Juliana Duarte
Juliana Duarte
Chef e proprietária do restaurante Cozinha Santo Antônio, onde apresenta um trabalho autoral unindo gastronomia e história. Também é mestre em história social da cultura pela UFMG e desenvolveu pesquisa sobre a cozinha de Minas Gerais.
TÁ NA MESA

A comida da Rua Turfa

Esse cheirinho bom ficou grudado em mim e até hoje sou vidrada em carne de panela

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Nasci e cresci no Prado, exatamente na Rua Turfa. Rua boa, larga, nem íngreme, nem plana, calçada de pedra, uma casa depois da outra e suas cozinhas cheirando a comida gostosa. Minha rua era um retrato da comida belo-horizontina, uma mistura das muitas Minas: a do Norte, a do Sul, a do Triângulo, a da Zona da Mata, a de Ouro Preto, a de Sabará e, ainda, a da Itália.

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Outro dia, fui cozinhar no Prado em um evento de rua. O convite me catapultou para os cheiros e sabores do passado, a começar pela carne de panela da dona Erci. Na minha casa, a comida era um pouco metida a besta: cozinhava-se carne “de primeira” – alcatra, patinho, filé, lombo e, como concessão, lagarto e chã de dentro. Nenhuma delas cheirava como a carne de panela da dona Erci. Tinha vontade de pedir um naquinho daquela carne cozida até desfiar, mas tinha vergonha; só olhava.


Esse cheirinho bom ficou grudado em mim e até hoje sou vidrada em carne de panela. Pesquiso, testo cortes diferentes, coloco laranja, evito pressão, persigo aquela crostinha mágica que fica no fundo da panela e espalha caramelo, pingo e frito. Amarro bonito uns galhos de alecrim, de tomilho e de louro, e chamo São Benedito! Fica uma delícia, mas não é igual àquela carne que lembro bem de ver na panela da casa da vizinha.


Dona Erci era casada com seu Lindolfo, uma família muito grande e animada que veio de Pitangui. Uma vez viajei com eles em uma excursão para o Sul do Brasil. Uma viagem inesquecível: um tanto de gente grande, alguns idosos e duas crianças – eu e a Lulu, filha do casal. Imagine esse grupo num ônibus, estrada afora! Era uma cantoria, uma gritaria e uma risaiada sem fim. Mas o melhor de tudo era uma lata de paçoca de carne que circulava entre as poltronas do busão. Nunca tinha visto aquilo! Como de costume, comia-se com a mão e de arremesso, uma maravilha!


Quando virei cozinheira de verdade, logo quis aprender a fazer essa iguaria. Semana passada, na Semana Criativa de Tiradentes, preparei ao vivo essa receita e lançamos o Primeiro Campeonato de Arremesso de Paçoca de Minas Gerais, quiçá do universo!


Para acompanhar a sonhada carne da dona Erci, ficava imaginando o que se servia lá em casa, o imbatível arroz soltinho com feijão cremoso e as batatas da minha mãe, sempre bem douradinhas por fora e claras por dentro, no ponto perfeito entre firmes e macias. Farofa não podia faltar, e a glória era quando vinham duas empadinhas de queijo Minas (naquela época tratado assim, genericamente). Se tivesse couve fininha assustada na banha com um tiquitinho de alho, o que já era bom ficava melhor ainda.


Em ocasiões especiais, outros pratos vinham para a cozinha da vizinhança. Na casa da dona Mafalda, descendente de italianos, o espetáculo eram os capeletes. Ela juntava a família toda, filhos e filhas, e ainda uma vizinha enxerida como eu. E dá-lhe serviço: abrir a massa, cortar, rechear, moldar... Não me lembro de ter comido os capeletes, só lembro mesmo do ritual e de ver as mesas todas da casa – da copa, da cozinha e da sala de jantar – cheias de discos de massa. Pois, quando preciso de uma comida capaz de me tirar da escuridão, desejo capelete al brodo.

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Para arrematar as refeições, era inevitável a goiabada com queijo ou uma bacia de laranja descascada na hora, em meio a muita conversa fiada. Quando o responsável por essa tarefa conseguia tirar uma fita de casca inteirinha, as meninas disputavam o troféu. A mágica era rodar a casca dizendo o abecedário inteirinho. Quando a casca arrebentava, a letra que estava sendo dita correspondia ao nome do moço com quem ela iria se casar. Gente, quem será que inventou essa brincadeira? Não sei, só sei que era assim!

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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