Sebastião Nunes: ‘O politicamente correto está matando tudo’
Um dos mais provocadores poetas brasileiros lança neste sábado (21/3) em BH a sua "Antologia mamaluca", reunião de poemas de dez livros
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Assim que terminei a leitura de “Antologia mamaluca”, livro de poemas de Sebastião Nunes organizado pelo escritor Fabrício Marques, me veio logo à lembrança uma conversa que tive com o escritor Sérgio Sant’Anna no distante ano de 2008. Precisando de umas aspas para terminar uma matéria sobre Tião, tive a juvenil (e infeliz) ideia de perguntar se ele não achava Tião um dos mais importantes poetas mineiros da atualidade. Do outro lado da linha do telefone, com aquele vozeirão que lhe era típico, o escritor, irritado, disparou: “Nada disso. Coloca aí na matéria: não tem desse papo que o Tião ser um dos mais importantes poetas mineiros, não. Ele é um dos mais importantes poetas brasileiros”.
Sérgio tinha razão. E “Antologia mamaluca”, que será lançada neste sábado na Livraria Quixote com a presença do autor, confirma a opinião do grande escritor carioca morto em 2020. A antologia, que reúne trabalhos selecionados dos livros “Última carta da América”, “A cidade de Deus”, “Finis Operis”, “Zovos”, “O suicídio do ator”, “Serenata em B menor”, “A velhice do poeta marginal”, “Papéis higiênicos”, “Poesias e Aurea Mediocritas”, é prova cabal da perenidade da poesia de Sebastião Nunes, nascido em Bocaiúva e morador do bairro Santo Antônio, em BH.
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Avesso a entrevistas, o poeta de 87 anos conversou com o Pensar. Leitor obsessivo — nos últimos anos ele descobriu as maravilhas do livro digital e está sempre com o Kindle na mão —, Tião não perdeu um centímetro do seu conhecido espírito combativo. Num tempo em que o melindre se tornou regra do debate público brasileiro, com todos, o tempo todo, medindo as palavras com medo de ofender algum grupo ou facção literária, Tião perde a pele, mas não perde a ironia. E em um dos momentos da conversa dispara: “O politicamente correto está matando tudo, da burrice à inteligência, com a colaboração eficientíssima da internet e dos assim autonomeados influenciadores” .
Leia, a seguir, trechos da entrevista de Sebastião Nunes ao Estado de Minas.
No prefácio do livro você escreve: “Cheguei a dez livros de poemas que posso chamar de verbo-visuais, nenhum igual ao anterior ou ao subsequente, numa teimosia de asno em busca de originalidade em relação a mim mesmo. Quando percebi que estava prestes a morder meu próprio rabo, isto é, a voltar ao primeiro, parei de experimentar, me declarei ex-poeta e nunca mais produzi um único verso ou poema verbo-visual. Isso foi em 1989”. Você nunca mais escreveu poesia mesmo?
Não, nunca, em tempo algum. Às vezes, a ideia me passava pela cabeça, mas eu a descartava prontamente. Foi um divórcio sem ódio, mas um divórcio pra valer. Voltando bem lá atrás, no início de tudo, nunca pude esquecer duas coisas que me acompanharam ao longo da vida: primeiro, como é difícil você ser original, quero dizer, ser você mesmo, ter voz própria; segundo, como é difícil ter certeza de que não está copiando alguém. Conheci muita gente que se julgava original e criativo e, no entanto, copiava descaradamente contistas ou poetas, sem se dar conta do que estava fazendo, pois é como uma doença grave, uma cegueira para o plágio, para a cópia não proposital. Meus primeiros poemas tinham a assinatura de Drummond, João Cabral, Joaquim Cardozo, Mauro Mota, e foi preciso que certo dia Humberto Werneck, meio sem jeito, embora com extrema delicadeza, me dissesse que eu estava plagiando João Cabral, num longo poema em redondilha maior que tinha como título “Auto do bode enfeitiçado”. Pra você ver como a gente é capaz de ficar completamente cego sem dar por isso. Essa cegueira explica minha busca incansável pela originalidade, pela marca pessoal, que só consegui alcançar depois de muitos anos de trabalho, o que, aliás, explica a estreia tardia, quase aos trinta anos. O mais espantoso de tudo – e permita a um poeta macróbio à beira da caduquice ser um tanto prolixo –, o mais espantoso de tudo é a quantidade de guetos que envolve a literatura. O mais notório deles, estritamente político e devidamente massacrado pelos nazistas, pelo tempo e pela história, é o de Varsóvia, basta procurar no Google para conhecê-lo melhor. Mas a literatura só sobrevive por causa dos guetos, chame você de gueto, escola, panelinha – como preferir. Fora deles, só os gênios. E quantos gênios tivemos na literatura brasileira? Três: Guimarães Rosa, Augusto dos Anjos e o gaúcho Qorpo Santo.
