Angelo Oswaldo revisa o barroco mineiro com olhar decolonial
Livro "Geraes: arte barroca em Minas" combina clareza didática, precisão descritiva e alta voltagem poética, em frases que produzem imagens pictóricas
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Guiomar de Grammont - Especial para o Estado de Minas
Conhecido como um dos mais importantes especialistas no Barroco mineiro, curador da exposição Brasil Barroco: Entre o Céu e a Terra que aconteceu no Petit Palais, em Paris, entre 1999 e 2000, Angelo Oswaldo de Araújo Santos ainda não tivera suas reflexões sobre o tema reunidas em uma publicação. Apenas 25 anos depois desse evento memorável, que tornou o Barroco brasileiro ainda mais conhecido e admirado na Europa, veio à luz o livro “Geraes: arte barroca em Minas”, que reúne 17 textos, alguns inéditos, outros, produzidos para exposições e museus, em diferentes momentos da trajetória do autor.
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Afirmando o Barroco “como chave interpretativa privilegiada da sociedade colonial e de suas permanências no Brasil contemporâneo”, o livro é sobretudo delicioso de ler, combina com maestria o talento ensaístico do jornalista experiente e a erudição do especialista em preservação do patrimônio histórico. A escrita de Angelo Oswaldo combina clareza didática, precisão descritiva e alta voltagem poética, em frases que produzem imagens pictóricas: “A paisagem montanhosa de Minas seduziu Guignard, a ponto de seu desenho prescindir da linha da montanha, para surpreendê-la nos contrapontos edificados que se espalham sobre o papel, como as palavras na constelação poética de Mallarmé.” Tal estilo torna o volume simultaneamente acessível a um público amplo e fértil para pesquisadores, que encontram ali interpretações finamente articuladas entre história, crítica de arte e vivência do espaço urbano.
A obra é organizada em duas partes – “Arte barroca brasileira” e “As bulas e as fábulas: preservação e inspiração” – o que já indica o duplo movimento entre análise histórica e reflexão sobre memória e atualidade. Os ensaios percorrem desde panoramas mais amplos, como a “Origem e originalidade da arte brasileira”, a análises mais aprofundadas de casos particulares, como a Matriz de Conceição do Mato Dentro e os Jardins Mineiros, de Ouro Preto a Inhotim.
O volume, bem organizado pela editora e pesquisadora Maria G.A. de Andrade, neta de Rodrigo Melo Franco de Andrade, exibe vasta iconografia e índice onomástico. A própria edição da Relicário, com capa, projeto gráfico e diagramação de Anderson Junqueira, é um objeto de arte que se aproxima do leitor de modo sensorial e documental. Assinada por Silviano Santiago, a belíssima apresentação inscreve o livro em um circuito de reflexão crítica que sublinha a densidade literária e teórica do projeto.
Um dos eixos centrais do livro é a análise da religiosidade popular e dos modos como a sensibilidade devocional se inscreve na pedra, na talha e na pintura dos templos coloniais. Angelo Oswaldo examina festas, imagens, práticas de culto e figuras de santos como pontos na tessitura social: estética e fé se imbricam na construção de uma identidade mineira.
A principal contribuição da obra aos estudos sobre o Barroco brasileiro, é a ênfase no decolonial, apresentando o diálogo entre a matriz cristã europeia e a cultura africana não como justaposição, mas como processo de mestiçagem simbólica que reconfigura modelos importados. A originalidade dos artistas luso-brasileiros e afrodescendentes, longe de derivar apenas da cópia, aparece como invenção ativa de formas, cores e espaços que traduzem tensões: o Barroco mineiro nasce da violência das clivagens coloniais, transformadas artisticamente em reinvenções simbólicas. A contribuição africana é elemento que reconfigura imagens, gestos e sensibilidades, produzindo uma linguagem devocional específica das Geraes.
O livro retoma a centralidade de Aleijadinho e Mestre Ataíde na consolidação de um cânone do chamado Barroco mineiro, mas o faz a partir de uma perspectiva que enfatiza o contexto e a rede de colaboradores. Ao invés de reforçar o mito isolado do “gênio”, como a maioria dos livros sobre Aleijadinho publicados no país, os ensaios relacionam as obras do escultor à vida religiosa das vilas, aos comitentes e às confrarias, bem como às exigências litúrgicas e urbanísticas do período.
Em “As bulas e as fábulas: preservação e inspiração”, sobressai a dimensão política da atuação de Angelo Oswaldo como gestor, curador e intelectual público ligado a Ouro Preto (é o prefeito da cidade até 2028) a instituições de cultura. Os ensaios narram a “aventura” da preservação do barroco mineiro, que vai do impacto das viagens modernistas aos movimentos preservacionistas do século 20, articulando legislação, tombamentos e disputas pelo projeto de nação. Ao projetar a força do Barroco no presente, o autor relaciona o repertório colonial a práticas artísticas e urbanas contemporâneas, sugerindo que o barroco é uma forma de sensibilidade que atravessa séculos.
