Ivan Angelo, 90 anos: 'Cada um que está numa festa tem sua história'
Escritor mineiro completa 90 anos e celebra o cinquentenário do romance "A festa". Um dos marcos da literatura brasileira na década de 1970 ganhará nova ediçãp
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Rogério Faria Tavares - Especial para o Estado de Minas
Nascido, por acaso, em Barbacena (o pai era militar e se deslocava com frequência, a trabalho) em 1936, o escritor Ivan Angelo mudou-se, ainda criança, para Belo Horizonte, de onde são suas recordações mais antigas, como as da época da segunda guerra, um tempo de racionamentos, escassez e tensões. Estudante do Colégio Anchieta, desde cedo formou gosto pela leitura, o que, em poucos anos, acabou gerando outra afeição: pela escrita - que também nunca abandonou.
Ativo participante da vida cultural da capital mineira, acabou se enturmando com um grupo de amigos que, mais tarde, ficou conhecido como a ‘Geração Complemento’, por haver editado uma revista do mesmo nome. No time, Silviano Santiago, Heitor Martins, Ezequiel Neves e Theotônio dos Santos Junior, entre outros. A particularidade da geração, como mais tarde refletiria Ivan, é que ela era ‘transdisciplinar’ e não exclusivamente literária, chegando a incluir gente do teatro, como João Marschner e Carlos Kroeber, da dança, como Klaus e Angel Vianna, e das artes visuais, como alguns dos primeiros alunos de Guignard.
Logo dedicado ao jornalismo e à literatura, Ivan lançou em 1961, em parceria com Silviano, a coletânea de contos “Duas Faces”, editada pela Itatiaia dos irmãos Edison e Pedro Paulo Moreira. Não pararia mais. Transferindo-se para São Paulo em 1965, convidado para trabalhar no recém-fundado Jornal da Tarde, que fez história na imprensa brasileira, Ivan lançou em 1976 seu livro até hoje mais comentado.
Leia: Ivan Angelo: escritores homenageiam os 90 anos do escritor
O romance “A festa”, que completa meio século em 2026 e ganhará nova edição pela editora gaúcha Arquipélago, é considerado uma das mais importantes obras da década de 1970, período que viu surgirem ou se firmarem nomes como Antônio Callado, Ignácio de Loyola Brandão e Rubem Fonseca. Tido como um dos livros mais contundentes contra o estado de coisas instalado no país pela ditadura militar, não se limitou a denunciá-lo, trazendo também notáveis inovações no campo formal e da linguagem. Autor de outros romances (o mais recente é o ótimo “Vida ao vivo”) e coletâneas de contos, Ivan brilhou igualmente como cronista (escreveu na revista Veja por quase duas décadas) e chega aos 90 anos em plena vitalidade, preparando novas publicações e sendo reconhecido como um dos mais importantes escritores do país.
Ivan, você nasceu em Barbacena, porque era filho de militar. Mas a sua vida mesmo foi em Belo Horizonte. Como era a BH de sua infância e adolescência?
A Belo Horizonte da minha infância era a Belo Horizonte durante a Segunda Guerra Mundial. Como eu nasci em 1936, começava a guerra na Europa em 1937, 1938, 1939 e durou até 1945. Então, essa minha primeira infância foi nesse ambiente de falta de coisas, de racionamentos, de rádio transmitindo à noite notícias da guerra, uma transmissão direta da BBC que a gente ouvia. Depois fui estudar no grupo (escolar) em Santa Tereza, morava lá, meu pai era do quartel do 5º Batalhão. A gente vivia ali no Santa Tereza, via os armazéns sem todos os gêneros que poderia ter. Num armazém, por exemplo, faltavam açúcar, óleo, coisas básicas. Era uma infância com produtos muito naturais e meio rústicos, mas cheia de liberdades e brincadeiras. Era uma cidade agradabilíssima. A gente morava num bairro agradabilíssimo. Então, até o grupo escolar foi uma alegria
Como foi a descoberta do mundo?