No poema “Enfisema Pulmonar”, escrito quando seu pai morreu, você afirma que ele sempre quis que você escrevesse como Guerra Junqueiro, único poeta que ele admirava. Você gosta da poesia do século 19? De Olavo Bilac?
Meu pai era, acima de tudo, anticlerical. Daí sua admiração por Guerra Junqueiro, autor de “A velhice do Padre Eterno”, poema que adorava. Quanto a mim, nunca tive restrição alguma a qualquer poeta, desde que fosse bom, caso de Bilac, a despeito de tendência, escola ou época. Seu poema “Língua portuguesa” é magnífico, aquele que hoje ninguém mais lembra e começa assim: “Última flor do Lácio, inculta e bela, / és, a um tempo, esplendor e sepultura...” Sempre gostei de Gonçalves Dias, e considero uma das obras-primas da poesia brasileira o “Y-Juca-Pyrama”, que me comove sempre que o releio. Castro Alves nem tanto, era panfletário demais, mas Alphonsus de Guimaraens é um poeta notável, assim como Bernardo e sua delícia pornô “Elixir do Pajé”, que editei pela velha Dubolso com o apoio de Romério Rômulo, autor da introdução, e ilustrações de Fausto Prats. Foi a primeira edição assinada por uma editora, já que todas as outras eram clandestinas até 1980, acho. Tivemos tanta ilusão com essa edição que pensamos ficar ricos com ela, imagine só. Loucura poética, é claro.
Tião, você acha que o politicamente correto matou a poesia?
O politicamente correto está matando tudo, da burrice à inteligência, com a colaboração eficientíssima da internet e dos assim autonomeados influenciadores. É absurdo você ter de pensar “posso escrever e publicar isto?” quando pensa num palavrão. Bunda, pode? E caralho? Nas redes sociais pode tudo, inclusive vender pornografia infantil. Se alguma vez existiu a “casa-da-mãe-joana”, olha ela aí, ao vivo e em cores, num vale-tudo que não sei no que dará e qual será seu futuro. Certa vez, no velho Suplemento Literário de Minas Gerais quando o Murilo Rubião era diretor da Imprensa Oficial e Duílio Gomes secretário do SL, Aires da Mata Machado, assessor do Murilo na época, censurou um conto do escritor Luís Gonzaga Vieira, por conta de uma palavra que não lembro mais e nem era tão ofensiva. Fui reclamar com Murilo que contou a Aires, que me respondeu com quatro pedras na mão: “Você vai entender minha posição nem que seja no inferno!”. A discussão rendeu o poema “Epígrafe interessantíssima”, que saiu em “Poesias”, no primeiro volume da “Antologia Mamaluca”. Na época, o redator do SL era o Jaime Prado Gouvêa, que selecionava as matérias, eu diagramava e devolvia pra ele, e o Lucas Raposo se encarregava de dar forma definitiva aos meus rabiscos nas oficinas do jornal informativo Minas Gerais, que encartava o SL.
Sua geração foi combativa e enfrentou a ditadura e os militares. Muita gente foi morta. Qual o balanço que você faz disso tudo? Como vê a política brasileira hoje?
