ARTES VISUAIS

Exposição 'Pele e osso' apresenta uma inquieta Fani Bracher

Mostra da artista no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, onde ela fez sua primeira mostra individual, em 1988, está aberta à visitação até o dia 24 de maio

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Por Ronald Polito*

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Especial para o EM

A inquieta Fani Bracher volta a nos surpreender com a exposição "Pele e osso", aberta no Anexo do Museu da Inconfidência, na Sala Athaide, em Ouro Preto, no dia 14 de março e que se estenderá até 24 de maio, com visitação de terça-feira a domingo, das 10 às 18h. A curadoria é de Carla Cruz.

Inquieta porque, numa guinada inimaginável, nos apresenta tecidos e ossos. À primeira vista, pareceriam distantes, mas um olhar desarmado compreende o sutil relacionamento estabelecido entre esses dois campos, se tomarmos tecidos como nossa segunda pele, como no título da exposição. Dentro e fora do corpo, portanto, o que nos estrutura interiormente e o que nos protege e permite nossa comunicação com o que nos é exterior.

Os dois ossos expostos remetem a diversas telas em que Fani, ao longo do tempo, os pintou. Ora componentes de paisagens, ora simulados inusitadamente como ramalhetes de lírios em naturezas-mortas (e desconheço outro exemplo de tal ousadia), eles também prestam homenagem, à sua maneira, a Georgia O’Keeffe, que os pintou há quase um século.

Mas nessa mostra não se trata de pintura, e sim dos ossos em si, físicos, palpáveis. Não pintados, mas cobertos de escrita com uma caligrafia minúscula e labiríntica, entremeada de pequenos desenhos e símbolos, convidando à leitura, à decifração. É o caso de lembrarmos aqui os ossos pintados e escritos de Arlindo Daibert.

Tecidos

Já os trabalhos em tecidos (25 peças), muitos em grande formato, realizados quase todos em 2025, são a parte principal da exposição. Para além de bordados, eles conjuminam outras modalidades da cultura feminina, principalmente o patchwork, no caso, subvertido porque os pedaços de tecido superpostos ao fundo são afixados com bordado, sem a ocultação típica da técnica.

Afora isso, esses tecidos anexados guardam vestígios de pintura, alguns são retalhos usados para limpar seus pincéis durante a execução das telas, modo do processo não se perder, quando o que sobra, o “sujo”, o “feio” são alçados à condição de obra. Esses trabalhos mistos, com um 'quê' de assemblage, inclassificáveis segundo os gêneros convencionais, forçam as divisões da arte e propõem novos territórios para nossa sensibilidade.

 

É natural que eles dialoguem com a longa trajetória da pintura de Fani. Neles encontramos escadas, caminhos, troncos brutos de árvores desfolhadas, representações de pedras, caracóis, labirintos, muros, geometrias, formas que lembram ossos, todos elementos presentes em tantas telas da autora. Estamos, portanto, a léguas de distância da pauta usual dos bordados, ou seja: flores, plantas e pássaros, geralmente, o que indicia a ruptura decisiva que esses trabalhos representam.

Muitos exploram de forma mais estrita o preto de tecidos e linhas sobre a cor crua do pano, o que é uma novidade na criação de Fani, o “preto e branco”. Outros introduzem cores, geralmente frias como de suas telas. Alguns tendem a algo figurativo, ainda assim fugidio, mas a maioria se instaura como diagrama ou mapa topográfico imaginário, croqui, esboço, plano de ocupação, vista aérea de grandes territórios, muitos desérticos, o que também é um modo de subverter hierarquias.

É notório, ainda, o caminho inverso, quando os traçados do bordado, funcionando como desenhos, migram com suas formas tracejadas para algumas pinturas que realizou nos últimos anos, assim se estabelecendo vasos comunicantes entre esses campos de criação. E em consonância com discussões contemporâneas, são borrados os limites entre arte e artesanato, entre “alta” e “baixa” cultura. Aqui Fani se une a outras artistas “bordadeiras” que têm ocupado a cena da arte hoje.

Essas cartografias são um modo singular de a memória ser fixada. Daí que não bastam os caminhos, os labirintos, os desenhos sugerindo formas. A palavra, como nos ossos, invade o campo de alguns bordados, e os escritos podem funcionar como sínteses radicais de todo um projeto artístico e de vida, bem como trazem à tona parte de suas preferências intelectuais: “a superação do absurdo consiste na execução da tarefa” (Albert Camus); “o tempo só anda de ida” (Manoel de Barros); “às vezes ouço passar o vento; só de ouvir passar vale a pena ter nascido” (Fernando Pessoa), entre outros.

E o título certeiro da exposição, "Pele e osso", locução que significa “magreza excessiva”, “fraqueza ou desgaste físico”, subverte e extrapola esses sentidos sugerindo que, em nosso hoje imoderado, excessivo, menos pode ser mais, que o débil, o frágil podem ser uma expressão mais ótima do tempo presente.

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*Ronald Polito é poeta e tradutor

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