Bom, o principal foi o grupo escolar. A escola primária, escola oficial pública, naquela época era muito boa. As professoras eram boas, as bibliotecas eram boas. Então, o acesso ao mundo cultural veio muito cedo porque a gente lia muito, era obrigado a ler histórias no grupo, fazer interpretações. A gente tinha uma vida, digamos, bem diferente do que é a escola hoje, eu acho. Eu tenho uma filha de 10 anos e eu sei, acompanho e sinto falta de mais literatura na vida dela do que eu tive naquela época. No grupo escolar, a gente estudava os grandes poetas, os grandes textos, tudo ainda com linguagem infantil, com a tradução um pouco mais simples, mas eram literatos. Hoje a gente vê aí um punhado de autores que, para mim, não dizem nada.
Minha primeira infância foi no Santa Tereza. Depois a gente mudou para o bairro da Renascença, que era um bairro mais operário, gente de um extrato mais simples. Santa Tereza, onde a gente continuava estudando, era mais classe média. A gente andava pela cidade de bonde e de ônibus para estudar. Era muito mais livre do que as crianças hoje têm direito de ser, elas não têm esse direito que a gente teve.
E a adolescência? Os amigos, quem eram?
Até chegar no início do mundo do trabalho, você falou que começou a trabalhar muito novo... Como o trabalho e o jornalismo entraram na sua vida? Comecei a trabalhar como contínuo numa repartição pública federal, Departamento Nacional de Estradas de Ferro, que pretendia construir alguns ramais ferroviários em cidades de Minas Gerais, como São Domingos do Prata–Nova Era, Itabira–Peçanha. Tínhamos essas obrigações de construir, mas nunca construímos nada, apesar de ser um Departamento de Estradas de Ferro.
Comecei muito cedo e, nessa repartição, como nas repartições públicas acontecem muitas vezes, a gente tinha tempo suficiente para ler. O primeiro contato com as letras, digamos, literárias, da produção de literatura, foi nessa repartição, ainda depois dos 13 anos. Na escola também tinha alguma, já no curso ginasial, chamava-se curso secundário, já tinha também alguma atividade de escrita. A gente tinha um jornalzinho da escola: um jornal mural, tínhamos o hábito das palavras. E, com os meus primos, eu contava histórias para eles, histórias que a gente lia no grupo escolar. Então, era um prolongamento da vida escolar. Contar histórias era um hábito dentro da nossa família. Isso nos mantinha, digamos, criativos, em contato com as ficções.
Eu passei a gostar de ficções muito novo, com 12, 13 anos. E, a princípio, eu lia romances de aventuras, “romanções”como “Mulheres de Bronze”... Não era propriamente uma literatura, mas nos mantinha o hábito de leitura. Só vim a trabalhar com uma literatura moderna, que me incentivava a escrever, a partir do contato com bons professores. Eles nos incentivaram e isso nos ajudou muito.
Em qual colégio, Ivan?
Colégio Anchieta. Eu estudava no Colégio Anchieta e também estudava lá um amigo que, depois, veio a ser do grupo Complemento, também, o Flávio Pinto Vieira. Mas aí a relação com grupos literários foi só mais tarde, com uns 18, 19, 20 anos.
Eu fazia também CPOR, fazia a vida normal de um jovem e, paralelamente, fui entrando em contato com essa turma que se reunia na Livraria Itatiaia, na esquina da Livraria Rex, em Belo Horizonte, na Praça Sete. A Livraria Itatiaia ainda era uma pequena loja no Edifício Dantés. O conhecimento com esse grupo veio se dar quando eu tinha uns 20 anos, em 1956. Já era um trato mais, digamos, amadurecido com a literatura. O cinema deixava de ser um simples entretenimento, passava a ser uma forma de arte que a gente estudava. Então, a gente estudava os filmes que valiam a pena ser estudados no CEC, o Centro de Estudos Cinematográficos, um dos principais do Brasil. Era uma vida muito ligada ao cinema. Quando eu entrei para o grupo da Complemento, a gente convivia com os grupos de teatro, de dança, com os estudiosos de cinema, o pessoal da revista de cinema… A gente tinha uma relação multidisciplinar. Não era apenas literatura. A gente pretendia fazer um grupo que via a arte de uma maneira mais diversificada, não presa à literatura.
A interdisciplinaridade foi o grande traço distintivo da Geração Complemento?
