Ivan Angelo: escritores homenageiam os 90 anos do escritor
Silviano Santiago, Luiz Ruffato, Frei Betto, Pasquale Cipro Neto e Humberto Werneck exaltam trajetória e obra do autor
compartilhe
SIGA
O jovem audaz do trapézio volante
SILVIANO SANTIAGO
Na sua produção de crônicas, contos e romances, Ivan Angelo sempre buscou explorar um estilo ambientado na liberdade em fala popular do brasileiro que, sem entrar em confronto, servisse para sedimentar uma elegante escrita literária que, desinibidamente, lançasse ousadas metáforas e alegorias. Não se trata de contradição (não há confronto entre as duas atitudes estilísticas, repito). Trata-se do exercício mais produtivo e eficiente de atualização literária, herdado dos grandes modernistas. O bom exemplo está no poema “Evocação do Recife”, ou em “Grande sertão: veredas”.
Ivan Angelo se instala confortavelmente na ambiência popular porque a sua e nossa geração fez a iniciação espiritual sem temer a noite que mistura teatro e cinema com a descontração boêmia. Nos anos 1950 o nosso dia terminava à meia-noite em boteco da praça da Estação, ou da avenida Olegário Maciel. De todos, percebia-se, Ivan demonstrava especial interesse pela liberdade da fala cadenciada, bem bem-humorada com vulgaridades, dos modestos fregueses. O aprendizado do ouvido cúmplice se anuncia já na elaboradíssima escrita dos contos que, em 1960, ganham o Prêmio de Literatura Belo Horizonte. Neles, o requinte do récit psicológico francês perde o pé e, ao se afogar, acena para a fala rítmica do povo, a respirar outras e diferentes sintaxes na prosa desinibida e behaviorista da “geração perdida”norte-americana (Fitzgerald, Hemingway e Faulkner), suas leituras de jovem escritor duplamente iconoclasta.
* O título deste artigo é de um conto de William Saroyan, traduzido por João Cabral de Melo Neto nos anos 1950.
SILVIANO SANTIAGO, escritor e crítico literário, divide com Ivan Angelo a estreia literária nos contos de “Duas faces” (1961)
Leia: Ivan Angelo, 90 anos: 'Cada um que está numa festa tem sua história'
DEPOIMENTOS
Subversivo dos pontos de vista político e formal
LUIZ RUFFATO
“Lançado em 1976 pela editora Vertente, que publicava a revista Escrita, li ‘A festa’ em 1980, em Juiz de Fora. Estudante pobre da UFJF, contava com a boa vontade do livreiro Salvador Maddalena, da Livraria Península, que facilitava a concretização de nossos sonhos de comprar as mais recentes edições de literatura brasileira. Consumi o livro num sábado, na república da rua Moraes Sarmento. E ele manteve-se para sempre comigo. Ivan Angelo conseguiu escrever algo profundamente subversivo do ponto de vista político (discute os impasses de uma geração submetida a uma brutal ditadura militar) e profundamente subversivo do ponto de vista formal, “romance:contos” como se autoconceitua desafiador no frontispício. Com isso, entrou para o rol dos poucos volumes que podemos alçar à categoria de obra-prima, aqueles livros que, transcendendo tempo e o espaço, permanecem na História. Mais tarde, tive o privilégio de desfrutar da amizade de Ivan Angelo, raro espécime de homem que é modéstia, é doçura e é sensibilidade.”
Soube transformar o cotidiano em espelho crítico do país
FREI BETTO
“Ivan Angelo fez seus primeiros 90 anos neste fevereiro de 2026. Somos vizinhos no bairro das Perdizes, na capital paulista, e parceiros na academia de letras improvisada na mesma região. Aliás, como há muitos que regam com vinho nossas férteis reuniões, é mais conhecida por Academia de Litros… Não é todo dia que se comemora um escritor que soube transformar o cotidiano em espelho crítico do país. Em ‘A festa’, romance seminal, Ivan desmonta a narrativa tradicional e esculpe um mosaico de vozes, silêncios e contradições — como se dissesse que o Brasil não cabe numa história só. Mineiro como eu, ele escreve com economia de palavras e abundância de sentido. Seus contos e romances têm a precisão de quem observa o mundo com lupa e ironia, mas também com ternura. Ivan nunca gritou: prefere sussurrar verdades incômodas, expondo o ridículo do poder e a fragilidade humana, como em seu mais recente romance, ‘Vida ao vivo’. Aos 90, a obra de Ivan Angelo permanece jovem, inquieta e necessária. Ele nos ensina que escrever é um ato de lucidez — e ler, uma forma de resistência.”
