Tiago Baumfeld
Tiago Baumfeld
Ortopedista Especialista em Pé e Tornozelo. Doutor em Ortopedia pela UFMG.
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O excesso de motivação também machuca

O problema é que a motivação de janeiro não tolera espera. Ela quer resultado rápido, mudança visível, sensação imediata de progresso

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O início do ano costuma ser tratado como um ponto de largada. Uma linha imaginária separa o que ficou para trás do que, supostamente, pode ser refeito do zero. A virada do calendário ganha um peso simbólico que o corpo, curiosamente, não reconhece. Ele acorda em janeiro exatamente como dormiu em dezembro, com as mesmas adaptações, os mesmos limites e as mesmas contas em aberto.

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Ainda assim, janeiro chega carregado de motivação. Academia cheia, parques lotados, planilhas novas, metas ambiciosas. O discurso dominante é o da intensidade. Começar forte, aproveitar o embalo, não perder tempo. Pouco se fala sobre o custo disso quando a motivação não vem acompanhada de preparo.

Na prática clínica, esse padrão é previsível. Janeiro não é, necessariamente, o mês das grandes lesões traumáticas, mas é o mês em que se plantam muitas das lesões que vão aparecer semanas depois. Tendinites, fraturas por estresse e dores articulares persistentes raramente surgem de um único excesso. Elas nascem da soma de entusiasmo, pressa e pouca escuta do corpo.

Existe uma confusão recorrente entre motivação e capacidade. Estar motivado não significa estar preparado. O sistema musculoesquelético precisa de tempo para se adaptar a novas cargas. Ossos, tendões, cartilagens e músculos respondem ao estímulo de forma desigual, cada um em seu próprio ritmo. Quando a intensidade sobe rápido demais, o elo mais frágil costuma falhar primeiro.

O problema é que a motivação de janeiro não tolera espera. Ela quer resultado rápido, mudança visível, sensação imediata de progresso. Nesse contexto, sinais precoces de alerta são ignorados. Uma dor que surge no treino vira algo “normal”. Um incômodo persistente é tratado como parte do processo. O corpo avisa, mas a empolgação abafa.

O excesso de motivação também cria uma relação pouco saudável com o próprio corpo. Ele deixa de ser um parceiro e passa a ser tratado como obstáculo. Algo que precisa ser vencido, superado, empurrado além do limite. Essa lógica pode até funcionar por um curto período, mas cobra seu preço quando o ritmo não se sustenta.

Curiosamente, começar devagar exige mais maturidade do que começar com tudo. Respeitar progressões, aceitar limites temporários e tolerar resultados mais lentos vai contra a estética do imediatismo. Mas é justamente isso que reduz risco, aumenta consistência e permite continuidade.

No consultório, é comum ouvir frases como “aproveitei que estava animado” ou “não quis perder o gás”. A motivação, quando não é acompanhada de planejamento, vira um fator de risco. Não porque seja ruim em si, mas porque costuma dispensar o descanso, a adaptação e a paciência.

Outro ponto pouco discutido é que a motivação oscila. Ela não se mantém constante ao longo do ano. Quando o plano depende exclusivamente dela, qualquer queda vira abandono. Já quando o processo é bem estruturado, o corpo segue mesmo nos dias de menos empolgação.

O início do ano seria um momento muito mais produtivo se fosse tratado como fase de construção, não de explosão. Ajustar rotina, retomar movimento, fortalecer estruturas, criar base. Isso raramente aparece nas promessas de janeiro, mas é o que sustenta o restante do ano.

O corpo não precisa de choque. Precisa de continuidade. Motivação é bem-vinda, mas não pode ditar o ritmo sozinha. Quando isso acontece, o risco de lesão aumenta, a frustração aparece mais cedo e o abandono não demora.

Talvez a verdadeira virada de chave seja entender que cuidar do corpo não é um ato impulsivo, e sim um processo. Menos empolgação cega, mais constância. Menos pressa, mais adaptação.

Porque, no fim das contas, não é a falta de motivação que machuca. É o excesso dela, quando não vem acompanhado de bom senso.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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