Nas gerações mais antigas, era comum os escritores se tornarem céticos na velhice. Comigo não aconteceu isso. Em março de 1964, eu estava de férias em Bocaiúva, comemorando ter passado no vestibular de direito, na UFMG. Quando voltei, o golpe tinha acontecido. No terceiro ano da faculdade entrei para a AP (Ação Popular, grupo de esquerda ligado à Igreja Católica), na qual militei até acontecer a reunião no porão do bairro Floresta, quando, por covardia ou comodismo, optei pela luta literária e individual. Olhando de longe, não me arrependo, a esquerda era muito imatura para uma revolução armada. Meu irmão Etelvino, dez anos mais novo e estudante de engenharia, foi levado de carro por mim numa madrugada pro Rio de Janeiro e deixado num apartamento vazio na Tijuca. Antes, fugindo da repressão, ele tinha ficado escondido quinze dias na casa de Murilo Antunes e outros quinze no apartamento de Sérgio Sant’Anna. Só voltei a ter notícias dele quatro anos depois, quando já morava em São Luís do Maranhão, criando peru pra vender a hotéis, e pouco depois passaria a trabalhar com Flávio Dino, então no PCdoB. Foi o mais perto de mim que a ditadura chegou. Ah, esqueci um detalhe: leitor voraz, Etelvino levou pro barracão onde morava em BH uns quatrocentos livros meus, que a repressão levou e nunca mais vi, é lógico. Acho a política atual mergulhada em podridão, salvando-se poucos, se é que.
Uma pergunta talvez piegas: você vê algum futuro para o Brasil?
O Brasil? Não tem futuro. Está condenado ao terceiro-mundismo enquanto não for dividido em pelo menos vinte países menores, mais governáveis. Vinte é pouco? Talvez quarenta. Quem sabe uma espécie de União europeia tropical funcionasse de modo responsável. Alguém já sugeriu que meia dúzia de bombas poderosas, detonadas simultaneamente no Congresso numa sessão conjunta da Câmara e do Senado numa tarde de quarta-feira, funcionaria melhor. É uma ideia a ser acarinhada, acariciada, paparicada e, quem sabe, executada. Enfim, me parece que a solução caseira para o Brasil teria que ser algo do tipo. Grande, engraçada e poderosa. Derramaria muito sangue inocente? Besteira. Só no Rio de Janeiro as milícias matam muito mais do que isso num dia útil qualquer.
Como você vê a esquerda hoje?
A que esquerda você se refere? Se existe, onde se esconde? E fazendo o quê? No meu tempo (essa história de “no meu tempo” é mais velha que a serra), as pessoas viviam e morriam politicamente, nas ruas e nos porões, como o próprio sobrinho do Aires, José Carlos da Mata Machado, assassinado friamente num buraco qualquer. Me lembro de uma reunião num porão no bairro Floresta, em BH, quando uma moça desconhecida disse pra nós, esquerdistas militantes, que tínhamos sido convocados, mais ou menos o seguinte: “Se quiserem seguir com a gente, na clandestinidade, vão ter de esquecer tudo, emprego, família, amigos. De agora em diante só vai existir o partido. Em tudo deverão obediência à direção do partido. Se tiverem de matar alguém, matarão, seja quem for.” Os que toparam foram pro Araguaia e morreram lá, executados a sangue frio pelo Exército. Naquele tempo a esquerda existia. E a direita também. Não esses arremedos de hoje. Ainda bem que optei pela literatura, que nunca fedeu nem cheirou e tem sangue de barata.
Lembro bem que no ano passado você estava lendo, e relendo, Kafka obsessivamente. Outro dia, você comentou comigo que estava encarando, pela enésima vez, “Guerra e paz”. Pergunto: o que você aprendeu com Tolstói? Lê autores brasileiros contemporâneos? E romances policiais? Ainda gosta de Charles Bukowski?
