goethe, a “Literatura do mundo” não era a literatura universal: algo que soa vago, abstrato. Era, antes, o direito a toda literatura de valor ético e estético, que nos sensibiliza e nos convida à reflexão. Uma literatura, como disse Antonio Candido, “que não corrompe nem edifica […]; mas humaniza em sentido profundo, porque faz viver. […] A função da literatura está ligada à complexidade de sua natureza, que explica inclusive o papel contraditório, mas humanizador (talvez humanizador porque contraditório)”.

Uma diversa produção literária da África, da Ásia e da América Latina, por muito tempo menosprezada ou ignorada pelo Ocidente, tem sido traduzida em dezenas de idiomas. A recepção da crítica e dos leitores a essas obras antes ofuscadas ou ocultas é uma prova de que não existe um único cânone na literatura. Será que o conceito de Goethe – talvez um sonho premonitório – foi enfim realizado? 

Escritores, poetas e leitores são imigrantes do imaginário; eles e elas se alimentam também da imaginação, dos sonhos e das línguas alheias. Qualquer pessoa pode eleger uma ou várias pátrias culturais, sem necessariamente desprezar sua identidade, que não deve ser pensada somente a partir de si mesma, como algo fixo ou cristalizado. 

No Brasil, uma extraordinária expressão da cultura oral e milenar de um dos povos originários da Amazônia é o livro “A queda do céu – Palavras de um xamã Yanomami”, uma coletânea de relatos poéticos, míticos, políticos e históricos narrados por Davi Kopenawa e traduzidos e editados pelo antropólogo Bruce Albert. Outro belo exemplo é o álbum “Sobrevivendo no inferno”, dos Racionais MC’s: um canto poético com sentido político e uma força expressiva incomum, que fala da humilhação e da espoliação a que são submetidos brasileiros das periferias, “quase todos pretos, e quase brancos pobres como pretos”, como diz a letra da comovente canção “Haiti”, de Gilberto Gil e Caetano Veloso.

Essas e outras obras ampliam o horizonte da nossa consciência e percepção em relação aos brasileiros que há séculos têm sido excluídos de uma ansiada modernidade, que ainda hoje só contempla uma parte da população. Elas trazem para nossa reflexão e nosso posicionamento uma questão não resolvida, mas na qual estamos implicados: como este país pode ser moderno e civilizado diante da injustiça decorrente de séculos de escravidão? 

A literatura costuma recorrer à ambiguidade; ela não dá, ou não deve dar explicações nem respostas cabais. No “Esaú e Jacó”, o narrador machadiano diz à Baronesa: “A senhora exige respostas definitivas, mas diga-me: o que há de definitivo neste mundo, a não ser o voltarete do seu marido? Esse mesmo falha”.

O que se espera de um texto literário é justamente o inesperado, o mistério, a complexidade dos conflitos e a dimensão simbólica de seus enigmas, que nunca se revelam por inteiro. Em todo caso, a leitura não deve ser passiva nem conformista. Virginia Woolf ressaltou alguns aspectos essenciais dessa prática: a “tarefa criativa do leitor”, cuja cumplicidade com a obra tem a ver com a imaginação, e o seu julgamento, capaz de desafiar, instigar, questionar ou estimular o escritor. Esse processo exige uma compreensão ampla e profunda, pois a intuição de quem lê, em contato com as múltiplas faces desse texto, estimula a vida material e espiritual. Ainda assim, para a escritora inglesa, “a real razão para se ler livros continua inescrutável: a leitura nos dá um prazer complexo e um prazer difícil; varia de época para época e de livro para livro. Na verdade, é um prazer tão grande que, sem ele, o mundo seria um lugar muito diferente e muito inferior ao que é”.

Trabalhei pouco tempo como arquiteto, mas a arquitetura não me abandonou. Uma recente recaída teórica é o texto de apresentação ao livro que ilustra o belíssimo projeto do Memorial de Brumadinho, do grande arquiteto mineiro Gustavo Penna. Quando estudava na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o orientador de um trabalho de graduação sobre Manaus foi o professor e geógrafo Milton Santos, um dos intelectuais mais notáveis deste país. Três décadas depois, o saudoso filósofo e crítico literário Benedito Nunes me convidou para escrever um ensaio sobre a minha cidade natal, que resultou no livro “Crônica de duas cidades – Belém-Manaus”, escrito em parceria com ele. Ainda estudante da FAU, eu e meu amigo, o poeta e professor Horacio Costa, escapávamos das aulas maçantes de cálculo integral e diferencial para assistir a disciplinas de literatura na faculdade de letras. Lá, na antiga Colmeia, os professores Davi Arrigucci Jr., Leyla Perrone-Moisés, Irlemar Chiampi e o saudoso acadêmico Alfredo Bosi, grandes críticos-escritores, foram fundamentais na minha formação de leitor. Davi, um querido amigo, é ainda hoje leitor e interlocutor essencial. Enfim, nas escolas e na universidade públicas aprendi “coisas difíceis e necessárias”, como diz um narrador de “Vidas secas”. 

Antes de concluir, quero evocar a professora que me alfabetizou e um amigo livreiro. Nos seus 104 anos de vida, Maria Luiza de Freitas Pinto acompanhou quase toda a minha produção literária, foi ao lançamento dos meus livros em Manaus, na Banca do Largo, do saudoso amigo Joaquim Melo. Lembro-me do lançamento conjunto com Ailton Krenak, numa noite memorável, com a presença de muitos leitores e, claro, do Joaquim, sua filha Helena e a companheira dele, a médica baiana dra. Tereza Cristina Rizério. Elas estão aqui, e ele vive na nossa memória. O jornal The Guardian nomeou a Banca do Largo a menor livraria do mundo. Eu acrescentaria: e uma das mais generosas. Joaquim doava bons livros a estudantes de escolas públicas, não só de Manaus. Ele me enviava caixas de isopor com peixes e farinha do Amazonas, geleia de bacuri feita em Belém, queijo coalho, e a ardentíssima pimenta murupi, que a professora de literaturas africanas, minha amiga Rita Chaves, certamente conhece. Enfim, supimpas iguarias, como disse Riobaldo na casa do turco Assis Wababa, no Curralinho. 

Certa vez, sem saber como agradecer, disse ao Joaquim que aquelas dádivas, que tinham viajado quase três mil quilômetros, eram uma loucura. Ele se saiu com essa: “Mano, loucura é comer tilápia sonhando com tambaqui na brasa e farinha do Uarini”. Os últimos presentes de aniversário que ele me enviou foram dois objetos valiosos: uma rara edição francesa de “Três contos”, de Flaubert, e a primeira edição de “Vidas secas”. Num bilhete, ele escreveu: “Para que não te esqueças das professoras que te levaram à literatura”. 

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Às professoras e aos professores que formaram e continuam a formar leitores críticos, dedico este texto, “Imigrantes do imaginário”, que é também uma modesta homenagem a todos vocês, cuja presença nesta noite é uma alegria para sempre: a alegria do conhecimento, como escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade.

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