Sim. Porque, observando os grupos anteriores, ou seja, desde os grupos de Drummond, os de Fernando Sabino e outros grupos literários que se formavam em Belo Horizonte eram voltados apenas à literatura. Poesia, crítica, ficção… A gente tinha um interesse mais aberto, uma ligação muito afetiva com os criadores de outros grupos, de outras manifestações artísticas, como o teatro. Por exemplo, o nosso grupo se meteu a fazer também teatro com o Teatro Experimental. Fez, também, balé, com o grupo do Klauss Vianna e Angel Vianna. E todos com um interesse muito específico de ser modernos, de ser contemporâneos. O trabalho principal era não apenas produzir, mas produzir uma coisa que mexesse com as linguagens. O Klauss Vianna era um inovador no balé. O Teatro Experimental era um teatro inovador, também, nas peças e nas encenações.
E também tínhamos contato com o pessoal de música, do Madrigal Renascentista. Era um grupo, digamos, redondo. A gente não queria ficar preso. E tinha também esse traço forte que era estudar o cinema. Através do cinema a gente invadia as artes do mundo. Foi isso.
Mas numa cidade ainda muito resistente...
É isso que eu ia dizer. A gente mexia também um pouco com os costumes da cidade. Porque antigamente era pouco tolerado, nessas gerações antigas, relações, por exemplo, com homossexuais, com pessoas gays. Enfim, eram muito cautelosas essas relações nos grupos anteriores, nos grupos antigos. Com a gente, era uma relação aberta e franca. Não tinha preconceitos e eles também não tinham receio de topar com preconceituosos. Era tudo muito aberto. Então, os comportamentos que isso provocava questionavam aquela vida mineira de tantas coisas. A sociedade mineira, como eu digo num capítulo de “A festa”, era muito preconceituosa... Um ranço de anos 20, anos 30, 40, aquele preconceito entranhado. A gente entrou em choque com isso.
E a revista Complemento? Como foi a experiência?
Quando eu colaborei pela primeira vez, já havia dois números publicados. Então, no começo, eu fui um leitor de Complemento. Cheguei lá: “Oh, gente, vi a revista de vocês”e mostrava as minhas coisas, eles mostravam as deles. Mas era uma revista muito bissexta. Porque, se era publicado um número num semestre, só no outro era possível publicar outro, porque a gente não tinha dinheiro, todo mundo era duro. Então, para publicar, precisava de um certo patrocínio, uns relacionamentos nossos com algumas pessoas que trabalhavam em bancos, que trabalhavam em alguma grande empresa… conseguir algum dinheirinho para ajudar na publicação.
Foram apenas quatro números, mas permeados por muita discussão, leituras de livros e jornais. A gente atuava, mesmo, era nos bares da vida, porque a revista saía de seis em seis meses, de sete em sete meses. O que a gente fazia era colaborar nos jornais, discutir nas mesas, discutir os livros, receber os intelectuais que chegavam na cidade, mostrar nosso trabalho. Enfim, era uma interação muito mais dinâmica do que uma revista tão esparsa, com apenas quatro números, poderia fazer supor. Mas era uma vida intelectualmente intensa, apesar de pouco resultado prático publicado.
Quando nós fomos fazer o primeiro livro, quem deu a ideia foi o Edison Moreira, da Livraria Itatiaia. “Por que vocês não publicam aqueles contos? Se não dá para fazer com um autor só, faz com dois, três”. Aí fizemos com dois: Silviano Santiago e eu. Tivemos de fazer uma lista de compradores antecipados. O Pedro Paulo Moreira e o Edison Moreira falaram “Se vocês venderem 200 exemplares, a edição fica paga, aí a gente publica”. E a gente, com algum esforço, levou mais de um ano vendendo, levando nos eventos e tal, a listinha chegou a 200 exemplares, até passou um pouco, e aí eles editaram o livro.
“Duas faces”, seu livro com Silviano Santiago, foi publicado em 1961. É isso?
A minha parte tinha ficado pronta em 1959, mas só foi publicada em 1961, porque, nesse tempo, a gente estava tentando conseguir dinheiro. Como éramos autores sem nenhum nome, eles falaram: “Você primeiro vende exemplares, que a gente publica”. Então, vendemos. E essa venda antecipada demorou dois anos. O Silviano até já estava no exterior e veio para o lançamento. Demorou, mas saiu. E foi o que nos lançou no mundo literário de publicações nacionais.
