Milton Hatoum: 'Escritores, poetas e leitores são imigrantes do imaginário'
Primeiro amazonense a ingressar na Academia Brasileira de Letras fez discurso de valorização da literatura como forma de compreensão do Brasil e do mundo
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Rio de Janeiro - “Quis fazer uma homenagem aos escritores, aos professores e à literatura.” Assim Milton Hatoum definiu o discurso de posse na cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras no último dia 24 de abril, na sucessão do jornalista Cícero Sandroni. A cerimônia na sede da ABL, no centro do Rio, foi muito mais do que uma solenidade. Pelas palavras de Hatoum, e pelos aplausos entusiasmados dos colegas escritores de diversas origens e gerações, a chegada do primeiro amazonense à Academia significou também uma defesa da força da ficção para enfrentar – e suportar – a dureza concreta da realidade. “Enquanto houver vida neste mundo em chamas, haverá histórias a serem narradas, lidas e ouvidas”, afirmou Hatoum. “Não vivemos apenas no real, vivemos também no imaginário, nos sonhos, na literatura, nas artes no teatro, essa arte viva, na experiência mística. Vivemos também no devaneio”, complementou, em uma das passagens mais aplaudidas do discurso, na tribuna do Salão Nobre da instituição fundada em 1897.
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Nascido em Manaus em 1952, Milton Hatoum viveu parte da juventude em Brasília (inspiração para “A noite da espera”, primeiro volume da trilogia “O lugar mais sombrio”) antes de se mudar para São Paulo e passar temporadas em Madri e Paris. Tem obras traduzidas em 17 países e mais de 500 mil exemplares vendidos. O seu romance mais conhecido é “Dois irmãos”, lançado em 2000, vencedor do Prêmio Jabuti de 2001. Adaptada para os quadrinhos e para a televisão, a saga familiar dos gêmeos Yaqub e Omar foi adotada em dezenas de escolas e incluída na lista de leitura obrigatória de vestibulares como o da USP (Universidade de São Paulo).
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Hatoum relutou por alguns anos para aceitar o convite da ABL, revelou a acadêmica Ana Maria Machado, no discurso de recepção. “O ar de espanto dele (sobre a sugestão de se tornar ‘imortal’) foi autêntico e inesquecível”, lembrou a escritora. “Evidentemente, a hipótese não lhe ocorrera jamais. Ficou sem ter o que dizer, balbuciando desculpas. Mas prometeu pensar no assunto. Pois não é que ele levou 10 anos pensando? Só no final de 2025 resolveu se candidatar e por isso estamos todos aqui a festejá-lo”, comemorou a autora.
Na saudação, a escritora afirmou enxergar em Hatoum uma relação muito pessoal com o tempo. “Ele flerta com eternidades, invoca perenidades, submerge em águas de permanência. Por isso, às vezes, chega a causar estranheza numa época como a nossa, que se caracteriza por uma certa preferência por fenômenos passageiros”, pontuou, destacando a “coerência e sobriedade” da obra narrativa do manauara, “sem manipulação narrativa, sem manipulação do leitor, sem qualquer recurso a fórmulas simplificadoras ou oportunismo seletivo em busca de aplausos ligeiros, uma raridade”, afirmou Ana Maria Machado, destacando o “exemplo de quem sabe e leva nas veias uma verdade tantas vezes esquecida.”
“Estamos recebendo um ficcionista que se instala num território híbrido da história imorredoura e imaginação fecunda, em que floresce a linguagem narrativa, descendente dos relatos orais e, ao mesmo tempo, da melhor tradição literária para compor um fluxo de linguagem ambíguo e enigmático”, definiu a sexta ocupante da cadeira número um da Academia Brasileira de Letras.
Seguindo o ritual da ABL, antes do início da cerimônia, Hatoum ficou isolado na Sala da Reflexão, um dos cômodos do palacete erguido para as comemorações do centenário da Independência do Brasil, doado pelo governo francês em 1923 e réplica do Petit Trianon de Versalhes. Em silêncio e sob o olhar dos primeiros convidados, revisou o seu discurso. As portas se abriram e uma comissão de recepção formada por três acadêmicos, Antonio Carlos Secchin, Domício Proença Filho e Eduardo Giannetti, o conduziu ao Salão Nobre. Sob aplausos, assinou o livro de posse e recebeu os símbolos da imortalidade: o colar das mãos de Rosiska Darcy de Oliveira, o diploma, por Lilia Moritz Schwarcz, e a espada, entregue por Arnaldo Niskier.
Além de escritores como Itamar Vieira Junior, Maria Esther Maciel e Socorro Acioli, a cerimônia que lotou dois salões e a área externa da sede da ABL foi conduzida pelo presidente da ABL, Merval Pereira, e teve a presença de dois cineastas que assinaram adaptações audiovisuais da obra de Hatoum: o baiano Sérgio Machado, de “O rio do desejo” (baseado no conto “O adeus do Comandante”, de “A cidade ilhada”) e o pernambucano Marcelo Gomes, de “Retrato de um certo Oriente” (adaptação de “Relato de um certo Oriente”). O ator Irandhir Santos também fez questão de abraçar o novo ocupante da cadeira que tem como patrono Casimiro de Abreu (1839-1860), “o poeta da saudade”.
O Pensar reproduz o discurso de Milton Hatoum, pontuado por referências a obras de alguns dos maiores nomes da literatura brasileira: Machado de Assis (“Esaú e Jacó”, influência assumida para “Dois irmãos”), Guimarães Rosa (“A hora e a vez de Augusto Matraga”, “O recado do Morro”, “Grande sertão: veredas”), Clarice Lispector (“A hora da estrela”), Euclides da Cunha (“Os sertões”). Clássicos de Dostoiévski (“Os demônios”) e Joseph Conrad (“Coração das trevas”) também foram citados, bem como os versos de “Sobrevivendo ao inferno”, dos Racionais MC’s, e de “Haiti”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil (um dos imortais que conduziu, com Ana Maria Gonçalves, Arno Wehling e Fernanda Montenegro, o novo integrante para os cumprimentos no Salão dos Fundadores).
Diante de historiadores, jornalistas, biógrafos e acadêmicos, Hatoum enalteceu a ficção como uma forma poderosa de (re)conhecer o Brasil e de alcançar um mundo sem barreiras nem fronteiras. “Escritores, poetas e leitores são imigrantes do imaginário; eles e elas se alimentam também da imaginação, dos sonhos e das línguas alheias. Qualquer pessoa pode eleger uma ou várias pátrias culturais, sem necessariamente desprezar sua identidade, que não deve ser pensada somente a partir de si mesma, como algo fixo ou cristalizado.”
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