Na campanha internacional de “O agente secreto”, um slogan se repete com insistência: “Take a stand”. A expressão aparece em pôsteres, publicações nas redes sociais e mais materiais de divulgação. À primeira vista, a frase pode parecer apenas mais uma estratégia de marketing na corrida por premiações. Mas, no caso do novo filme de Kleber Mendonça Filho, ela funciona também como uma síntese do que a obra defende.

Em inglês, “take a stand” significa “tomar uma posição” ou “posicionar-se” com firmeza sobre uma questão ou debate qualquer. Segundo especialistas, a expressão tem origem militar, já que a stand representava uma posição reforçada onde um exército se organizava para enfrentar o embate das tropas inimigas. Hoje em dia, “take a stand” abandonou o sentido bélico, mas ainda é usado em situações de conflito, em que diferentes lados têm opiniões diferentes.

E isso tem tudo a ver com “O agente secreto”. No centro da trama está Armando, personagem de olhar melancólico interpretado por Wagner Moura. Apesar do título do filme, ele não é um agente secreto do governo. Tampouco está exatamente disfarçado, embora passe boa parte da narrativa usando o pseudônimo de Marcelo Alves.

Armando não é exatamente um militante. Ele se torna alvo do governo depois de entrar em conflito com um empresário ligado ao poder que fechou departamentos universitários. Ou seja, sua trajetória de resistência nasce menos de uma escolha ideológica e mais de um confronto inevitável.

O filme sugere que, em contextos autoritários, não é preciso ser um revolucionário ativo para se tornar inimigo do Estado. Às vezes basta cruzar o caminho de alguém poderoso.

Por isso, Armando acaba encontrando refúgio em um prédio habitado por personagens igualmente deslocados: ex-revolucionários, pessoas fugindo de relações abusivas ou imigrantes escapando de conflitos em seus países de origem. Ali, o que une todos não é um movimento organizado — é simplesmente o fato de estarem sobrevivendo.

No filme, Moura constrói Armando com uma mistura de cansaço e resistência silenciosa, como alguém que vive à margem da própria história. Essa sensação se intensifica quando a narrativa salta abruptamente para os dias atuais. Pesquisadores de uma universidade analisam arquivos e materiais antigos, sugerindo que o personagem é, de certa forma, uma memória quase apagada.

O filme passa então a funcionar como uma espécie de investigação histórica: quem foi Armando? O que aconteceu com ele? E por que sua história ficou escondida por tanto tempo? A obra assume o formato de uma reconstrução, quase como se o cinema tentasse abrir um portal para um passado obscurecido.

Posicionamento fora das telonas

Além de conversar com a trama, o slogan também tem sentido fora das telas. Em entrevistas e debates, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura  têm debatido política, mostrado o posicionamento sobre acontecimentos nos Estados Unidos e no Brasil. 

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Essa atitude quebra o padrão, já que muitas vezes uma campanha internacional normalmente é marcada por falas neutras e cuidadosamente calculadas.

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