A principal novidade historiográfica de “Geraes: arte barroca em Minas” está em articular, num mesmo gesto, a história da arte, a experiência vivida em Minas e a discussão contemporânea sobre o próprio rótulo “Barroco mineiro”, complexificando um campo marcado por controvérsias. Ao mapear quatro séculos de permanências e transformações, o livro convida o leitor a reconhecer no barroco não um estilo morto ou “período glorioso”, mas uma forma de sensibilidade histórica, social e política que atravessa séculos e ainda modela imaginários, cidades e afetos em Minas e no Brasil. A obra se aproxima dos debates recentes que problematizam o próprio rótulo “Barroco mineiro” e o lugar heroico atribuído a Aleijadinho. Assim, o livro equilibra valorização histórica e sensibilidade crítica, reconhecendo a força simbólica do mito sem abdicar da análise contextual.
Angelo Oswaldo menciona a rejeição estética à arte mineira do século 18, na perspectiva dos visitantes estrangeiros do século 19, e também em textos pouco conhecidos de João do Rio, em princípios do século 20. O cronista carioca produz juízos que mostram visivelmente sua perturbação diante dos Passos da Paixão, em Congonhas. Angelo Oswaldo recupera o espírito que erigiu o Aleijadinho como o mais importante artista brasileiro do período colonial. Nesse movimento decisivo de mudança do olhar, iniciado pelo modernismo, aquilo que fora depreciado por viajantes do século 19 passa a ser celebrado como patrimônio nacional. Porém, Angelo não deixa de inscrever o legado do artista em discussões contemporâneas sobre estilo, nação e memória, evitando leituras simplificadoras.
O livro reafirma Aleijadinho como “figura central do Barroco luso-brasileiro”, ecoando formulações de Germain Bazin, mas desloca essa centralidade para um horizonte mais amplo de artistas, templos e comunidades de fé. Em vez de um herói isolado, o escultor aparece como síntese de processos culturais que envolvem a mineração, o urbanismo setecentista e a formação de uma sensibilidade mineira específica. A abordagem sublinha a dimensão de religiosidade popular presente na obra de Aleijadinho, compreendendo suas esculturas e conjuntos como dispositivos de mediação entre fiéis e mistério cristão. As imagens são lidas como “corpo, alma e emoção” do barroco, a expressividade dramática participa da catequese e da experiência sensível do sagrado.
Nesse quadro, Aleijadinho é visto em diálogo com festas, procissões, confrarias e com a circulação de símbolos europeus reinterpretados no espaço colonial. A leitura ressalta ainda os atravessamentos da cultura africana e das camadas populares na obra do artista, em uma reconfiguração de modelos eruditos em práticas e visualidades próprias.
Em “Geraes”, Aleijadinho é também ponte entre passado e presente, funcionando como referência para pensar a permanência do barroco na arte e na paisagem de Minas. O autor coloca em “diálogo” o mestre setecentista e artistas contemporâneos, que prolongam o gesto barroco em novas linguagens. Dessa forma, o legado de Aleijadinho não aparece congelado em museu, pelo contrário, é força ativa, retrato em movimento. Na leitura de Angelo Oswaldo, o escultor é, ao mesmo tempo, memória, problema crítico e horizonte de futuro.
Angelo Oswaldo interpreta a influência africana nas obras de Aleijadinho como um atravessamento estrutural da formação do barroco mineiro, e não como mero “acréscimo” exótico a um modelo europeu pré-definido. A contribuição africana aparece como componente constitutivo da cultura colonial, incidindo tanto nas formas artísticas quanto nas práticas de devoção e na própria experiência urbana.
Nos ensaios sobre arte sacra, Angelo analisa como irmandades negras, santos “africanos” e formas de culto dos cativos e libertos interferem na produção e recepção das imagens, inclusive naquelas ligadas ao círculo de Aleijadinho. A influência africana se manifesta, assim, na escolha de temas, na gestualidade das figuras, na intensidade afetiva das cenas e na maneira como essas obras são apropriadas por diversas comunidades. A obra de Aleijadinho participa de uma experiência coletiva marcada por mestiçagem, hierarquias e resistência.
No livro, Aleijadinho, Guignard e Niemeyer são descritos como figuras cativantes, não como ícones congelados. Esse foco em pessoas, trajetórias e afetos, combinado à erudição e iconografia abundante, renova a escrita sobre o Barroco mineiro, tornando-a menos monumental e mais dinâmica e relacional.
“Geraes: arte barroca em Minas” se afirma, assim, como obra de referência para estudos sobre arte barroca, patrimônio e cultura mineira, ao condensar um percurso intelectual singular em torno de um dos conjuntos mais complexos da arte colonial brasileira.
GUIOMAR DE GRAMMONT é escritora e professora da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), autora de “Aleijadinho e o Aeroplano: paraíso barroco e a construção do herói colonial”
“Geraes: arte barroca em Minas”
De Angelo Oswaldo de Araújo Santos
Relicário
312 páginas
R$ 85,90
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Trecho
“Angelo Oswaldo recupera o espírito que erigiu o Aleijadinho como o mais importante artista brasileiro do período colonial. Nesse movimento decisivo de mudança do olhar, iniciado pelo modernismo, aquilo que fora depreciado por viajantes do século 19 passa a ser celebrado como patrimônio nacional.? Porém, Angelo não deixa de inscrever o legado do artista em discussões contemporâneas sobre estilo, nação e memória, evitando leituras simplificadoras.”