Você sai de Belo Horizonte em 1965, um ano depois do golpe, e se muda para São Paulo. Como foi?
Comecei a escrever “A festa”em 1963. Aí teve o golpe de Estado em 1964 e eu parei de escrever, porque, junto com o golpe, veio a censura. Eu falei: “Não vou ficar fazendo um livro que eu pretendia tratar da sociedade mineira com uma autorização da censura”. Ao mesmo tempo, em 1965, veio o convite para trabalhar na imprensa, em São Paulo. Eu parei tudo, inclusive o livro, e me mudei para São Paulo. A minha necessidade de ter uma linguagem desafiadora se transferiu também para o jornalismo. Porque o jornal que vínhamos fazer aqui, o “Jornal da Tarde”, foi também inovador na linguagem, inovador nos textos, na apresentação gráfica. Então, foi um jornal que pretendeu ser um novo jornal, um novo jornalismo. E isso me satisfez como criador durante os oito, nove, dez anos que eu parei o livro. Mas depois eu continuei.
Aqui em São Paulo mesmo, eu retomei o livro, em 1974. Quer dizer, fiquei 11 anos... Aquele livro que eu iniciei em 1963, em Belo Horizonte, e que foi parado na época do Golpe de Estado de 1964, eu retomei em 1974 e concluí em 1975. Publiquei em 1976.
Quando você lançou “A festa”, a gente tinha também escritores como Antônio Callado, Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, Ignácio de Loyola Brandão, todos também produzindo livros muito importantes. Como era o ambiente da literatura brasileira naquele momento?
O Callado, que eu saiba, fez a primeira ousadia, digamos, com relação à censura. “Quarup” é um livro com um padre, um missionário que vai para a selva e lá ele se politiza. Um livro de politização numa época em que o governo estava interessado na despolitização das pessoas. Teve também o Rubem Fonseca, com “O Cobrador”e outros, com linguagem muito forte. Mas a censura só tomou conhecimento dele quando escreveu “Feliz Ano Novo”, que tinha realmente retratado assim uma certa revolta dentro da sociedade. Sem falar de política, mas a linguagem por si só retratava uma sociedade que se inquietava, uma sociedade que questionava e que resultava em banditismo, em violência, em agressão.
E tinha o Ignácio Loyola. No mesmo ano em que eu concluí “A festa”, ele tinha feito o “Zero”. E ele teve que publicar na Itália, por causa de censura. Então, havia autores escrevendo, mas o começo desse questionamento, esses autores, digamos, que questionavam determinada impossibilidade de tratar certos temas na literatura, essa geração se corporificou mais ou menos nessa época, entre 1974 e 1976.
Quando eu terminei “A festa”, levei a dois editores no Rio de Janeiro. Uma era a Nórdica, a outra eu já não me lembro qual era. Isso já faz 50 anos. Então, na Nórdica, o editor falou assim “Gostei do autor, mas não posso publicar o livro”. Quer dizer, ele foi franco o bastante para dizer “O livro é bom, mas não dá para publicar”. Então, havia um receio, nos editores, de prejuízo, porque eram muitos livros para ler e a censura não tinha pessoal para ficar lendo os 40, 50 livros que eram publicados. Então, eles encarregavam os editores de só editar o que era, digamos, permitido pelas conveniências do regime militar. Esse editor da Nórdica me disse, num bilhetinho (eu até guardei durante algum tempo o bilhete)... Ele dizia que não podia publicar, mas que eu podia mandar um outro livro que ele publicaria. E o que eu estava interessado em publicar era aquele livro. Até que encontrei uma editora muito pequena, Vertente, que editava apenas uma revista chamada Escrita. E ela começou a fazer um livro de poesia, um livro disso, daquilo… e quando eu me apresentei ao editor, o Wladyr Nader, que também era jornalista, falei: “Olha, tem um livro aqui, se vocês quiserem…”. Eles leram, gostaram, concordaram com a minha proposta de edição, que era bem diferente do que acabou saindo.
Então, daí para diante, foi bem o livro. O pessoal falava “Vai ser proibido”, “Vai ser censurado”, “Vai ou não vai?”, “Vai ou não vai?”... Mas aí caiu num momento em que o governo militar estava meio enfraquecido, com a morte do Manoel Fiel Filho, em São Paulo, e depois a do Vladimir Herzog. Era um momento em que a rudeza do movimento militar foi um pouco diminuída. Depois recrudesceu, mas ficou... E, nesse vácuo, o livro entrou e já estava bem distribuído no país, já estava em listas de mais vendidos. Depois veio o prêmio Jabuti, em 1976, também, e aí não teve mais jeito.
