Publicidade

Estado de Minas ARTES VISUAIS

Fani Bracher comemora 77 anos com filme sobre sua trajetória artística

Pintora exibe os 13 painéis que criou para as paredes da casa de sua família, em Piau. Documentário é assinado por Blima e Larissa Bracher, filhas da artista


10/06/2021 04:00 - atualizado 10/06/2021 07:16

(foto: Fotos: Larissa Bracher/divulgação)
(foto: Fotos: Larissa Bracher/divulgação)

"Temos que aproveitar a pandemia para repensar a vida. Além disso, tem muita gente precisando de ajuda. O que esse tempo todo em casa me ensinou é que o mundo é global e o que a gente faz aqui repercute em muitos outros lugares"

Fani Bracher, artista plástica



Ao longo de 54 anos de carreira, a artista plástica mineira Fani Bracher não se ateve a um único suporte para sua expressão artística. Lembrada pelas pinturas a óleo, ela também produziu chitas, estandartes, bordados, santuários e assemblages, deixando claro que a inspiração pode estar em qualquer lugar, até mesmo numa parede em branco, como prova o seu trabalho mais recente: 13 painéis pintados nas paredes da casa dela em Piau, na Zona da Mata mineira.

As pinturas, que Fani começou a fazer em 2019, foram a motivação inicial do documentário “A casa verde de todas as cores”. Na sexta-feira (11/06), dia em que ela completa 77 anos, a produção entra no ar, às 20h, no canal do YouTube e no Instagram do Ateliê Casa Bracher.

Dirigido por Blima Bracher e produzido por Larissa Bracher, filhas de Fani e do pintor Carlos Bracher, o filme conta uma parte da trajetória artística da mineira de Coronel Pacheco, que desde os anos 1970 vive em Ouro Preto, onde desenvolveu trabalho influenciado pelas cores do Quadrilátero Ferrífero.

“Em 2019, quando passei quatro meses em Piau, comecei a fazer intervenções artísticas em móveis e objetos da casa”, explica. “Usando a técnica de craquelê, pintei mesas, cadeiras, baús, bules, espelhos, azulejos, geladeira. Gosto de interferir no meio em que estou vivendo. Comecei pintando um lugar para tratar passarinhos que era do meu pai, depois fui para o depósito de lenha.”

Fani Bracher diz que o trabalho com a chita a fez
Fani Bracher diz que o trabalho com a chita a fez "perder o pudor" em relação às cores


PAREDES 
Não demorou muito para Fani começar a trabalhar nas paredes, hoje tomadas por pinturas abstratas, que, somadas, totalizam 30 metros quadrados. Diferentemente dos quadros a óleo, nos quais predominam tons sóbrios como preto e cinza, os painéis são marcados por cores fortes e vibrantes.

“Depois que comecei a trabalhar com chita, perdi um pouco o pudor das cores. A chita mistura laranja com roxo e dá certo, não tem um filtro”, afirma. A isso soma-se o fato de Piau ocupar o espaço da infância na produção de Fani. Quando criança, ela passava as férias escolares na casa verde.

“Toda a minha família materna é de Piau, tenho ligação com a cidade desde pequenininha. Só não fui batizada lá, mas fiz a crisma e a primeira comunhão, além de ter passeado muito lá na minha juventude. Considero a obra como uma volta a esse período da minha vida”, diz.

O fato de o tema dos painéis ser “festivo, alegre” também está associado ao fato de a casa verde ser “muito aberta, estar sempre cheia”, comenta a pintora. “Sempre tem criança por lá. A gente faz sarau de poesias, ainda que as crianças de hoje não tenham tanto interesse por isso. Meu neto gosta muito de futebol, então ele está sempre jogando. É bastante animado”, revela.

Para ela, o uso de cores alegres remete à Zona da Mata, região marcada por belezas naturais. “O colorido lá é muito forte, as cores são muito exuberantes. No Quadrilátero Ferrífero, as cores são naturalmente mais escuras”, explica, referindo-se a Ouro Preto e arredores.

