Peça 'A comédia do coração' expõe o conflito entre a paixão e a razão
Em cartaz no Teatro da Cidade, montagem dirigida por Thomaz Cannizza parte do texto homônimo de Paulo Gonçalves
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É comum se deparar com obras que se apoiam no conflito entre razão e emoção. Especialmente nas comédias, nas quais essas fronteiras se embaralham à medida que a narrativa avança. Atualizar esse tipo de história, porém, exige mais do que repetir fórmulas, desafio que Thomaz Cannizza assume no espetáculo “A comédia do coração”.
“A grande beleza da arte é a cabeça de cada artista ser tão única. Você tem a possibilidade de vislumbrar situações que já vivemos e já testemunhamos, na ficção ou na realidade, sendo contadas das mais diversas formas”, afirma o diretor e dramaturgo.
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O espetáculo, em cartaz neste sábado (4/4) e domingo (5/4), no Teatro da Cidade, é a montagem de formatura de uma das turmas da Confesso Escola de Teatro. A encenação parte do texto homônimo de Paulo Gonçalves (1897-1927), que completa 100 anos em 2026.
Convidado para dirigir o trabalho, Cannizza optou por provocar a turma a partir de um material pré-existente. O primeiro contato dele com “A comédia do coração” remonta a mais de uma década, durante um curso na Escola Municipal de Artes Maestro Fêgo Camargo, em Taubaté.
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“Conheci esse texto na biblioteca e tenho o xerox original até hoje. O que me catalisou foi lembrar do sentimento que tive na época. É um texto de 1926 que fala de coisas extremamente atemporais e tive a impressão de que a turma iria se apaixonar tanto quanto eu me apaixonei”, conta.
A trama se passa dentro de um coração e aborda o embate entre o desejo da Paixão de se casar e a tentativa da Razão de impedir. Em torno desse conflito, outros sentimentos, como Alegria, Dor, Sonho, Medo, se esforçam para contornar a tensão.
TEATRO SIMBOLISTA
Inserida na tradição do teatro simbolista, a montagem transforma o cenário e os personagens em alegorias. “No simbolismo, tudo está, literalmente, representando alguma coisa. As narrativas são uma forma diferente de a ficção dar conta da realidade”, explica Thomaz Cannizza.
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No cenário do espetáculo, por exemplo, a estrutura do palco é falha. Há canos estourando e problemas com a fiação elétrica que precisam ser resolvidos por um zelador – personagem criado para esta versão. Tudo aliado para mostrar como o coração é um lugar de instabilidade.
“O coração ocupa, no nosso imaginário, o lugar de uma coisa poderosa, potente e imbatível. Mas somos seres vivos, que podem morrer a qualquer instante. A gente quis personificar essa finitude do corpo e mostrar que há uma fragilidade mecânica na qual os sentimentos influenciam completamente”, diz o diretor.
A caracterização dos personagens segue os princípios da atemporalidade e da individualidade. O figurino, assinado pelo diretor de arte Luiz Dias, dá características inusitadas para cada sentimento. O Medo assume estética punk, com jaqueta de couro e spikes. O Sonho se aproxima do estereótipo do malandro, caracterizado como um bicheiro. E a Dor surge equipada com capacete e proteções.
Na adaptação textual, o foco esteve em aprofundar a complexidade de cada personagem. “É preciso entender que são sentimentos, mas também são figuras vivas que se materializam no palco. A alegria também fica triste, ela também sente raiva e tem suas inseguranças. A composição dos personagens não se esgota no seu próprio verbete”, observa Cannizza.
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Para o diretor, o teatro é espaço de confronto com a própria condição humana. “Entrar em contato com a sua humanidade é um grande processo pedagógico que nenhum ser humano deveria viver sem”, diz.
No caso de “A comédia do coração”, essa dimensão atravessa tanto o processo quanto o resultado final. “O espetáculo vai conseguir transmitir para o espectador a beleza que é você ser um humano vulnerável, bagunçado, apaixonado, derrotado, em dúvida e tudo isso se manifestando ao mesmo tempo”, ressalta Thomaz Cannizza.
*Estagiária sob supervisão do editor Enio Greco
“A COMÉDIA DO CORAÇÃO”
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Neste sábado (4/4), às 20h, e domingo (5/4), às 19h, no Teatro da Cidade (Rua da Bahia, 1.341, Centro). Ingressos: R$ 30, à venda na plataforma Sympla.