O que você procurou retratar da geração dos personagens de “A festa”? Que sociedade era aquela? No livro há violência, erotismo, drogas, polícia...?
Tem tudo isso, mas de maneira um pouco, digamos, informativa. A sociedade, em princípio, era uma sociedade fechada. Quando eu comecei a falar sobre o livro, eu dizia que era um livro sobre 1970, os anos 1970 e as suas impossibilidades. Quer dizer, as pessoas podiam fazer várias coisas, trabalhar, fazer... Podiam, mas todos com limites, todos com freio. Por exemplo, quando chega um bando de retirantes, o livro trata isso, começa assim, um bando de retirantes chega à cidade de Belo Horizonte.
Eu já morava em São Paulo há 10 anos, mas eu queria retratar uma cidade que eu conhecia e uma sociedade que eu conhecia. Então, o regime militar diz: “Esses retirantes não podem ficar aqui, eles têm de voltar para o Nordeste”. Então, é o choque disso, desse pessoal ser repatriado. Foram os estudantes, escritores, pessoas que passavam, porque era a Praça da Estação, um lugar bem central em Belo Horizonte. As pessoas tomaram conhecimento desse fato. E isso repercutiu numa festa que ia ser realizada naquela mesma noite. Algumas das pessoas que iam à festa estavam lá na Praça da Estação, alguns como jornalistas, outros como observadores, foram lá ver, curiosos, alguns escritores… A conexão entre as vítimas da sociedade brasileira, as vítimas da seca, as vítimas de um sistema que não é justo com quem não tem possibilidade de financiar, de ter dinheiro, de trabalhar, pessoas muito sofridas, como eram as do Nordeste. E eram tão sofridas que eu botei lá que um presidente dos militares, o Médici, foi lá e viu a seca, viu que era uma coisa brutal, ele mesmo falou que era uma coisa brutal. Mas quando esses pobres coitados chegam numa cidade como Belo Horizonte, eles não eram recebidos, tinham que voltar para a terra deles, “O problema é de vocês, voltem para lá”. Foram obrigados a voltar, mas aí fizeram uma revolta, explodiram na cidade e tal.
Então, a sociedade aceitava essa imposição. E a investigação que se fez, era uma coisa que pegou, assim, quem tinha a ver com a história e quem não tinha a ver com a história. Foi tudo ao acaso e a polícia tratando o caso como se fosse uma coisa muito tramada, planejada, todo mundo a ver… Situação diabólica… Não tinha nada disso, foi um acaso, por acaso, alguns que estavam na festa, estavam na Praça da Estação, estiveram antes na Praça da Estação. Então, as investigações se estendem para pessoas, jornalistas, uma classe social que é praticamente massacrada, mulheres... Porque assim que houve esse estouro da boiada lá na Praça da Estação, virou um fato investigável pela segurança.
Depois é que se junta todo mundo e aquilo vira um romance, uma história em que todos os personagens são interligados. E eu pensei assim: cada um que está numa festa tem sua história, cada um tem seu passado, seus dramas… então, a festa não é apenas uma coisa já programada, cada um tem a sua vida anterior. O que acontece na festa é um pouco consequência da vida anterior das pessoas. E eu conto em sete episódios, ou oito episódios, um retrato de cada uma daquelas pessoas e depois elas se misturam e aí os acontecimentos também os misturam. É um jogo de armar.
E agora vamos falar das inovações formais no trato com a linguagem. Os críticos escreveram que “A festa” é narrada de forma polifônica. São muitos os narradores. Não há um narrador central que dirige o olhar do leitor. A história é contada de diferentes perspectivas, de múltiplos focos. E a história é reiterada: há repetições, mas sob outros ângulos. É uma inovação formal importante: uma construção muito sofisticada e apurada da linguagem.
