LITERATURA

Em 'Solo', Marcella Franco transforma a solidão materna em um dueto de amor

Misturando realidade e fantasia, obra literária propõe um pacto de generosidade para mães que enfrentam sozinhas o desafio de criar e educar no Brasil

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Mônica de Aquino - Especial para o Estado de Minas
Nenhuma maternidade é solo, Marcella Franco parece nos dizer neste seu livro de estreia. No concerto da maternidade, múltiplo, expansivo, há sempre, no mínimo, um dueto em seu núcleo: com a filha ou o filho somando sua voz e seu tom à particular sinfonia do cuidado.
Toda maternidade é solo, a autora também parece nos lembrar: movimento inaugural e solitário de descoberta e reinvenção, mesmo quando há um pai presente, mesmo quando há uma sólida rede de apoio; território de origem e de metamorfose, gérmen da vida coletiva.
 
Também é solo a infância. Terra fértil e cambiante à qual estamos todos vinculados, ponto de partida onde aprendemos a dar os primeiros passos, e “ficar de pé é bem complicado”, o narrador da história recorda, enquanto tenta caminhar até o solo seguro que é a mãe.
 
É a sua presença que garante o olhar generoso do menino para a própria história e para a percurso dos dois, que no lugar do abandono, é marcado muito mais pelo carinho e pela cumplicidade. Que apesar do abandono, da recusa do genitor em se fazer pai (o que fica como um pano de fundo da narrativa), é cheio de alegria e de ternura. 
Ilustração de Paula Schiavon para o livro "Solos", de Marcella Franco
Ilustração de Paula Schiavon para o livro "Solos", de Marcella Franco Paula Schiavon/Reprodução
 
O livro entrelaça dois caminhos que, se na vida real, são paralelos, aqui se desdobram para o que cada um tem de específico e único, até convergirem no centro do livro: mãe e filho caminham pelas páginas contando a mesma história, cada um a partir de sua perspectiva. Retomando a estratégia de outros livros voltados às crianças (como o já clássico “Ter um patinho é muito útil”, da argentina Isol Misenta), Marcella Franco narra os mesmos fatos desde a experiência de dois narradores - a mãe, que representaria a própria voz da autora, e o filho. 
 
São duas capas com o mesmo título, “Solo”, cada uma de um lado do livro, diferindo apenas pela ilustração. Em uma delas, uma mulher (a mãe) caminha sobre uma espécie de rachadura, como uma equilibrista. Na outra, um menino (seu filho) pula sobre uma poça de água. Assim, o terreno inseguro e sentido também como ameaça que marca a jornada desta mãe que, de repente, se encontra sozinha nas decisões e nos cuidados, parece não possuir a mesma densidade e peso na experiência do filho, que brinca com os elementos. O delicado e sensível trabalho da artista visual Paula Schiavon ao longo do livro ajuda a propor esse jogo.
 
Escolhemos uma das vozes para começar a leitura, depois giramos o livro para ler a outra versão da história. As duas se encontram no meio e se espelham, entre as palavras “solo” e “sorte”. Sorte que não soa como destino, mas como bem-aventurança - não por causa da solidão, é preciso ressaltar, mas pelo encontro dos dois, apesar dela. Sorte que não é um lance de dados, mas escolha diária que se revela na própria forma de afirmar, pela narrativa: estamos juntos aqui e é esta a nossa história. Ou como lemos mais ao final do relato do filho: “A nossa história daria um livro! Daqueles que a gente gosta de ler de novo e de novo e guarda até ficar velhinho.”
 
Lembro, neste ponto, do que escreveu a ensaísta francesa Marielle Macé, no belíssimo “Nossas Cabanas: lugares de luta, ideias para a vida comum” (também publicado pela Editora Bazar do Tempo), ao retomar o pensamento de Benveniste: “nós” não é o plural de “eu”, um plural contabilizável recortado no conjunto maior de “todos”. “Nós é o resultado de um ‘eu’ que se abriu (que se abriu para aquilo que ele não é), que se dilatou, se colocou fora, se ampliou.” Poderia ser essa, também, a definição da maternidade que me interessa. 
 
Salto para outro trecho um pouco mais à frente, um parênteses que ela adiciona como parte da mesma reflexão: “Talvez ‘nós’ seja então algo como o plural de ‘sozinho’: ele não se faz a partir de nossos “eus”, afirmados ou vacilantes, mas a partir de nossas solidões; ele as coloca em comum, ou seja, ele as reúne, as ultrapassa ao reuni-las e, sob certa ótica, as mantém.”
Ilustração de Paula Schiavon para o livro "Solos", de Marcella Franco
Ilustração de Paula Schiavon para o livro "Solos", de Marcella Franco Paula Schiavon/Reprodução
 
A maternidade vivida de forma solitária, muito além do âmbito das famílias, é um problema social, como nos lembra o release do livro: no Brasil, em torno de oito milhões de famílias são chefiadas por mulheres sem cônjuge, de acordo com o censo do IBGE de 2022. Nesse sentido, os relatos que acompanhamos no livro, se não trazem, de forma explícita, esse panorama social, ganham um outro sentido político profundo: como um livro voltado a todas as idades, dão às mães solo e, especialmente, aos seus filhos, um espaço de reconhecimento e, quem sabe, de valorização e reescrita da própria história. 
 
Dueto íntimo que, assim, vira um coro: são milhões de histórias que dariam um livro, para serem lidos (e escritos) de novo e de novo; histórias que todos nós precisamos olhar com cuidado, considerando a infância uma responsabilidade que não é só da família, mas que deve reverberar coletivamente.
 
Fazer do solo um coro que ecoe a vida comum; fazer das ilhas familiares, um continente, território de reinvenção da sociedade. Ouvir a voz das mães e das crianças, que tantas vezes são disfarçadas, escondidas, silenciadas, distorcidas, tomadas como ruído ou murmúrio. Ouvir estas vozes tantas vezes solitárias, aproximá-las nesse coro que há de ser, também, dissonância e desvio. Para reinventar o cuidado; para que a chegada de uma nova pessoa no mundo seja sempre um momento de boas-vindas e de transformação.

MÔNICA DE AQUINO é poeta, pesquisadora,  crítica de arte e curadora independente

Depoimento

Marcella Franco (autora dos textos de “Solo”)



“Mistura de realidade e fantasia”

“É bacana falar sobre a “concepção” de ‘Solo’. Acho que, assim como acontece com os filhos, “Solo” se formou em mim muito tempo antes de ganhar o mundo. A exemplo do que diz o filho em seu lado da história, vivi muitas coisas “que dariam um livro” ao longo do meu tempo de maternidade solo. E, ao notar que outras mães viviam situações parecidas, fiz o que fazem os que amam escrever: fui reunindo tudo e desenvolvendo a ficção em cima disso. Num movimento paralelo, com base na minha experiência escrevendo na Folhinha por anos, encontrei a voz dessa criança que narra um dos pontos de vista. “Solo” é a mistura de realidade e fantasia explicitada num texto desejoso de que as mães sejam mais generosas consigo mesmas, assim como nossos filhos e filhas muitas vezes podem ser conosco.”

“Solo”

De Marcella Franco
Ilustrações de Paula Schiavon
Bazar do Tempo
72 páginas
R$ 86 
 

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