Sempre fui um leitor feroz. E ainda leio Bukowski, agora cartas e biografias. Através dele, descobri ano passado John Fante e seus excelentes romances. Ele também me deu a chave para a ficção de Sylvia Plath, de quem eu só conhecia a poesia. E para Carson McCullers, Benjamin Black e Céline. Também resolvi nos últimos anos dar uma vasculhada em Kafka, lendo e relendo dele tudo que encontrei, dos diários às cartas, às biografias e à ficção integral. Desde os vinte anos sou leitor de Kafka, quando publicaram um conto dele no Brasil, acho que “A metamorfose”, e o romance (sic) “O castelo” na Argentina. Acabei de reler, de fato pela enésima vez, “Guerra e paz”. Me escandaliza como Tolstói consegue transformar personagens de ficção em pessoas de carne e osso, tipo Pedro Bézoukhov, André Bolkonsky e Natália Rostova. Também releio sempre Philip Roth. “O avesso da vida” é o livro atual, junto com duas biografias. Raymond Chandler e Georges Simenon são paixões permanentes. Li tudo de Chandler, inclusive as cartas e uma biografia. É espantoso como um ótimo roteirista de Hollywood, rico e paparicado, tenha preferido se enfurnar dentro de casa com uma mulher dezoito anos mais velha e fazer dela, como ele mesmo escreveu, numa carta a seu editor inglês, “sua razão de viver, seu único alento.” Vai ser apaixonado assim na casa do caralho. Quando ela morreu, já com mais de oitenta anos (ele passara muito dos sessenta) escreveu duas cartas devastadoras e se entregou, definitivamente, à bebida nos pubs londrinos. Faz parte da loucura dos escritores, não faz? Mas leio tanta gente diferente, e ao mesmo tempo, que não dá pra relacionar tudo. Mas leio tanta gente diferente (ando na cola atualmente de uma porção de europeus), novos ou nem tanto, e ao mesmo tempo, que não dá pra relacionar tudo.
E os autores contemporâneos?
Quanto a autores brasileiros contemporâneos, quase nada. Preguiça, má vontade, talvez desconfiança. Mas acabo de ler as cartas de Caio Fernando Abreu, um tanto pela morbidez de saber como ele conviveu com a Aids, doença misteriosa na época, para a qual perdeu vários amigos. É uma leitura fascinante, embora prejudicada pela incontornável megalomania do Caio. Recentemente, contudo, há alguns anos, creio que de 2018 pra cá, estou em contato permanente, ou quase, com o artista multifacetado paulistano Gustavo Piqueira, que mistura literatura, história do livro e artes gráficas de uma forma não só extremamente inteligente e criativa como originalíssima, em obras que o tornam único em meio à pasmaceira literária brasiliana.
No poema “Blablabá ecumênico” você escreve: “Você vai juntando, com os defuntos e os livros, um punhado de verdades ao longo da vida. Essas verdades te corroem como ratos e, se não tomar cuidado, você acaba virando um mesquinho ditador de boas maneiras literárias. O melhor método para evitar tal desastre é fazer uma enorme salada de verdades e mentiras, se é que existem mesmo verdades e mentiras”. Como você vê a crítica literária? Lê as teses de doutorado escritas sobre a sua obra?
Crítica? Que crítica literária? Crítica existia no século passado, quando existia gente que nem Fausto Cunha, Antonio Candido, Alfredo Bosi, Afrânio Coutinho, Agrippino Grieco, ah que saudade do cinismo do velho Agrippa! Quanto a teses, não, não leio, se é que alguém perde tempo com esse tipo de leitura.
Muitos poemas seus começam com epígrafes: algumas verdadeiras, outras inventadas. Poderia explicar por que faz isso?
Porque sempre fiz falsificações. Sou um falsificador nato. Que diferença faz quem disse isto ou aquilo? Se entrou na moda por causa da internet não é culpa minha. Se não fosse válido, André Gide não teria escrito “Os moedeiros falsos” nem fundado a editora Gallimard, que publicou inclusive Albert Camus, autor de “Calígula” e “O mito de Sísifo”, duas maravilhosas falsificações. Para ter uma ideia, Calígula termina com o próprio caído sob uma chuva de punhais e, ressoando para a eternidade, onde nunca deixará de ressoar, a frase “Ainda estou vivo!” Sísifo é aberto com esta delícia de voz paradoxal: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio.”