Sempre achei que literatura é trabalhar com a linguagem. Pretendi continuar nesse trabalho. No livro de contos que publiquei com Silviano, o “Duas Faces”, tem sete histórias, cada uma com uma pesquisa de linguagem diferente, um ângulo de personagem diferente. Esse livro também começa com várias narrativas diferentes. E, depois, quando ele continua, é também uma série de pontos de vista diferentes. É como se… Eu, autor, não sou um narrador, mas eu sou um arrumador. Eu arrumo aqueles textos e monto de uma maneira que vire um romance.
Aqueles textos estariam prontos ou estariam acontecendo no momento da festa. Eu falo “Essa aqui é uma festa frustrada, porque eu queria fazer isso”. Eu queria contar uma festa sem narrador na terceira pessoa. Eu queria contar uma festa acontecendo. Não tem ninguém contando. Você está lá e vê a festa. Cada personagem tem a sua roupagem de palavras, a sua apresentação própria. Então, eu tento trabalhar isso. Várias linguagens, várias abordagens, vários textos. Vários tipos de texto para caracterizar cada personagem.
Agora, eu queria destacar também, no texto de “A festa”, a presença do autor, que fala sobre o processo de produção do livro.
Ah, sim. Tem um momento em que o autor é convocado a explicar “Que coisa é essa? Que negócio é esse que você fez aqui?” Então, o autor explica... Eu quis fazer assim, eu pensei em fazer assim. É uma espécie de metarromance, mas não é bem um metarromance. É uma tentativa de incluir o autor, confundi-lo com um narrador e fundir os dois papéis, autor e narrador. O que há, no fundo, é um arrumador de textos.
“A festa” completa 50 anos e continua falando com os dias de hoje. Como vê o livro hoje?
“A festa” ganhará uma edição especial comemorativa dos 50 anos, pela Editora Arquipélago. E eu tive que reler o livro para ver se tem alguma coisa a mexer, arrumar algum erro, porque sempre passa algum erro. Eu acho que o texto se mantém com interesse. Porque muitos dos impasses daquela época permanecem na sociedade. Muitos dos preconceitos, muitas das impossibilidades, muitos dos enganos. E o método de construção do livro dá a ele ainda um certo frescor. A pessoa lê sempre com alguma surpresa. “Ah, esse aqui é aquele personagem”. Essa possibilidade de entregar para o leitor a possibilidade de ele construir um mundo romanesco, de mesclar aquelas personagens e fazer com que eles virem personagens de um romance, isso permanece fresco, permanece uma invenção válida. Eu me satisfiz com a leitura do trabalho. Não é pretensão, nada, é só olhar com frieza um trabalho que foi feito por mim há 50 anos, 55, 53 anos, e ver que ele ainda continua a me satisfazer. O normal é, para muitos textos da gente, falar “Não aceito mais isso”. Não, eu aceito e considero válido.
O Brasil autoritário que aparece em “A festa” continua presente. Há personagens, sobretudo aqueles ligados ao Estado, à polícia, que continuam vivos e fortes.
Continuam vivos e fortes. E eu fiz até um livro, há três anos, o “Vida ao vivo”, que é um romance também com uma construção bem-elaborada. E aí eu pego um ponto de vista que estava faltando nos outros livros. É o ponto de vista de um rico, um bilionário. Porque, geralmente, nós temos personagens que lidam entre si como classe média, classe média alta, classe média baixa, pobre… O mundo literário brasileiro engloba muito esses personagens da vida da classe média brasileira, da classe mais trabalhadora, da classe mais sofrida, dos professores, enfim, o trabalho menor. Nesse livro, fiz diferente: peguei como personagem central um bilionário, que decide expor a sua vida diante da televisão, que resolve colocar francamente numa conversa com o seu público toda a sua vida, sem esconder nada… Eu acho que é um personagem não muito comum, não é muito usual na literatura brasileira.
Como a crônica entrou na sua produção literária?