Cronista com um olhar delicado e civilizatório
PASQUALE CIPRO NETO
“Em 2018, eu e o querido Frei Betto fundamos uma ‘academia’, a Academia Perdiziana de Litros (perdiziana porque quase todos os membros são de Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo). Logo convidamos os ilustres Tom Zé, Luiz Ruffato, Humberto Werneck, Lira Neto, Ivan Angelo e outros perdizianos igualmente notáveis. Ivan e eu éramos e somos vizinhos, mas só nos conhecemos com a fundação da Academia, que, depois de muitas reuniões regadas a bom vinho, passou a chamar-se Academia Perdiziana de Letras e Litros. É desnecessário falar da grandeza literária de Ivan. Muitos colegas já falaram disso e exaltaram sobretudo "A festa", talvez o romance mais importante dele, por isso vou ater-me ao cronista Ivan Ângelo. Durante muito tempo, uma vez a cada duas semanas, Ivan publicava uma preciosidade na Veja São Paulo. Essas crônicas sempre revelavam um olhar delicado e invariavelmente mostravam o caráter civilizatório que marca esse gênero. E assim é Ivan em pessoa: um homem delicado, extremamente civilizado, culto, erudito, gentil. Um cavalheiro. Viva Ivan Angelo!”
Mestre da escrita e da reescrita
HUMBERTO WERNECK
“Mais de sessenta anos se passaram, e lembro ainda o susto bom que a prosa de Ivan Angelo me passou ao ler pela primeira vez os sete contos dele em “Duas faces”. Que jeito fascinante de contar história, cheio de novidades mas sem embaixadinhas, sem um pingo de semostração vanguardeira. Já estava ali, naquele livro de 1961, um pouco do romancista que a gente iria conhecer em ‘A festa’, de 1976. Nova surpresa viria em 1986, quando Ivan Angelo juntou no livro ‘A face horrível’ os sete contos da estreia e outros mais recentes. Mas não se limitou a reproduzi-los. Artista também na reescrita, passou neles o que podemos chamar de “OzemBIC” – caneta emagrecedora encarregada de não permitir que fique no papel aquilo que não seja indispensável. Uma das histórias, “Dénouement” – palavra francesa para desfecho, desenlace – recebeu tratamento mais aprofundado, e converteu-se num tríptico que vem a ser lição preciosa, e não apenas de escrita criativa. A primeira parte traz o conto como está em ‘Duas faces’; na terceira, a história foi refeita por alguém que não amadureceu apenas como escriba. O melhor do tríptico, para mim, está na segunda parte, na qual Ivan Angelo, de volta ao texto de tantas décadas atrás, nos deixa ler também, em itálico, a sua voz de leitor fino e homem sabedor das coisas.”
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
TRECHO DE “A FESTA”
(retirado da edição da "Geração Editorial", de 2004)
“Um grupo de trinta rapazes armados com longos cacetes de madeira invadiu a festa de aniversário de Roberto em 1971. A porta foi aberta com estrondo de pontapé e os rapazes, de cabelos muito curtos, civis, entraram correndo, atropelando, batendo, gritando. Excitados pelo pânico que criaram, rasgaram a roupa de várias mulheres, gritando puta, sua putona; invadiram os dois banheiros da casa e num deles deixaram desmaiada uma mulher. Quebraram o aparelho de som, televisão, discos, copos, espelhos, esculturas, quadros, antiguidades, móveis, privadas, bidês, vidros de perfume, garrafas de bebidas, bibelôs, pratos, cabeças, rasgaram livros, vestidos, cortinas. Quem tentava fugir era espancado na porta por um grupo que formava uma parede. Roberto apanhava, sangrando, e ouvia: 'Está pensando que pode debochar da gente e ficar por isso mesmo, veado?' Veado, comunista e puta eram seus gritos de guerra e excitação. Soou um apito e todos juntos largaram suas vítimas e desapareceram pela porta, compactos, poderosos. Foi a última festa.”