Numa dessas citações inventadas, você recorre a Shakespeare, que teria escrito: “Ora, não me encham o saco! Vocês sabem muito bem que um poeta não se faz com regras ou regulamentos, mas com dribles curtos e passes longos!". Você é atleticano roxo, seu amigo Sérgio Sant’ Anna não perdia uma partida do Fluminense. Existe uma relação entre a literatura e o futebol?
Quem foi Shakespeare? Ninguém sabe. Um ator provinciano semianalfabeto teria escrito tantas obras-primas? É duro acreditar nisso. Há um punhado de anos foi feita uma enquete sobre a autoria das obras de Shakespeare. Foram convidados a votar e justificar seu voto dez especialistas. Dos dez, quatro admitiram que o autor era o cara de Stratford-upon-Avon, William Shakespeare, que largou sua terra para tentar a sorte como ator em Londres. Os outros se dividiram entre Francis Bacon, Edward de Vere, 17º Conde de Oxford, Christopher Marlowe e William Stanley, 6º Conde de Derby. Não ponho a mão no fogo por nenhum deles, mas talvez ficasse com Edward de Vere, por ser rico, culto, viajado e estar em plena atividade na virada dos séculos 16/17. Futebol é uma arte, hoje mais importante do que literatura. Sérgio, e seu filho André Sant’Anna estão entre os torcedores fanáticos do Flu, assim como o polêmico Nelson Rodrigues, autor de tanta peça da maior qualidade e de crônicas memoráveis. José Lins do Rêgo era flamenguista roxo. Coelho Netto era Fluminense também, sendo que seu filho Preguinho, cujo nome completo era João Coelho Netto, jogou no Flu e na seleção brasileira, além de praticar outros nove esportes.
Em 2011, quando o Millôr Fernandes completou 88 anos, você escreveu a crônica “Millôr, o maior escritor sem estilo do mundo”. Muita gente aproxima sua obra à dele. Mas eu também, às vezes, identifico o seu estilo corrosivo, sua ironia, com um conterrâneo seu: o Henfil. Faz sentido? Você conviveu com ele?
Antes de falar do Henfil, preciso dar uma pincelada em cinema, pintura e música, três de minhas paixões mais antigas, que influenciaram – as duas primeiras – todo o meu trabalho. Cinema, pra começar. Atrás da casa de meu tio Costinha, na Rua Guajajaras, e já no quarteirão da Augusto de Lima, ficava o cine Roxy que eu, a partir dos quinze anos, frequentava diariamente. O porteiro era conivente, claro, com o garoto que via todos os filmes, proibidos para menores ou não. Foi lá que vi “As mãos de Orlac”, que me obrigou a dormir anos com a mão direita debaixo do travesseiro, de medo que o diabo viesse me apertar a mão durante a noite. Lá conheci Bergman, Buñuel, os italianos, os franceses, os japoneses e o faroeste de primeira linha. Quando me mudei pro Rio, em 1973, vi certa meia-noite, no Cinema 1, em Copacabana, o excelente “Ensina-me a viver” (“Harold and Maude”, no original), sendo considerado o 45º filme mais relevante para o American Film Institute numa lista de cem. Durante o filme, Harold, obcecado pela morte, aparece morto oito vezes. Há cerca de dois anos vi “Maudie”, coprodução Irlanda/Canadá, que conta a história de Maudy Lewis, uma artista folclórica canadense que se torna famosa na vida real. Vi duas vezes e verei outras, mas o importante é a semelhança de nomes. Há uns dez dias descobri um autor/diretor fantástico, Wes Anderson, e seu “A crônica francesa”, um hino de amor ao cinema e ao jornalismo, de quem sem dúvida quero ver outros. E basta de cinema, mas é bom não esquecer Godard, o pai de todos os cineastas vivos e mortos. Nem Glauber. Sobre pintura, algumas pinceladas. Estudei bastante história da arte e pintei durante vários anos até descobrir que não era minha praia. Nem preciso citar uma dúzia de artistas pra explicar meu encantamento ao longo dos séculos com o que mãos, olhos e talento foram capazes de fazer. Atualmente gosto de citar o grafiteiro inglês Banksy e a dupla formada pelo búlgaro Christo e e a marroquina Jeanne-Claude, famosos por embrulhar monumentos. Mas vou ficar com William-Adolphe Bouguereau o pintor acadêmico mais importante do século 19. No início do século 20, sua preocupação cada vez maior com o acabamento minucioso e acetinado, seu estilo basicamente narrativo, sua sentimentalidade e seu apego à tradição o tornaram para os modernistas paradigma de uma sociedade burguesa decadente lambida, açucarada e sentimental.
