Paulo Rabello de Castro
Paulo Rabello De Castro
PAULO RABELLO DE CASTRO

O que Trump não disse

Trump é mestre em ressaltar as qualidades do que pretende vender, passando por cima de detalhes e pontos fracos

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O novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, empossado dia 20 sob os atentos olhares de cidadãos do mundo inteiro, já usou, desde a véspera de sua posse na Casa Branca, uma tonelada de palavras para ameaçar os supostos adversários do seu país e prometer o resgate da grandeza da nação americana.

 

Em suas palavras, Trump fará a “America Great Again” (a América Grandiosa de Novo). Esse é o estilo Trump – agressivo e voluntarista ao extremo –, que forja sonhos para seus eleitores, aponta desafetos políticos e quer despertar boas expectativas nos cidadãos e investidores.

 

 

Sua narrativa gira sempre em torno de objetivos cinematográficos que ele haverá de realizar com seu time de colaboradores, entre os quais o homem mais rico do planeta, Elon Musk, e mais um punhado de bilionários, como seus secretários no governo. Esse é o Trump da galera, com seu jeito vulcânico, até grosseiro, de empurrar as coisas na direção que pretende.

 


Personalidades ao estilo Donald Trump precisam ser ouvidas mais pelo omitido do que pelo falado em seus discursos. Trump precisa ser interpretado mais pelo que não disse. Ele assumiu a presidência de um país cuja dívida pública federal já ultrapassa 121% do PIB americano (ver quadros). Estamos falando de um passivo do Tesouro americano na altura de US$ 36 trilhões, cujo vencimento está cada vez mais concentrado no curto prazo (cerca de 25%) e corresponde a 35% do endividamento do planeta.

 

 

Este é o problema grave sobre o qual Trump evita falar a qualquer custo. Como bom vendedor que foi, sua vida inteira, Trump é mestre em ressaltar as qualidades do que pretende vender, passando por cima de detalhes e pontos fracos. A dívida americana é um desses “detalhes”. Para continuar gerando os empregos prometidos, ele precisa de mais empreendedores dispostos a investir nos EUA. E para moderar os custos desses investimentos, ele precisa cuidar de reduzir os juros da própria dívida federal, rebaixar o custo da energia e manter o suprimento barato de insumos do resto do mundo, comprados com um dólar prestigiado. Trump precisa, em suma, estabilizar os principais itens do custo de vida dos americanos, nos supermercados e nas bombas de gasolina. E conter a escalada da dívida federal.

 

 

A velada preocupação do novo ocupante da Casa Branca, no fim do dia, é com as finanças da grande empresa que ele agora comanda, chamada Estados Unidos da América. É uma empresa espetacular, mas que enfrenta alto endividamento, juros pesados, custos crescentes e problemas com a concorrência. O empresário Trump precisa enfrentar todos esses lados de modo articulado, sem fazer propaganda negativa em torno de suas fragilidades.

 

 

Um exemplo disso, talvez o mais angustiante, é o gasto atual do governo americano com a rolagem anual da sua enorme dívida, ou seja, a conta de juros pagos aos credores. Essa conta depende da política do FED, o banco central americano. Mas este, por sua vez, fica de olho na evolução dos preços, da inflação esperada nos mercados. Portanto, Trump não pode simplesmente berrar com o Comitê de Política Monetária do FED. Daí sua insistência em reduzir o preço da energia, trocando mais poluição por menos inflação.

 

A questão dos custos internos da produção americana nos leva a outros pontos importantes das falas não faladas de Trump. Será que ele imporá taxas sobre os importados da China, da Índia, do Brasil ou do México? Só em último caso. Isso comprometeria seu projeto de estabilizar o custo de vida interno. Trump deportará imigrantes ilegais? Sim, mas apenas de modo exemplar, nunca em massa, a ponto de comprometer o suprimento de mão de obra nas fábricas e no campo.

 

Outro tema que Trump quer reposicionar são as guerras externas, pelo que representam em gastos associados dentro do orçamento anual. Trump virou um pacifista por conveniência orçamentária. Isso não quer dizer que deixará de lado a prioridade à defesa do território, embora pretenda redefinir a maneira de fazê-lo. Com isso, a Europa terá que colocar a mão no próprio bolso se quiser reforçar suas defesas contra uma potencial agressão russa, além da Ucrânia. Mais uma vez, o que importa é quem pagará a conta.

 

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Idem, em relação à birra de Trump com os burocratas instalados na máquina do governo. O excesso de burocracia, regras que tentam interferir em cada ângulo da vida das pessoas e das empresas, é um cacoete da vida contemporânea que gera custos enormes, gerando empregos inúteis e gastos desnecessários, que pesam nas contas do governo. Trump colocou Elon Musk na tarefa de podar esses excessos. Não sabemos se este é o nome certo para o cargo, mas produz a mídia recorrente com a qual Trump gosta de operar. O foco, entretanto, está nos custos da burocracia sobre o custo de vida.

 

A tática de Donald Trump ao omitir perigos e vulnerabilidades no seu grande plano não é por acaso. Ao focar em narrativas que identificam supostos inimigos e que oferecem soluções simples, ele alimenta seus apoiadores com respostas rápidas para questões complexas. Trump é um “coach”; não é um professor. Ele busca resultados numa quadra de basquete, não numa sala de aula. 

 

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