A crônica entrou como literatura, porque eu acho que a crônica não pode se rebaixar como texto. Você tem que buscar o tom literário, mesmo se for para contar uma historinha. Ter o cuidado com as palavras, com a invenção, com a linguagem. A crônica tem o compromisso com o leitor. A crônica literária tem o compromisso com o leitor de ser literária. Não é que seja um gênero absolutamente acabado, com uma forma acabada na literatura brasileira. Mas todos, quase todos, muitos escritores brasileiros escreveram crônicas. E tem um que só escreveu crônica, que é o Rubem Braga. Crônica de reportagem. Mas ele teve o cuidado de ser literário. Ele tinha preocupação literária. Aquilo era o trabalho literário dele. O Fernando Sabino fez crônicas, mas ele teve um pouco mais de liberdade. Ele teve essa preocupação de ser um contador de histórias. Mas o cronista nem sempre é um contador de histórias. O Rubem Braga, às vezes, conta histórias, às vezes fala das suas inquietações, das suas preocupações. Machado de Assis às vezes contava histórias, mas às vezes também fazia dissertações sobre a sociedade da época dele. Enfim, a crônica não é um formato, mas tem que ter a preocupação literária. Você não pode ser ligeiro e descuidado se você quer ser um cronista de atuação literária. E, para mim, a crônica é isso. É uma extensão do meu trabalho literário. Não é do trabalho jornalístico, porque eu não tenho nenhuma obrigação com os fatos... com o fato jornalístico, não tenho. Eu tenho com o texto literário. Se eu consigo transformar um pequeno caso em uma história literária, tudo bem. Um sentimento meu, num ângulo literário, tudo bem. Aí temos uma crônica literária. O resto é crítica social, crônica... Prefiro chamar de colunismo.
Ivan, você lançou “Vida ao vivo”, agora vai haver o relançamento da edição comemorativa dos 50 anos de “A festa”. E há outros projetos literários em curso?
Tenho pronto um livro de contos. É só arrumar e fazer pequenos ajustes, mas está pronto. E também tem tudo que eu fiz que não fosse ficção, os artigos com assuntos mais literários, crítica literária e argumentações sobre assuntos literários, eu também pretendo reunir num livro. Não é bem crítica, é resenha literária, que eu acho um gênero também, no Brasil, bastante interessante. Além dos ensaios literários que ficaram muito mais restritos ao meio acadêmico, a resenha desenvolveu-se na imprensa e agora morreu, não sei nem por quê, porque os jornais têm pouco espaço para resenha literária. Antigamente havia 2, 3, 4 resenhas num número de fim de semana de jornal. Hoje, é um livrinho ou outro. Enfim, o ambiente de recepção literária mudou muito. Naqueles anos 1970, havia uma efervescência, uma curiosidade…
Você deu um pouco a notícia sobre os seus projetos, sobre um livro de contos que já está pronto, depois sobre um livro de crítica literária ou resenha literária, reflexões sobre literatura que também pode ser já arrumado, porque o material já está disponível. E aí você fez uma reflexão sobre o espaço da crítica e da resenha literária na imprensa brasileira hoje… E eu vou te fazer mais duas perguntas. Quem você lê hoje da literatura brasileira contemporânea que te chama a atenção?
Li “Tudo é rio”, da Carla Madeira. Tenho algumas pequenas colocações, mas é um livro bom. Li “Misericórdia”, um livro muito bom da portuguesa Lídia Jorge. Leio Conceição Evaristo. Gosto muito da obra dela. E gosto muito também de “Torto arado”, o livro de estreia do Itamar Vieira Junior.
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Eu espero que o Brasil se mantenha numa linha de política social correta, que se mantenha numa tentativa de atenção aos pobres, de atenção aos necessitados, e também de liberdades, liberdades com relação à fala, assuntos, internet… Mas na internet há necessidade de uma liberdade vigiada, porque o que se faz hoje é uma licenciosidade. Permite-se que pessoas sejam agredidas e você não tem como se defender. É uma sociedade muito agressiva. Espero que seja uma sociedade mais solidária, porque está todo mundo achando que o Brasil está muito dividido. Eu sei que, na minha infância, havia divisões. Por exemplo, minha mãe era udenista, já o meu pai não era, mas era um casal que convivia bem dentro da sua divergência. Hoje em dia, as pessoas brigam e ficam inimigas por questões políticas que não valem a pena. Isso não engrandece ninguém. Eu acho que falta cordialidade, respeito pela opinião do outro. Espero que o Brasil evolua nisso, porque, do jeito que está, se for radicalizando, vai ficar muito ruim. Com os meus 90 anos, eu passei por períodos agressivos, mas nunca assim, como está hoje. Pessoas se agredindo por causa de bobagens políticas, por causa de pessoas… Personalizar a política é uma coisa absolutamente sem sentido.