Ao longo dos anos, contudo, alguns artistas importantes e de vanguarda passaram a valorizá-lo. Van Gogh desejou pintar tão bem (sic) quanto ele, Salvador Dalí o chamou de gênio e Andy Warhol comprou uma de suas obras. Por outro lado, e apenas pra comparação, se você amplia duas pinturas ao máximo, seja Bouguereau, Picasso ou um abstracionista, vai obter no fim um conjunto de pontos pintados. Cadê a pintura que estava aqui? Fudeu-se – e ponto final. Mas você não amplia ao infinito um poema. Não faz o menor sentido. Estou brincando? Claro que estou. Mas cada época tem os artistas que merece. Sobre música. Quando tinha entre dezoito e vinte anos tive uma úlcera duodenal. Um outro tio, Antônio, que sofreu a mesma doença, cuidou de mim e me obrigou a ficar um mês inteirinho de cama, em Bocaiúva. Durante esse tempo, nenhum de meus vários amigos me visitou. Passava o dia ouvindo no rádio bolero, samba-canção, bossa nova, coisas do tipo. Até que um dia fiquei de saco cheio, desliguei o rádio e pensei que devia haver alguma coisa diferente em termos de música. Não era possível que ficasse naquele nhem-nhem-nhem eternamente.
Quando voltei pra Belo Horizonte visitei uma loja de discos e descobri Bach. Daí em diante foi uma questão de reconhecer as infinitas opções que a música oferece, popular ou erudita. Atualmente gosto mais da erudita. Sobre Henfil. Ele estudava administração e eu direito. Mas a gente tinha algum contato por causa de nossa opção política. Não era amizade, ele fazia charges e eu, na época, só escrevia. Estive na casa dele em BH uma vez, e outra em seu apartamento no Rio. No Pasquim a gente não se encontrava. E foi só.
No poema “O poeta pelado”, que abre o livro “O suicídio do ator (1977-1978)”, você tira sarro da vida literária brasileira. Mais tarde, já na década de 1990, você, para criticar a vida cultural brasileira sempre concentrada no eixo Rio-São Paulo publicou um pseudo-Mais!, da FSP e deu até entrevista. A vida literária brasileira ainda é regida pelas panelinhas?
Como respondi lá em cima, me parece que não existe mais vida literária. Todo mundo escreve, na internet ou em papel, todo mundo publica livros e tudo se resume a isso. Quando publiquei o pseudo-Mais! ou tive a ideia do caixãozinho de defunto, que mandei pra cento e vinte amigos, me custou uma nota e deu um trabalho desgraçado, essas coisas faziam sentido. Hoje não têm mais importância. Agora todo mundo faz o que quer o tempo todo. Inclusive escrever. Nosso problema agora é imaginar como vai acabar a vida humana na Terra. Atolada em lixo, destroçada por explosões nucleares ou de fome, quando o excesso populacional superar qualquer possibilidade de alimentar os novos bilhões de habitantes que vêm por aí. Ou, ao contrário, quando o mundo contiver apenas velhos brigando por pedaços de pão nos destroços de supermercados entregues à voracidade de ratos e moscas.
“Antologia mamaluca”
De Sebastião Nunes
Círculo de Poemas/Fósforo
296 páginas
R$ 99,90
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Lançamento: 21/3, às 11h, na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi) com a presença do autor em bate-papo com João Barile