LANÇAMENTO

Revista 'Centro' promove encontro artístico entre Brasil e Argentina

Tradutora e organizadora, Gabriela Albuquerque detalha como surgiu a publicação bilíngue, após viver seis anos em Buenos Aires

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Gabriela Albuquerque - Especial para o Estado de Minas

Um sorveteiro levando seu carrinho, sacolas plásticas e latinhas jogadas no chão na frente do Teatro Espanca, os pixos nas paredes de imóveis abandonados na Aarão Reis, o ruído do freio do ônibus que cruza o Viaduto Santa Tereza. Essas foram as últimas filmagens antes de partir para Buenos Aires, em 2018, onde vivi por seis anos. Lá atravessei uma pandemia, assisti às mudanças políticas de ambos países, acompanhei à distância pessoas morrerem e outras nascerem. Para quem migra é inevitável não sentir uma sensação de perda constante, a perda daquilo que se deixou e daquilo que, eventualmente, voltará a ser deixado caso retornemos ao país natal.
 
Nessa aparente terra arrasada, a tradução passa a operar não só como ferramenta para atravessar os dias, como também como um tesouro. Vamos guardando palavras, expressões, pequenos gestos que nos convocam. Se vive y se traduce, escreve a escritora argentina Laura Wittner em seu livro homônimo. Aqui, talvez, possamos propor um leve deslocamento: se traduce y se vive. Com a tradução podemos dar nomes às coisas, estabelecer relações e, quem sabe, nos emocionar com elas. Ao elaborar a linguagem, inventamos também a vida. Começamos a perceber os sons que se repetem, o movimento da língua ao pronunciar certas consoantes, as palavras que coincidem, mas que produzem sentidos diferentes. Nesse trânsito, entre idiomas e cidades, aquilo que parece do outro, surge como nosso. A tradução, então, nos faz reconhecer o que há de estrangeiro em nós.
 

Ao retornar a Belo Horizonte, em 2024, a perda, aquela tão temida, se concretizou. Era preciso tirar o pó dos armários e me reencontrar com uma cidade que já não conhecia e, sobretudo, com meu próprio idioma. Ainda que uma língua seja, geralmente, comum àqueles que habitam um mesmo território, cada pessoa cria a sua: um idioma afetivo, feito de modismos, sotaques e história. Meu português estava totalmente espanholizado e, ao invés de querer me distanciar disso, quis fazer o contrário: trazer o espanhol para o cotidiano e, assim, amenizar a partida convivendo com textos, aproximando autores, isto é, traduzindo.
 
Durante esse processo, surge “Centro”, revista bilíngue de literatura contemporânea que, por meio da literatura e das artes visuais latino-americanas, acolhe movimentos e perdas. Entre o português e o espanhol, sua primeira edição promove um encontro entre Brasil e Argentina. A revista apresenta contos da escritora Marta Neves, poemas de Renato Negrão e um texto de Pedro Kalil sobre e para Urik Paiva, escritor e artista cearense que morou e produziu parte de sua obra em Belo Horizonte, falecido em 2025. A publicação também inclui poemas dos argentinos Beatriz Vignoli e Mariano Blatt, a maioria ainda inéditos no Brasil, e conta com uma entrevista sobre a obra e vida da escritora argentina Cecilia Pavón, com apresentação da pesquisadora Eduarda Rocha. Isso, para além de reproduções de obras dos artistas Giulia Puntel, Gal Vukusich, Juan Ojeda, Pedro Neves e Tiffany Castro. 

GABRIELA ALBUQUERQUE é tradutora e organizadora da revista Centro

“Centro - Revista Bilíngue de Literatura Contemporânea”

Organização e tradução de Gabriela Albuquerque
Assistência editorial de Flávia Péret 
Projeto gráfico de Rita Davis
148 páginas
 Lançamento em Belo Horizonte neste sábado (9/5), de 12h às 15h, na Livraria Jenipapo (Rua Fernandes Tourinho, 241, Savassi) com a presença de autores e artistas. Distribuição gratuita de cem exemplares. 

Na revista 

 
Beatriz Vignoli (Rosário, Argentina)

“O pincel” 
a Pat Roldán 

Cada rosto que encontro 
vem escrito em idioma estrangeiro 
que não sei se devo aprender. 
Os rostos que não sou. Milhões 
de nomes que não fui: a outridade 
é ausência de mim. E não há amor 
humano maior do que vê-los 
passar, enquanto espero 
que o tempo acabe.

Mariano Blatt (Buenos Aires)

“A lata”

              Aqui 
sentado numa lata de tinta virada 
com um gravetinho deste tamanho na boca 
             estou 
olhando os cavalos 
com uma mão e com a outra 
acariciando meu cabelo. 
Às vezes deus aparece 
e coloca cada coisa em seu lugar

Renato Negrão (Belo Horizonte)

“Antes”

antes que eu fique mudo 
antes que eu tente de novo 
antes do próximo eclipse 
antes que a grama cresça
antes que a água da chuva toque o solo 

antes do próximo intervalo comercial 
antes do jornal 
entre o toque da chave na ignição 
e o motor entrando em combustão 
antes que o olho soletre as palavras 
que a boca não diz no silêncio entre a vogal
 e a conso-
antes que o ar 
que respiro entre no nariz 

antes que a trava vire treva 
antes que não haja futuro 
antes que não seja passado 
antes que eu pare no meio 
antes do final do recreio 

interrompo o tempo e te digo 
te amo e quero que fique comigo

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