LANÇAMENTO
Ouriço: a revista que respira o ar sujo de tudo chega ao número 4
Editores reforçam a publicação como espaço de convivência da poesia, crítica e reflexão e explicam a escolha do poeta Sebastião Uchoa Leite como patrono
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07/05/2026 16:57
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Ana Martins Marques, Daniel Arelli e Gustavo Silveira Ribeiro - Especial para o Estado de Minas
A revista "Ouriço", que alguns leitores do Pensar talvez já tenham encontrado por aqui em outras ocasiões, chega agora a seu quarto número. Fundada em 2020, ela nasceu de uma conversa entre amigos que, aos poucos, foi tomando a forma de um projeto editorial. Desde então, vem sendo publicada inicialmente pela editora Macondo, e desde o último número em parceria entre as editoras Relicário e Macondo. Acreditamos - ou esperamos - que a revista ainda mantenha viva uma aposta que nos acompanha desde o início: fazer conviver, num mesmo espaço, poesia, crítica e reflexão, sem estabelecer de antemão fronteiras muito rígidas entre essas práticas. A escolha do poeta pernambucano Sebastião Uchoa Leite como nosso patrono, também desde o primeiro número, talvez diga algo desse desejo, menos como referência estabilizadora (a que Sebastião, um verdadeiro ouriço, jamais se prestaria) do que como ponto de tensão e deslocamento.
Apresentamos agora o quarto número da revista, que, como os anteriores, se organiza em torno de um verso, desta vez do próprio Uchoa Leite: "respirar o ar sujo de tudo". Mas talvez seja mais justo dizer: em torno de um movimento sugerido por esse verso. Há aqui uma espécie de inclinação para fora: para a rua, para a cidade, para aquilo que não coincide com o espaço mais protegido da poesia. O que se exprime a partir desse verso - que, na obra de Uchoa Leite, sucede a experiência da doença e a intensificação da percepção do corpo e de seus limites que ela desencadeia - é um gesto de reabertura, nem sempre confortável, que passa pela exposição ao mundo tal como ele se dá, misturado, poroso, nem sempre "limpo".
Os textos reunidos neste número respondem a esse impulso de maneiras bastante diversas. Em comum, talvez, haja essa disposição de colocar o poema em contato com o que lhe é exterior - outras linguagens, outras experiências, outras formas de discurso. Não se trata tanto de ampliar o campo da poesia quanto de tensioná-lo, de ver até onde ele se sustenta quando deixa de funcionar como abrigo. Nesse sentido, o poema aparece muitas vezes como lugar de passagem, de contágio, de mistura.
Além de poemas inéditos, este número conta com textos críticos (e sobre a crítica), com poemas traduzidos e com uma entrevista com a poeta e artista visual Aline Motta. Temos a alegria de publicar também três poemas inéditos de Armando Freitas Filho, cuja presença neste número nos parece especialmente significativa. Sua escrita, tão atenta ao ritmo, ao corte e ao fôlego do verso, atravessa várias das questões que nos mobilizaram aqui. Soma-se a isso uma leitura crítica de seu último livro, que retoma, por outra via, esse mesmo problema do respirar - não apenas como tema, mas como condição do próprio fazer poético.
Talvez não seja exagero dizer que, de modo mais ou menos explícito, este número inteiro gira em torno dessa ideia: a de que o poema respira. Não apenas na voz, mas também na página, nos intervalos, nos espaços em branco, naquilo que o abre para fora de si. Pensar o poema assim implica também pensá-lo em sua relação com o leitor, com a cidade, com o tempo em que ele circula.
Aproveitamos para agradecer aos poetas, críticos e tradutores que confiaram seus textos à revista e acompanharam, com a paciência de sempre, o processo de edição. E também à Relicário e à Macondo, pela parceria contínua. E, não por último, ao Pensar, pela acolhida que tem dado à revista desde seu primeiro número.
