Foram precisos 20 anos de flerte para que os premiados grupos Clowns de Shakespeare, do Rio Grande do Norte, e Magiluth, de Pernambuco, engatassem um namoro. O resultado desse encontro é o espetáculo “Cão”, que chega a Belo Horizonte, onde fica em cartaz, no Teatro 1 do CCBB, desta sexta-feira (3/4) a 4 de maio.
A parceria inédita tem como ponto de partida a obra de Shakespeare. Inicialmente, as trupes nordestinas pensaram em adaptar a tragédia “Coriolano”. Durante o processo, Clowns e Magiluth elegeram um foco específico: a precarização do trabalho no Brasil atual.
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Dirigido por Luiz Fernando Marques e Fernando Yamamoto, que assina o texto da peça com o ator Giordano Castro, “Cão” é uma fábula contemporânea que contém elementos do realismo fantástico, comicidade e música, marcas que se entrelaçam nas linguagens dos dois grupos.
“A gente parte de Shakespeare, mas usando só o que nos interessa: o conflito de classes, a insatisfação do povo, a manipulação política e o jogo de forças que recai sobre quem trabalha”, diz Yamamoto.
O enredo mostra um grupo de profissionais de eventos – técnicos, cenógrafos, produtores, mestres de cerimônia e seguranças – que, após dias preparando um teatro para a posse do recém-eleito governador, recebe a notícia que desmonta toda a cerimônia: a morte do novo líder.
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A situação os coloca num vertiginoso jogo de pressões, com situações rocambolescas, desdobramentos absurdos e peripécias que incluem protocolos impossíveis e desmandos surrealistas.
Yamamoto diz que a ideia de criar uma dramaturgia autoral a partir de “Coriolano”, em vez de adaptar a obra de Shakespeare, surgiu ao longo de cinco residências artísticas realizadas entre Natal, Recife e Rio de Janeiro. “Escrevemos o texto do zero, com a ideia de falar não só da precarização do trabalho, mas também, especificamente, do nosso metiê, dessa camada invisibilizada de técnicos e carregadores, desse extrato que opera para que a estrutura dos espetáculos funcione”, destaca.
Ele observa que, apesar do flerte antigo, Clowns e Magiluth têm poéticas com mais pontos de distanciamento do que de proximidade. O diretor diz que o grupo potiguar é mais afeito ao teatro popular, ao passo que o pernambucano explora mais uma linguagem contemporânea.
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“Queríamos saber no que essa mistura ia dar. Revisitando as trajetórias de ambos, surgiu Shakespeare como ponto em comum”, diz. Ele pontua que existem outros lugares de convergência, como a ideia de ter o ator no centro da criação.
TEATRO DE GRUPO
A questão geográfica é outro fator de aproximação, segundo Yamamoto. “Acho que cada grupo, ao seu modo, busca entender o teatro contemporâneo, que responde ao Brasil e ao mundo de hoje a partir de um olhar do Nordeste. Isso tem muito a ver com a filiação devotada à ideia do teatro de grupo, algo em que acreditamos e que defendemos, e que talvez hoje passe por um momento de desconfiança por parte das pessoas”, diz.
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Ele atribui essa desconfiança a uma questão geracional. “O mundo está passando por um processo de individualização da vida, muito por causa da questão dos dispositivos eletrônicos. As experiências coletivas têm ficado difíceis de ser encaradas, porque isso significa estar disposto ao bom embate, à construção conjunta a partir da escuta do outro. Tenho a impressão de que as gerações mais jovens não têm essa disposição. Se não tenho estômago para o embate, é mais fácil eu fazer tudo do meu jeito”, diz.
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“CÃO”
Espetáculo com os grupos Clowns de Shakespeare e Magiluth. Desta sexta-feira (3/4) a 4 de maio, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários), com sessões de sexta-feira a segunda-feira, às 20h. Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda no site ccbb.com.br/bh e na bilheteria do centro cultural.