Ao longo de um mês, a gravação do documentário foi feita em Ouro Preto e Piau. Em uma das cenas, Fani aparece concluindo um dos painéis. A jornalista Blima Bracher, diretora do filme, descreve o trabalho da mãe como “rural”, realizado em Piau, em contraposição ao “mineral”, no Quadrilátero Ferrífero.

“Um dos principais desafios foi equacionar essas duas fases da carreira dela. Em Ouro Preto, ela usa temas enegrecidos, pigmentos em óxido de ferro. Em Piau, ela vai em busca do colorido da Zona da Mata. Foi difícil achar uma linha para ligar esses dois aspectos”, diz.

Blima afirma que a mãe fez uma espécie de diário de sua vida. “Ela conta que teve uma infância linda e é possível identificar isso nos painéis. Não de forma literal, mas os quadros falam, sim, da infância feliz e a própria casa é o testemunho desse período da vida dela.”

RACIONAL 
Blima descreve Fani como uma pessoa bastante “racional”. Por conta disso, não foi fácil fazê-la se abrir sobre as próprias memórias. Ainda assim, aos poucos a pintora foi se soltando diante da câmera e deu um depoimento emocionado sobre o seu trabalho.

“É um filme simples, que conta a história dela. Por conta da pandemia, usei muitas imagens de arquivo para contextualizar algumas passagens de sua vida. O roteiro foi uma longa entrevista com ela. Não foi fácil fazê-la falar dos próprios sentimentos, mas tentamos trazer essa emoção para o documentário”, diz Blima.

Fani Bracher discorda. Conta que a entrevista com a filha a deixou “mexida”. E comenta: “É uma coisa que inevitavelmente mexe com você. Traz à tona coisas que estavam guardadinhas.”

O lançamento de “A casa verde de todas as cores” faz parte da série de iniciativas on-line que o Ateliê Casa Bracher iniciou em dezembro de 2020, no aniversário do pintor Carlos Bracher. A instituição, localizada em Ouro Preto, pretendia inaugurar área aberta para a visitação do público, o que não ocorreu devido à pandemia.

Preocupada com a atual situação do país, Fani Bracher afirma que o Brasil vive uma “catástrofe”. “Temos de tomar muito cuidado para não perder a coragem. Estamos vivendo dias sombrios, terríveis, com perdas irreparáveis. A COVID continua solta por aí”, diz.

No início da pandemia, quando o Brasil e o mundo foram tomados por incertezas, ela acreditava que as coisas voltariam ao normal em poucos meses. “Infelizmente, não voltaram por conta de vários problemas no país. Temos que aproveitar a pandemia para repensar a vida. Além disso, tem muita gente precisando de ajuda. O que esse tempo todo em casa me ensinou é que o mundo é global e o que a gente faz aqui repercute em muitos outros lugares”, analisa.

“A humanidade está sendo testada e quero ver se a gente vai aprender alguma coisa com isso”, acrescenta.

SANTOS 
Nos primeiros meses de quarentena, Fani fez uma série de intervenções com estamparias de santos. Depois disso, começou a bordar poemas de Manoel de Barros, Nietzsche e Fernando Pessoa. “Trabalhar com as mãos é uma coisa boa porque volta a gente para o interior de nós mesmos”, afirma.

Apesar de isso ser novidade em seu fazer artístico, ela não considera o bordado uma nova fase artística. “É algo que faço para mim mesma. É terapêutico”, pontua.

Em seu segundo aniversário durante a pandemia, Fani planeja visitar o neto Valentim no Rio de Janeiro, filho de Larissa Bracher com o cantor, compositor e ator Paulinho Moska. “Não estamos no momento de comemorar muitas coisas”, conclui.


“A CASA VERDE DE TODAS AS CORES”
Filme de Blima Bracher sobre a trajetória de Fani Bracher. Lançamento nesta sexta-feira (11/06), às 20h, no canal do YouTube e no perfil do Instagram do Ateliê Casa Bracher (@ateliecasabracher). Informações: www.ateliecasabracher.com


receba nossa newsletter

Comece o dia com as notícias selecionadas pelo nosso editor

Cadastro realizado com sucesso!

*Para comentar, faça seu login ou assine

Publicidade