Fica aqui, então, o convite aos leitores: que este quarto número da "Ouriço" possa ser lido como quem se expõe ao texto, a seus atritos, a suas aberturas. Talvez essa seja também uma forma de seguir respirando, juntos.
ANA MARTINS MARQUES, DANIEL ARELLI E GUSTAVO SILVEIRA RIBEIRO são editores da revista "Ouriço"
“Ouriço - Revista de poesia e crítica cultural (vol. 4)”
Edição de Ana Martins Marques, Daniel Arelli e Gustavo Silveira Ribeiro
Coedição Relicário e Macondo
196 páginas
R$ 99,90
Lançamento em Belo Horizonte neste sábado (9/5), às 11h, na Quixote Livraria (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi), com editores e colaboradores.
Quem está na “Ouriço”
Adriana Lisboa, Alberto Martins, Alessandro Romio, Alex Hamburger, Aline Motta, Ana Martins Marques, Anne Carson, Ângela Quinto, Angélica Freitas, Armando Freitas Filho, Arthur Lungov, Astrid Cabral, Beatriz Lemos, Bruno Alvarenga, Clara Kok, Claudia Cavalcanti, Claudia Roquette-Pinto, D. H. Lawrence, Daniel Arelli, Danila Gonzaga, Diuli de Castilhos, Dora Ribeiro, Édipo Ferreira, Eduardo Sterzi, Fabrício Corsaletti, Fabrício Marques, Gustavo Pacheco, Gustavo Silveira Ribeiro, Guto Lacaz, Hyam Yared, Inês Oseki-Dépré, Jean-Jacques Viton, John Berger, Josoaldo Lima Rêgo, Julia de Souza, Leila Melo Coroa, Leila Danziger, Lenág Carriou, Leo Gonçalves, Liliane Giraudon, Louis Zukofsky, Lúcia Ricotta, Ludimila Moreira, Marie-José Mondzain, Marcel Broodthaers, Marcelo Ariel, Marcos Siscar, Masé Lemos, Mônica de Aquino, Natália Agra, Nathália Lima, Nelly Sachs, Paula Abramo, Pedro Lucas Bezerra, Rafael Zacca, Renan Nuernberger, Renato Mazzini, Reuben da Rocha, Sam Shepard, Sebastião Uchoa Leite, Stéphane Bouquet, Veronica Stigger, Viviana Bosi.
Na revista
Angélica Freitas
“Ilusão n. 81”
Um livro de grande luminosidade, você
só consegue abrir uma fresta, ele já te
cega, uma luz que sai e parece faca, vem
e vem pra dentro da córnea. Vai ter que
ler assim, uma ou outra palavra, segurar
uma radiografia como anteparo a este
magnífico evento solar. Somente os bem
cegos poderão nos explicar tudo o que
existe lá dentro, voltaremos às rondas de
leitura com óculos escuros ao redor da
fogueira. Mais uma vitória da literatura.
Armando Freitas Filho (1940-2024)
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“Poesia e prosa”
A linha da poesia livre
pode ser sensível
ao vento
e o lance
de encontro ao céu
voa
com cortes súbitos
no espaço da página
não contando sua métrica
sem nenhum rigor silábico
a não ser aquele surpreendente
em ritmo, cor, sobressalto.
O risco da prosa marcante
caminha em linha reta
preenchendo
o tamanho da folha
virando-a
com outro fôlego
até que ela esgote
pisando sem saltos
na marcha escrita
com variantes evidentes
parecidos e diversos
tipos, alcances, pontos finais.
Danila Gonzaga
“Fronteiriça”
Atravessar em vão
a cortina metalúrgica
que me cerca
acompanhar com as mãos
o espaço no abraçar
dos dias corriqueiros
em que a água escorre: das folhas,
do chão, nas frestas
do globo ocular quando penso
e pensar é já estar
em par com o desejo
e com as fronteiras
que busco
colocar quando me deparo
com o profundo
descuido das feridas abertas
pela travessia que forço
na rasura do mundo.